Da Desculpa como Figura de Linguagem.

Não sou necessariamente um leitor fanático por blogs, de modo que só leio uns oito com grande frequência, e mesmo assim só raramente, quando entro na internet. Ou seja: acordo, ligo o laptop, vejo se o Guina Médici leu mais algum livro, e então estou preparado para lavar a cara e escovar os dentes; saio, sem internet móvel, preocupado com a possível nova polêmica de Rafael Galvão; volto, e antes de tomar banho, dou uma olhada no blog do  Milton Ribeiro e no da Cia das Letras (desculpe pelas ironias).

Dou preferência a crônicas, anedotas, tiras, e pequenos ensaios, principalmente aos blogs sobre assuntos variados. Não percebo um estilo em comum, mas uma característica curiosa de alguns destes textos, que não creio ser motivo de louvores nem de engulhos, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha (desculpe a expressão): a mania de se fazer a própria crítica, ou de se desculpar por usar figuras de linguagem, clichês e trocadilhos infames.

Num texto publicado essa semana no blog do Instituto Moreira Salles, a Luisa Geisler ressalta a terribilidade de seus trocadilhos, ao falar do “florescimento” dos hippies nos anos 60, e do estereotipo “batido” dos beats. O primeiro trocadilho nem é tão óbvio, e poderia passar despercebido, se ela não fizesse questão de mostrá-lo. O segundo é mais evidente, mas também não é nada tão grave assim.

Charlles Campos, num texto que li ontem por acaso, fala da veia “extrovertida, expansiva e exuberante” de alguns romances de Saul Bellow, para em seguida pedir desculpas pelas aliterações. Aí eu penso: que mal há em escrever aliterações? Já pensou o que seria de Nabokov sem elas?

Este ato se torna muito mais interessante por ocorrer nos meios virtuais (não quero dizer que esteja restrito a eles), onde a multidão mal-educada não tem vergonha de falar besteira, compartilhar porcaria, e de arrumar confusão com desconhecidos.

Sou um leitor muito literal (desculpe o possível pleonasmo), e se eu vejo um pedido de desculpas, acredito que haja uma razão para isto. A desculpa geralmente é um ato de humildade e renegação; se alguém a usa comigo, mesmo sendo eu apenas seu hipotético leitor, posso a interpretar como uma maneira de se tentar fazer diferente na próxima ocasião (desculpe a rima em oxítona [desculpe a repetição]).

Mas com textos escritos a coisa funciona diferente, pois há mais tempo para perceber e evitar um erro ou grosseria. Percebê-lo, e não consertá-lo, é no mínimo estranho. E mesmo que eu não veja, se um leitor me pede para ajeitar uma expressão, eu não peço desculpas; simplesmente vou lá e faço. Por que eles não fazem o mesmo e se livram das desculpas, coisas tão desagradáveis a se submeter?

Aí que está. A desculpa, penso, se tornou a própria figura de linguagem. Ela é usada não com sua função usual, – humilde, rouca, e cabisbaixa (desculpe as metonímias) -, mas como forma figurada de destacar o trocadilho, um meio cortês de ressaltar a metáfora, uma maneira conotada de evitar os comentários desagradáveis que fariam sobre o maldito clichê.

Ainda assim, o simples fato de se pedir desculpa por estas expressões dá aos textos um ar cool e ao mesmo tempo polido; aproxima o leitor de si, enquanto o bajula de leve, por julgá-lo conhecedor de retórica. E se o trocadilho for bom, ela é usada como fazia aquele jogador, que se dirigia à torcida adversária logo após marcar um gol: “desculpa aê”… Mas me desculpem, acho que já estou enchendo o saco, sempre falando de futebol.

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