O pior verso de nosso cancioneiro

Stendhal e Machado se deram poucos leitores. Milton Ribeiro sempre se refere a seus sete, e Charlles Campos alega ter menos de quatro. Este blog tem, com certeza, dois; e por isso não justifiquei aqui a minha ausência de mais de um mês. Ambos sabem que eu estive pescando, lendo gibis, jogando X-box, testando maneiras de fritar picanha, e catando piolhos em minha dissertação.

Mas agora estou de volta.

Meus dois leitores sabem, ou devem supor, que minha memória musical é a mesma de um peixe de aquário. Para cada dez músicas que aprendo a tocar por ano, fico com uma ou duas, se praticar bastante. Sou capaz de me lembrar de melodias, e às vezes de letras, mas dificilmente de ambas ao mesmo tempo, e sou péssimo para assobiar ou mesmo murmurá-las, e em vez das palavras certas, me lembro de sinônimos e imagens soltas, de modo que me é fatalmente difícil conversar sobre música (nem deveria mencionar a música erudita, onde as sonatas e sinfonias têm os nomes todos parecidos).

Mas perto de um PC eu fico danado. Consigo encontrar trilhas de filmes e comerciais, identifico trechos que ouço em festas, lojas, rádios, rodas de viola, sem passar pelo constrangimento de perguntar a ninguém, encontro as notas de músicas que não consigo tirar e, ao conversar, mando links diretamente. Além disso, mesmo que eu tivesse um punhado de LPs, acho maís fácil analisar uma canção pelo computador, com acesso a letras, vídeos, informações.

E o que percebo é que as pessoas tratam com demais solenidade canções que talvez não mereçam. Endeusam certos compositores como se eles tivessem o toque de Midas, o colocam ao lado de nossos grandes escritores, como se fosse a mesma coisa. Mas lembremos que mesmo Vinicius, o poeta, na letra de uma canção importantíssima, escreveu uma pieguice como “pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca”. Depois de uma dessas, não deixo de imaginar uma trupe de palhaços trocando por pirulitos os charutos da sorumbática audiência, que respeita por demais o Joãozinho para dar qualquer tossidinha.

Claro, sempre soubemos que letra e poesia são coisas diferentes. Mas a palavra cantada pode fazer a completa diferença. O rock de Cristo e o do cão seriam a mesma coisa, não fossem as letras. Sinatra não cantaria bossa nova se ela permanecesse em português, e talvez ela ainda fosse anônima ao resto do mundo. Letra é importante, e completa a melodia. A canção flui com tanta jovialidade quando ambas são bem feitas!

Algumas letras, por sinal, são tão boas que se sustentariam por si só. Minha favorita é a de Chão de Estrelas, mas gosto também de Juízo FinalGeni e o Zepelim (adaptada de Seeräuber Jenny, que está na minha outra lista), O que é o que éCachaça MecânicaNoite TortaMente ao meu CoraçãoTrês Meninas do BrasilTerra, que listo em profusão, sem repetir autores, porque sei que a maioria será conhecida mesmo que não por seus títulos. O que têm em comum? Além de esmero técnico (métrica, ritmo ou rimas), apresentam com criatividade as ideias, imagens, metáforas.

Mas este meu pequeno cânone é a coisa mais errática que se pode haver. Não se fie somente nele, leitor, que eu sou ouvinte de ocasião. Garanto a qualidade das que estão, mas não de suas ausências, certamente inúmeras. Sei que há outras, conheço outras. Além de que, muitas canções excelentes têm a letra sem sal. De qualquer forma, rodeado de música que estamos, afirmo sem medo, pelo que ando ouvindo por aí, que a maioria das letras das canções brasileiras, excluindo as modas, não se destacam tanto quanto essas, mas mantêm um bom nível. Em geral, não chegam a comprometer. São boas de cantar, deixam uma sensação agradável, trazem algo de novo.

Por outro lado, há um seleto grupo de letras tão malfeitas que chegam a piorar as melodias que tentam sustentar. Daniel Piza fez uma enquete. Às vezes a falha ocorre por acaso. Outras vezes há pretensões irrealizadas por parte de seus criadores, que se veem como artistas acima de suas capacidades reais. Os Mamonas fizeram uma boa paródia destes tipos e seus fãs em Uma Arlinda Mulher. Umas são feitas de brincadeira, mas levadas a sério por seus intérpretes e ouvintes. Outras juntam tudo. Nem vou falar aqui de coisas como “começo a me lembrar do que ainda não me esqueci” ou “todo mundo tá revendo
o
 que nunca foi visto”, porque nem percebo tanta pretensão assim nestas bandas ou em seus ouvintes.

Vejamos algumas destas letras.

