Sonhos de Einstein

Acompanho a meia distância as discussões sobre as diferenças entre os livros em papel e os digitais, e não sei se já falaram alguma coisa sobre o modo de descobrir novas obras. As pesquisas online, por meio da leitura de críticas profissionais, comentários de leitores, textos biográficos, catálogos e até por cliques descuidados, já me fizeram descobrir autores interessantes. Entretanto há sempre uma lerdeza, pois não possuo um leitor digital, e devo esperar até poder verificar minhas descobertas. O livro digital é instantâneo, e ensina o desapego.

Por outro lado, ele não elimina meu fetiche de flanar por bibliotecas, sebos e livrarias em busca de algo interessante. Nunca fiz isso para não voltar com uma descoberta, um livro inesperado, uma bela edição, um volume que eu não seria capaz de esquecer, até que o tivesse em minhas estantes. Não é um privilégio meu: foi assim que Bukowski descobriu Pergunte ao Pó, que a Sontag encontrou o fabuloso Verão em Baden-baden, do Tsípkin, que Truffaut comprou uma edição de Jules et Jim, que veio a adaptar. São muitos os casos.

Ano passado pedi O Náufrago, do Bernhard, pela internet, e para minha surpresa veio uma charmosa edição de bolso, pela Companhia das Letras, bem diferente da edição atual. Mas surpresa maior foi quando encontrei outros livros semelhantes, de autores que eu nunca havia ouvido falar, num saldão de uma livraria falida. A Morte de Napoleão, de Simon Leys (por coincidência, ele foi publicado na Serrote mais recente), e Viagem à Terra das Moscas, de Aldo Buzzi. Comprei os dois, após folhear algumas páginas. O risco valia o preço de cinco reais.

Ambos têm sobrecapa removível, o formato de 11×15, e capas de Victor Burton. São livros que se lê em um ou dois dias. Os autores não se repetem. Fazem parte de uma coleção fora de catálogo, da qual não encontro referências a um nome ou lista disponível. Procurando por estas características no site da editora, monto aos poucos a minha coleção, mas volta e meia encontro volumes que não estão lá, como o próprio livro do Leys, o do Buzzi, ou o Histórias com Matisse da A. S. Byatt.

Hoje li um que descobri no site, Os Sonhos de Einstein, de Alan Lightman. O título sugere um romance histórico tendo o físico alemão como protagonista; porém, apesar de ele aparecer, o livro é mais focado em seus sonhos, que no dono deles. E com o que Einstein sonhava? Com o tempo, em suas diversas dimensões.

Os trinta sonhos se passam em 1905, o annus miriabilis de Einstein, entre as cidades de Berna, Friburgo, Zurique, e mostram pessoas comuns, padeiros, açougueiros, advogados, pais, filhos, amantes, quando não o próprio físico, em diversas épocas da vida, lidando com estas dimensões temporais. Estruturalmente, e até em seu conteúdo, o livro se assemelha ao Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. Se, neste, as breves narrativas sobre as cidades fantásticas são separadas com as conversas de Kublai Khan e Marco Polo, no de Lightman temos interlúdios onde Einstein mantém conversas cotidianas com o amigo Michele Besse. Funcionam como contos ao mesmo tempo ensaísticos e poéticos, ao relacioná-lo com o que há de humano – o amor, a ambição, a tristeza, a felicidade, a morte.

Num desses mundos não há passado, e as pessoas não possuem memórias ou experiências; noutro, não há futuro, e elas não têm perspectivas. Num, as pessoas voltam no passado, mas são obrigadas a passar despercebidas, sem mover uma folha sequer, para que nada se altere no futuro; noutro, as consequências precedem as causas, e “quando a maré explode na costa, a costa se reconstrói”. Num, as pessoas são eternas e vivem pedindo conselhos para seus inúmeros parentes; noutro um dos que achei mais bonitos, a terra demora o tempo de uma vida para girar em sua própria volta, de modo que as pessoas se acostumam ao dia ou à escuridão. É o tipo de livro que vale a pena se descoberto, daqueles que, enquanto se lê, faz o tempo passar despercebido.

A Morte do Parente Famoso

Salvador não é uma cidade para noctívagos; só me atrevo a andar à noite por lá quando estou completamente embriagado, transformando-me também talvez num fator de risco. Os automóveis correm perigo, estacionados em qualquer uma das ruas escuras da cidade, como pude comprovar recentemente. Por isso, vago minhas noites numa viagem em volta do meu quarto, geralmente assistindo ao Programa do Jô. Pude perceber que ir lá é o ápice na carreira dos artistas medianos, a realização de um sonho. Eu gostaria de ir; o que mais esperar?

Mas isso nunca me foi uma meta pessoal tão importante quanto ser criticado por Daniel Piza. Além de estar inteirado das novidades, era o melhor e mais honesto jornalista cultural deste país. Foi o único caso que vivi de alguém me ligar com pesar para me avisar da morte de uma pessoa que eu não conhecia. Produziria muito mais, e enquanto isso, Niemeyer, Dona Canô e Manoel de Oliveira continuam firmes e fortes, com todas as honrarias possíveis, no auge dos seus 105 (o Manoel ainda em atividade). Sua morte mudou as nossas rotinas. Era o fim das leituras diárias de seus textos sagazes, sobre todos os assuntos, que eu gosto de chamar de onigrafia. Poucos dias antes de sua morte, tive um diálogo com ele sobre A Lebre com Olhos de Âmbar, e como sabia sua idade, jamais esperaria que fosse partir tão jovem. Até hoje estou meio abalado.

Mas tudo isso é para dizer que hoje morreu um parente distante meu e de muita gente nessa cidade, bastante famoso, e não importou tanto pra ninguém, nem mesmo pra mim. Meio que ofuscados no Brasil, pela morte da Hebe, eis que se vai, além de Eric Hobsbawm, o escritor Autran Dourado. Não tem um mês que passei uma dessas noites claras lendo sobre ele. Andava verificando a lista do Prêmio Goethe, e entre nomes como Mann, Bergman, Hesse, Gombrich, lá estava o Dourado, um brasileiro numa lista daquelas. Também foi galardoado com o Camões, e por isso pesquisei um pouco sobre sua obra, e há duas semanas comprei Os Sinos da Agonia, cuja edição da Rocco é um pouco melhor que o horrível volume editado por seus herdeiros, o único que eu encontrara antes. Foi bastante lido. A Ópera dos Mortos está entre os 100 livros essenciais da literatura brasileira, da Bravo!, e é considerada sua obra-prima.

Além disso, esse Dourado não é como os vários Ravieres que existem no Brasil, que às vezes me mandam mensagens, como se realmente fossem meus parentes. Apesar de ser mineiro, sua genealogia em algum ponto coincide com a minha, e de todos os outros dourados daqui; no livro de Adélio Dourado, que conta a história da família, sua foto tem destaque, entre os parentes mais famosos, e seus livros são fáceis de serem encontrados, apesar de não serem lidos (mas isso não exclusividade sua). Conheço um dos netos de Jorge Amado, que também ganhou o Camões, e é bem diferente com o baiano. Todo mundo só fala nele, enquanto Autran Dourado, célebre escritor, passa batido. Não há nada o que fazer. Fico indignado com minha própria indiferença. O que mais me abala na morte de meu companheiro de sobrenome e ofício, é que ninguém o conhece por aqui, apesar do instintivo costume humano de se vangloriar dos feitos daqueles que nos são próximos.