A Morte do Parente Famoso

Salvador não é uma cidade para noctívagos; só me atrevo a andar à noite por lá quando estou completamente embriagado, transformando-me também talvez num fator de risco. Os automóveis correm perigo, estacionados em qualquer uma das ruas escuras da cidade, como pude comprovar recentemente. Por isso, vago minhas noites numa viagem em volta do meu quarto, geralmente assistindo ao Programa do Jô. Pude perceber que ir lá é o ápice na carreira dos artistas medianos, a realização de um sonho. Eu gostaria de ir; o que mais esperar?

Mas isso nunca me foi uma meta pessoal tão importante quanto ser criticado por Daniel Piza. Além de estar inteirado das novidades, era o melhor e mais honesto jornalista cultural deste país. Foi o único caso que vivi de alguém me ligar com pesar para me avisar da morte de uma pessoa que eu não conhecia. Produziria muito mais, e enquanto isso, Niemeyer, Dona Canô e Manoel de Oliveira continuam firmes e fortes, com todas as honrarias possíveis, no auge dos seus 105 (o Manoel ainda em atividade). Sua morte mudou as nossas rotinas. Era o fim das leituras diárias de seus textos sagazes, sobre todos os assuntos, que eu gosto de chamar de onigrafia. Poucos dias antes de sua morte, tive um diálogo com ele sobre A Lebre com Olhos de Âmbar, e como sabia sua idade, jamais esperaria que fosse partir tão jovem. Até hoje estou meio abalado.

Mas tudo isso é para dizer que hoje morreu um parente distante meu e de muita gente nessa cidade, bastante famoso, e não importou tanto pra ninguém, nem mesmo pra mim. Meio que ofuscados no Brasil, pela morte da Hebe, eis que se vai, além de Eric Hobsbawm, o escritor Autran Dourado. Não tem um mês que passei uma dessas noites claras lendo sobre ele. Andava verificando a lista do Prêmio Goethe, e entre nomes como Mann, Bergman, Hesse, Gombrich, lá estava o Dourado, um brasileiro numa lista daquelas. Também foi galardoado com o Camões, e por isso pesquisei um pouco sobre sua obra, e há duas semanas comprei Os Sinos da Agonia, cuja edição da Rocco é um pouco melhor que o horrível volume editado por seus herdeiros, o único que eu encontrara antes. Foi bastante lido. A Ópera dos Mortos está entre os 100 livros essenciais da literatura brasileira, da Bravo!, e é considerada sua obra-prima.

Além disso, esse Dourado não é como os vários Ravieres que existem no Brasil, que às vezes me mandam mensagens, como se realmente fossem meus parentes. Apesar de ser mineiro, sua genealogia em algum ponto coincide com a minha, e de todos os outros dourados daqui; no livro de Adélio Dourado, que conta a história da família, sua foto tem destaque, entre os parentes mais famosos, e seus livros são fáceis de serem encontrados, apesar de não serem lidos (mas isso não exclusividade sua). Conheço um dos netos de Jorge Amado, que também ganhou o Camões, e é bem diferente com o baiano. Todo mundo só fala nele, enquanto Autran Dourado, célebre escritor, passa batido. Não há nada o que fazer. Fico indignado com minha própria indiferença. O que mais me abala na morte de meu companheiro de sobrenome e ofício, é que ninguém o conhece por aqui, apesar do instintivo costume humano de se vangloriar dos feitos daqueles que nos são próximos.

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