As Brincadeiras de Borges.

A escrita tem esta peculiaridade de independer do meio em que é transmitida: narradas, lidas, declamadas, as palavras ficam as mesmas. Não importa se meu Brás Cubas é de 1881 ou de 2012, lá está o narrador dizendo, com as mesmas palavras, que não transmitiu “o legado de nossa miséria” (por outro lado, lemos Dante, Cervantes, Goethe, sempre em traduções renovadas, revistas, revisitadas. Há sempre uma estranheza em lê-los nos idiomas em que escreveram; são ricos em arcaísmos e expressões inusitadas [jamais antiquados]). Já um Hamlet encenado em 1605 é inevitavelmente diferente dum atual. No mínimo faltam os escarros e escárnios do público. Hoje se respeita demais os concertos, óperas e sonatas; vamos muitas vezes despejando um bolinho de dinheiro antes de entrar, sempre de calças e sapatos, em silêncio, batendo palmas nos momentos devidos, para não atrapalhar os músicos que apresentam a obra de um artista consagrado que provavelmente levou uma tomatada em algum momento de sua vida. A vaia ficou restrita ao futebol.

Mas a questão é que, devido a seu caráter ao mesmo tempo imutável (em relação à forma) e maleável (ao formato), fica mais fácil acreditar num texto em primeira pessoa; está tudo lá do mesmo jeito. Num filme narrado assim, por mais que haja a suspensão da descrença, pensamos que não há o que temer, pois se trata de um ator, este que está sendo assassinado. E não há como o mais novo Lincoln nos convencer para além das portas do cinema, pois sabemos da inexistência das filmadoras em sua época. São tempos bem diferentes daqueles em que se corria de trens.

Mas quando li O Gato Preto pela primeira vez, na adolescência, pensei aterrorizado que Poe tinha matado a esposa! Agora me parece ingênuo, uma vez que estudei as diferenças entre autor e narrador, e as funções da primeira pessoa ao se contar uma história; mas mesmo com tudo isso, quem lê obras como Nove Noites ou os livros de W. G. Sebald pode confundir as vozes que ali estão. Ambos (autores) incluem fotos de si mesmo nos paratextos (Bernardo Carvalho na orelha da edição em brochura, Sebald no meio de Os Anéis de Saturno), ou informações biográficas que se confundem com a obra ficcional. Recentemente James Frey causou escândalo ao vender como não-ficção seu A Million Little Pieces, com muitos trechos inventados, o que lhe trouxe problemas com a Oprah.

No cinema isso me parece muito mais bem feito quando a ficção se mistura ao documentário. A Bruxa de Blair realmente parece um filme amador, e o final em aberto, sem monstros, assusta. Já o Sacha-Baron-Cohen se transforma nos personagens dos filmes que lança, apesar de que hoje em dia ele está muito famoso. Quando fez Borat, muita gente pensou que era um documentário de verdade. O Joaquin Phoenix também causou polêmica ao endoidecer por um ano inteiro, sem aparente motivo.

Como disse, passei a me instruir sobre as diversas formas de narrar, e seus truques. Mas logo no começo, caiu-me nas mãos o meu primeiro Borges. Isso é um choque, para um leitor inexperiente. O argentino, também consciente destas artimanhas narrativas, escreveu contos com elementos do ensaio acadêmico, com toda a erudição possível, se apoiando numa pretensa infalibilidade dos doutores. Eu não sabia que ele era um brincalhão, e apesar do livro se chamar Ficções, acreditava em algumas daquelas narrativas maravilhosas (principalmente no ensaio sobre um sujeito que reescreveu o Quixote de cabo a rabo e, de acordo com os argumentos do ensaio, criou uma obra original).

Com Bioy Casares, inventou não só um pseudônimo para seus contos policiais, mas um autor, com estilo e personalidades próprias, e que como pessoa me parece mais real que o Pynchon e o Trevisan. Depois, com seus próprios nomes, criticavam os textos do sujeito, conforme aprenderam com o Swift. O próprio pseudo-autor, Bustus Domecq, fazia críticas de obras de arte modernistas que não existiam. Quem não sabia do segredo realmente acreditava; hoje estes textos vêm assinados pela dupla.

