A Viagem do Titã

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Muito já se falou numa crise criativa anexa ao Nobel de Literatura, que afeta a produção de seus vencedores. Gabriel Garcia Marquez, quando ainda não havia recebido o seu, chegou a mencionar uma maldição estatística, pois vários autores faleceram apenas poucos anos após serem galardoados, na maioria das vezes em menos de uma década. Ele próprio é uma exceção a essa regra, pois ainda vive, trinta anos depois de ter ganhado; porém nada produziu de tão relevante quanto sua obra anterior ao prêmio.

Uma explicação lógica é que geralmente os escritores recebem o prêmio em idade avançada, após a consolidação de sua obra, muitas vezes já inativos, ou no fim de seus dias. E a espera por certos eternos candidatos pode demorar décadas. Ainda assim, o engano é comum no julgamento de contemporâneos, e muitos dos maiores do século foram ignorados pelos juízes do prêmio, em favor de outros hoje esquecidos (este, por sinal, é um dos procedimentos que perduram da Academia Sueca).

José Saramago (1922-2010), o único vencedor de língua portuguesa, é daqueles que, pode-se dizer, se importam mais com a própria literatura que com suas premiações. Continuou a produzir com regularidade, após o reconhecimento mundial (de acordo com um personagem de Vila-Matas, o aumento dos afazeres diplomáticos o impediu de escrever com a dedicação desejada). Um dos mais notáveis romances publicados nos doze anos que viveu após o Nobel é A Viagem do Elefante, de 2008.

O português se deparou com o enredo deste livro por acaso, em Salzburgo, na Áustria, ao entrar em um restaurante chamado “The Elephant”, e observar diversos tableaux que contavam uma história. Já era um escritor consagrado, que podia se dar ao luxo de frequentar bons restaurantes, viver de seus livros, além de usar a ajuda de pesquisadores de história. Mas Saramago nem sempre conviveu com estas facilidades.

Nascido numa família de camponeses, ele teve que abandonar os estudos devido a problemas financeiros. Antes de se dedicar à escrita, exerceu diversas profissões: serralheiro mecânico, funcionário público, desenhista, jornalista e tradutor. Teve vários manuscritos rejeitados por editores, e até suas publicações jornalísticas foram censuradas pelos militares de Salazar. Só veio a obter sucesso a partir da década de oitenta, com uma série de romances históricos. Mesmo assim, O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi censurado pela igreja católica, por mostrar sua versão inquiridora dos eventos e personagens bíblicos; o que resultou no seu autoexílio em Lanzarote, uma ilha inóspita e isolada.

Reconhecido por Harold Bloom como um dos titãs da arte do romance, Saramago enfrentou problemas de outra natureza para escrever A Viagem do Elefante. Enquanto costurava os dados que recebia dos pesquisadores num tecido ficcional envolvente, foi afligindo por uma grave doença respiratória, que o fez temer que jamais finalizasse este trabalho. Ao conseguir, não deixou transparecer suas dores e temores no texto, e o livro lembra as obras que o tornaram célebre.

Desde a primeira sentença, em que ressalta a importância das alcovas no gerir do mundo, sua profundidade se sustenta em sua leveza e bom humor. E desta maneira acompanhamos a viagem do elefante salomão (os nomes próprios estão em minúsculas) de Lisboa a Viena, como presente do rei a um arquiduque. Junto com uma equipe de transporte, conhecemos as estradas, vilas, cidades, montanhas, e as pessoas que estão no caminho do animal.

Ao contrário de muitos narradores de romances históricos, o de Saramago prefere contar sua história a partir de uma voz sincronizada com a do autor, com referências e alusões posteriores ao tempo de seus personagens. Compara o passado, por exemplo, com “um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse”, mesmo que não houvesse autoestradas no século XVI. Por outro lado também discorre sobre coisas que já eram antigas nestes anos, como o livro do Eclesiastes, atribuído, como ele diz, ao xará do elefante, e os átomos de Demócrito, que, como as ideias, “vêm enganchados uns nos outros”.

Se um dos principais motivos para as críticas negativas de sua fase alegórica era que ele se preocupara demasiadamente em incluir suas críticas ideológicas, mais até que com a própria narrativa, nesta obra ele ataca os vícios humanos de modo prazeroso, charmoso e instigante. Um exemplo memorável é quando o elefante salomão é treinado por seu condutor a se ajoelhar miraculosamente diante de uma igreja, despertando os fieis ao redor (e seus bolsos).

A Viagem do Elefante é a prova que a maldição do Nobel não teve efeitos em Saramago. Se a pobreza, a ditadura, a censura, e a doença não conseguiram fazê-lo parar, não seria um prêmio que haveria de aplacar a sua prosa titânica e vigorosa.

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Não Tenho Medo da Morte

Excelente canção do Gil, que só tive o prazer de conhecer ontem.

Não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.