Como Fugir do Clichê

Não sou bem um leitor de livros de auto-ajuda pra sair de cara falando deles, mas se na lista de atitudes a serem tomadas para fazer amigos (ou encontrar o seu amor eterno) não estiver incluso algo como “procure uma afinidade em comum”, há algo de errado com esses escritores. Para quem cresceu no interior, como eu, numa época sem internet, o que havia de comum eram os desenhos animados, o cinema, o futebol, os games. Ao crescer, me surgiram o rock, o cinema cult, as HQs independentes, e eram poucos os que compartilhavam estas afinidades por lá.

Por isso, num primeiro momento, fiquei encantado com a quantidade de pessoas interessantes da capital. Roqueiros, nerds, estrangeiros. Mas veja só, já tive por demais conversas de apresentação you-are-what-you-like parecidas, fundamentadas no name-droping, para perceber que, primeiro, muita gente diz gostar de certas coisas por puro exibicionismo e, segundo, que a maioria tem personalidades pré-fabricadas. Podia vir a Johansson me dizendo que gosta de Sebald, Jimmy Corrigan e The Night Of The Hunter, e eu evitaria uma conversa mais longa, antes de conferir na internet.

Acho muito chato ver duas pessoas da minha idade se conhecendo e falando algo como “uau, você também jogou o Sonic do Master?”. Bah, todos nós fizemos isso, como vocês já deviam ter percebido, depois de 26 anos. Devido a uma poderosa indústria cultural de massa, parte de nossa formação é homogênea, de modo que não é tão extraordinário descobrir afinidades numa pessoa que cresceu de modo parecido, mesmo que bem longe. Há coisas que todos fizeram. Por isso os diálogos sagazes de Apenas o Fim, de Matheus Souza, talvez não façam sentido para quem não acompanhou a mesma formação; tantos os mais velhos quanto os mais jovens, antenados à suas próprias épocas, se perderão em suas referências datadas. Uma coisa é o Woody Allen fazer piadas sobre Dostoiévski e Groucho Marx, outra é o personagem de Matheus falar do Omelete ou de um show da Britney no Rio. Cada geração com seus motivos e referências.

Mas persistem certos padrões entre os adolescentes, desde meu tempo. Aquela velha história de ser diferente, de impor suas opiniões, o rebelde, o suicida, blusa de banda, multiplex, Sandman, mimimi. Por isso, o que menos me interessou na história de Vinicius Gageiro Marques, que li essa semana, foi o suicídio ajudado por internautas. No meu tempo todo mundo era assim. Além de que, ó meu deus, se tratava de mais um artista!

Nutro um preconceito cada vez mais fundamentado contra adolescentes que se dizem artistas, principalmente aqueles cujas obras são editadas pelos próprios pais. Mas o Vinícius, ou Yoñlu, me pareceu diferente. Apesar da capa horrorosa que fizeram para seu disco póstumo, um verdadeiro tiro no pé, as fotos e desenhos do garoto, claramente inspiradas na estética do Radiohead, tinham uma qualidade incomum. E me chamou a atenção foi uma frase sem erros ortográficos, sem banalidades, sem falsas autorias. “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios”. Oras, esse é meu critério de desempate, antes de decidir entre abrir ou não um link que me surge. Tenho um preconceito com músicos, cineastas e artistas visuais que conseguem escrever uma frase sem dificuldades: sempre acho que serão bons.

Abri Humiliation enquanto lia o texto. A pegada melancólica me lembrou o Elliot Smith (outro suicida, por sinal). A letra também tem seus achados como [It’s time to shrink/To be smaller than a grain of salt to do at sea]. Penso que ele conseguiu transmitir com suas canções aquela nota de tristeza inerente a todos os momentos. Parecia lidar melhor com o inglês que com o português, ao escrever seus versos.

Não gostei tanto da letra de Mecânica Celeste Aplicada, em comparação com o que ouvira antes. Faltou a naturalidade das outras. Talvez fosse devido a sua formação sólida no cancioneiro pop de língua inglesa. Descubro que ele também era fluente em francês e galês, que escrevia crítica musical em sites estrangeiros e que, devido à sua rede de contatos online, teve uma canção tocada em pubs de Londres. Era com facilidade o artista cosmopolita que muitos forçam a barra para ser e não conseguem.

Sua canção mais ambiciosa, The boy and the Tiger, que só ouvi depois, é revolucionário dentro de sua própria obra. Primeiro, mostra que ele também tinha conhecimento do cancioneiro nacional (li depois que ele era fã da Bossa Nova). Em sua forma, me lembra outras canções-colagens, como Revolution #9 e Paranoid Android, que ele admirava, ou as coisas do Bill Holt, que não sei se ele conhecia. Cita Beatles, recria Geraldo Vandré, enfia no meio comentários de gravação, sons de animais, chiados, umas dissonâncias, umas desafinadas, música eletrônica, uma backward message (tradição do próprio rock) e o discurso de Caetano, feito num festival de 1968. Mas acima de tudo é agradável aos ouvidos.

Não há o que discutir sobre Vinicius; seu legado é evidente. Nada como a honestidade aliada à técnica, à coragem, e ao talento, para destruir um clichê. Pena que não há mais frutos a se esperar de uma árvore tão bem cultivada.

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2 pensamentos sobre “Como Fugir do Clichê

  1. interessante o mini perfil desse rapaz. não ouvi a música dele, mas twittei o texto. há ideias interessantes aqui. “Tenho um preconceito com músicos, cineastas e artistas visuais que conseguem escrever uma frase sem dificuldades: sempre acho que serão bons.”. em terra de artista autista, quem tem pena é rei.

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