Veja o que os dois dizem numa propaganda de coalhada:

“Quem tem saúde tem esperança, e quem tem esperança tem tudo – dizem os árabes, esses musculosos falcões do deserto, mas eles têm por trás da esperança algo que luta por sua saúde: a coalhada.”

Isto estava numa propaganda que fizeram juntos. Também diziam que o iogurte aproxima o homem da imortalidade e na Bulgária, onde é um alimento apreciado, proliferam os centenários. “O exemplo clássico é dos onze irmãos Petkof que chegaram todos aos cem anos, com exceção de María Petkof, morta aos 91”.

E aí está. Além de seu grande poder descritivo e argumentativo, Borges, com ou sem Casares, trazia fontes e exemplos dos lugares mais remotos e inacessíveis da história do planeta. Como se ele mesmo possuísse um Aleph, e pudesse ver tudo. No entanto, não era todo mundo que tinha acesso aos mesmos volumes raros e esquecidos de sua biblioteca. Outros não tinham capacidade de ler tantos textos complicados nos mais diversos idiomas.

Mas o criador da Biblioteca de Babel não podia contar com a invenção do Google. Sem um motivo específico, resolvi conferir como estava em minha Bíblia a tradução de certo versículo que ele cita. Não existia! A partir de então, passei a verificar com mais atenção alguns desses nomes estranhos que ele citava, jogando no Google. A mais divertida eu descobri antes de digitar a palavra, e está  no conto “A Loteria da Babilônia”:

Para indagar as íntimas esperanças e os íntimos terrores de cada um, dispunham de astrólogos e de espiões. Havia certos leões de pedra, havia uma latrina sagrada chamada Qaphqa, havia algumas fendas no poeirento aqueduto que, conforme a opinião geral, levavam à Companhia; as pessoas malignas ou benévolas depositavam delações nesses sítios.

A falta de informação é a origem de certas crenças. Me perguntei, pasmo, de onde ele tirava estas informações. O segredo é bem simples. Nós, os leitores, tendemos a simplesmente pular os nomes próprios de idiomas deveras estranhos, a não ser que já sejam famosos, ou os lemos sem atenção. Lembramos pouco de nomes árabes, suecos, russos, japoneses. Daí que o “q” e o “a” juntos são muito estranhos para que lhe dispensemos um pensamento mais profundo. Parece árabe. O “ph” soa diferente, principalmente em português, como as coisas do idioma antigo. Mas basta uma lida em voz alta, e lá está um escritor bastante conhecido. Depois disso parei de procurar, repetindo sozinho o nome do sagrado Qaphqa.

Como Fugir do Clichê

Não sou bem um leitor de livros de auto-ajuda pra sair de cara falando deles, mas se na lista de atitudes a serem tomadas para fazer amigos (ou encontrar o seu amor eterno) não estiver incluso algo como “procure uma afinidade em comum”, há algo de errado com esses escritores. Para quem cresceu no interior, como eu, numa época sem internet, o que havia de comum eram os desenhos animados, o cinema, o futebol, os games. Ao crescer, me surgiram o rock, o cinema cult, as HQs independentes, e eram poucos os que compartilhavam estas afinidades por lá.

Por isso, num primeiro momento, fiquei encantado com a quantidade de pessoas interessantes da capital. Roqueiros, nerds, estrangeiros. Mas veja só, já tive por demais conversas de apresentação you-are-what-you-like parecidas, fundamentadas no name-droping, para perceber que, primeiro, muita gente diz gostar de certas coisas por puro exibicionismo e, segundo, que a maioria tem personalidades pré-fabricadas. Podia vir a Johansson me dizendo que gosta de Sebald, Jimmy Corrigan e The Night Of The Hunter, e eu evitaria uma conversa mais longa, antes de conferir na internet.