Geraldo Azevedo e Zé Ramalho são compositores regulares, mas foram particularmente infelizes em suas versões de Bob Dylan, um dos maiores letristas do século passado. Não as analisei a fundo, mas ainda assim encontrei coisas absurdas. Vou direto ao ponto: em O Amanhã é Distante, ninguém nunca se perguntou por que diabos esta pessoa queria que seu amor mentisse ao seu lado? Que patologia é essa? De onde ele tirou isso? Quando soube que era uma versão de Dylan, fui procurar a fonte, já imaginando as razões, mas pensando que também poderia ser uma adaptação livre. Não é. Ele praticamente traduz verso a verso. A confusão se faz nos múltiplos sentidos do verbo lie, que pode, sim, significar mentir, mas também deitarexistirficar. Acontece. Por motivos como esses, penso que a adaptação mais bem sucedida de Dylan seja a de It’s All Over Now Baby Blue, que Caetano e Péricles Cavalcante chamaram de Negro Amor, e deixaram andar sozinha, apesar de seguir pela estrada indicada por Dylan.

Já algumas letras nonsense são compostas apenas para completar as melodias, por exercício estilístico, ou até por improvisação, e acabam fazendo sucesso. Me lembro de um scatzinho dos Virgulóides que me agradava muito em minha infância, somente pela sonoridade daquelas palavras bizarras. Era só um prazer pueril. Nada de procurar significados profundos. E é isso. Mass já vi intérpretes cantando “jacarezinho, avião” como se estivessem declamando um soneto de Camões, e penso que atrapalha. As letras de canções como Acabou Chorare, Tieta (que nem vou procurar a letra), ou Inventando Moda não são objeto para ensaios acadêmicos, mas motivo de cachaçadas, danças, gargalhadas, diversão. Profundidade mascarada é de lascar!

Ao menos, nestes casos, os compositores sabiam o que estavam fazendo, e se divertem tocando. Pior é quando eles mesmos pensam estar dizendo algo bonito ou profundo, e não estão. Não sei se “beija eu, beija eu” e “amor, I love you” teriam lugar entre os piores arrochas (Tantinho, por exemplo, é muito melhor). O problema de letras como essas não é só sua tosquice evidente, mas elas serem levadas a sério por seus fãs e criadores como se fossem a maneira definitiva de falar de amor, como se até Proust fosse descartável perto delas. Já os fãs de Cazuza cantam suas músicas como os monges fizeram com versículos do Eclesiastes, mas me tiram o apetite versos como “segredos de liquidificador” ou algumas interpretações superestimadas para canções medianas como Ideologia ou O Tempo Não Para, que nos ensinam até nos livros escolares.

Há muitos outros. Há letras pebas de bons, de grandes compositores. Errar numa longa carreira, afinal, é muito provável. Enganar, parece-me, ainda mais. As pessoas precisam de profetas. Não pretendo relacionar um índex de letristas terríveis, mas não poderia terminar esse texto sem falar do Djavan. A pessoa em questão é um homem bomba. Suas letras nonsense, pretensiosas, esquisitas, cheias de presepadas, só contribuem para estragar suas boas melodias, como ressaltou Piza. Já notaram como as grandes letras são simples, sem cair no prosaísmo? O último parágrafo de Se é uma antologia de barbaridades. Açaí inteira é um ato de terrorismo contra o cancioneiro nacional. Na enquete de Piza, ficou em primeiro o par de versos “tudo o que deus criou pensando em você/fez a via láctea, fez os dinossauros”, que vejo as pessoas cantando às lágrimas, repetidamente, como um mantra de salvação, enquanto se chicoteiam em penitência, cozinhando os miolos sob o sol escaldante da capital, alcançando de joelhos os últimos degraus da escadaria da Igreja do Bonfim. Deus me livre. Em primeiro lugar, ou se toma uma posição cientificista, ou uma criacionista: Deus criar dinossauros é duro de engolir. Mas poderia se admitir uma licença poética, e ainda assim pairaria a dúvida. Uma declaração desta espécie, afirmando que Deus criou os dinossauros, estes lagartos gigantes, escamosos, barulhentos, fedidos, pensando em alguém tão esperado, é no mínimo uma declaração às avessas. Quem seria tão feio ao ponto de inspirar a criação dos dinossauros?

Com esta encerro minhas observações. Para que não me acusem de ser versado somente em maledicências, afirmo que o Piza também fez uma enquete para escolher os melhores versos do cancioneiro nacional, com muito mais opções que o anterior. E para que não digam que não mencionei nenhum jovem compositor, deixo este poema escrito por Lirinha, que mostra com exuberância quão poderosos podem ser os versos de nossos jovens trovadores. E assim seguimos adiante.

 

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