Acho muito chato ver duas pessoas da minha idade se conhecendo e falando algo como “uau, você também jogou o Sonic do Master?”. Bah, todos nós fizemos isso, como vocês já deviam ter percebido, depois de 26 anos. Devido a uma poderosa indústria cultural de massa, parte de nossa formação é homogênea, de modo que não é tão extraordinário descobrir afinidades numa pessoa que cresceu de modo parecido, mesmo que bem longe. Há coisas que todos fizeram. Por isso os diálogos sagazes de Apenas o Fim, de Matheus Souza, talvez não façam sentido para quem não acompanhou a mesma formação; tantos os mais velhos quanto os mais jovens, antenados à suas próprias épocas, se perderão em suas referências datadas. Uma coisa é o Woody Allen fazer piadas sobre Dostoiévski e Groucho Marx, outra é o personagem de Matheus falar do Omelete ou de um show da Britney no Rio. Cada geração com seus motivos e referências.

Mas persistem certos padrões entre os adolescentes, desde meu tempo. Aquela velha história de ser diferente, de impor suas opiniões, o rebelde, o suicida, blusa de banda, multiplex, Sandman, mimimi. Por isso, o que menos me interessou na história de Vinicius Gageiro Marques, que li essa semana, foi o suicídio ajudado por internautas. No meu tempo todo mundo era assim. Além de que, ó meu deus, se tratava de mais um artista!

Nutro um preconceito cada vez mais fundamentado contra adolescentes que se dizem artistas, principalmente aqueles cujas obras são editadas pelos próprios pais. Mas o Vinícius, ou Yoñlu, me pareceu diferente. Apesar da capa horrorosa que fizeram para seu disco póstumo, um verdadeiro tiro no pé, as fotos e desenhos do garoto, claramente inspiradas na estética do Radiohead, tinham uma qualidade incomum. E me chamou a atenção foi uma frase sem erros ortográficos, sem banalidades, sem falsas autorias. “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios”. Oras, esse é meu critério de desempate, antes de decidir entre abrir ou não um link que me surge. Tenho um preconceito com músicos, cineastas e artistas visuais que conseguem escrever uma frase sem dificuldades: sempre acho que serão bons.

Abri Humiliation enquanto lia o texto. A pegada melancólica me lembrou o Elliot Smith (outro suicida, por sinal). A letra também tem seus achados como [It’s time to shrink/To be smaller than a grain of salt to do at sea]. Penso que ele conseguiu transmitir com suas canções aquela nota de tristeza inerente a todos os momentos. Parecia lidar melhor com o inglês que com o português, ao escrever seus versos.

Não gostei tanto da letra de Mecânica Celeste Aplicada, em comparação com o que ouvira antes. Faltou a naturalidade das outras. Talvez fosse devido a sua formação sólida no cancioneiro pop de língua inglesa. Descubro que ele também era fluente em francês e galês, que escrevia crítica musical em sites estrangeiros e que, devido à sua rede de contatos online, teve uma canção tocada em pubs de Londres. Era com facilidade o artista cosmopolita que muitos forçam a barra para ser e não conseguem.

Sua canção mais ambiciosa, The boy and the Tiger, que só ouvi depois, é revolucionário dentro de sua própria obra. Primeiro, mostra que ele também tinha conhecimento do cancioneiro nacional (li depois que ele era fã da Bossa Nova). Em sua forma, me lembra outras canções-colagens, como Revolution #9 e Paranoid Android, que ele admirava, ou as coisas do Bill Holt, que não sei se ele conhecia. Cita Beatles, recria Geraldo Vandré, enfia no meio comentários de gravação, sons de animais, chiados, umas dissonâncias, umas desafinadas, música eletrônica, uma backward message (tradição do próprio rock) e o discurso de Caetano, feito num festival de 1968. Mas acima de tudo é agradável aos ouvidos.

Não há o que discutir sobre Vinicius; seu legado é evidente. Nada como a honestidade aliada à técnica, à coragem, e ao talento, para destruir um clichê. Pena que não há mais frutos a se esperar de uma árvore tão bem cultivada.