Os Trilhos do Cinema

Eu já fui muito mais impertinente. Antigamente eu não podia conhecer ninguém que saía logo perguntando quais filmes, livros ou bandas consumiu nos últimos tempos. Devem se lembrar. Eu era como um repórter, escrevendo sem parar naqueles caderninhos de aro de metal. Alguém mentia dizendo que leu Grande: Sertão Veredas, e lá estava eu, meses depois, com o livro na mão, bombardeando o sujeito com perguntas e comentários, até ele admitir seu ato vergonhoso.

Mas isso acabou. Ou conseguem falar sobre tudo, ou não mentem mais. Ainda estou seguindo as listas daquele tempo. Hoje em dia eu só pergunto o que andam bebendo e comendo de diferente, e meu estômago é maior que a Arena Fonte Nova (estes dias me chamaram de Pantagruel). Toda essa tergiversação é para contar que neste último carnaval troquei o “Ziguiriguidum” por uma montanha de filmes e comida. Engordei três quilos. Comi bolinhos de bacalhau, filés de atum, pizzas, lasanhas, asas de frango, carne assada, sorvete, e cachorros quentes estragados; por causa dos últimos, só quero falar de filmes.

O Oscar está chegando, e os concorrentes do ano passado me parecem tecnicamente mais criativos. Se O Artista tem o pesadelo sonoro do protagonista, uma cena realmente bem bolada, Hugo Cabret consegue dar sentido extra a certas cenas em 3D. Paguei a mais principalmente para ver a clássica filmagem da chegada de um trem, com as pessoas fugindo do teatro. Imagine que fugiam de um negócio silencioso, plano, sem cores, e que hoje sorrimos de engenhocas futuristas, barulhentas e realistas, que saem da tela. Mas no filme de Scorsese apenas as pessoas saltam aos nossos olhos. De primeira não entendi, já que as cenas dos filmes Meliès eram todas em 3D. Então me toquei: quando passa os filmes dele, em especial Viagem à Lua, Scorsese está recontando, está fazendo uma paráfrase, e quando passa outros filmes, ele apenas faz uma citação, e deixa igualzinho. Não faz diferença na compreensão do filme, mas não podemos negar que é um acréscimo de linguagem do 3D. Isto se torna mais interessante se levarmos em conta sua temática, e a do Artista.

Mas voltando ao meu ziguiriguidum particular, um dos melhores que vi em meu recesso foi As Aventuras de Tintin, que nem concorreu ao Oscar de animação. Tem um plano-sequência sensacional. Há certo receio em se admitir isso, pois é um filme de animação. O plano-sequência é aquela tomada longa, sem cortes. Pra mim é o suprassumo do virtuosismo cinematográfico. Supõe-se que ele deve ser filmado do começo ao fim, exaustivamente, sem pausa para os atores tomar uma água, geralmente ensaiado e filmado várias vezes antes de dar certo, como na abertura de A Marca da Maldade. Por isso não parece ser tão espetacular numa animação, que é tudo feito em estúdio.

Outros de meus planos-sequência favoritos:

As de Paul Thomas Anderson

A abertura de Durval Discos

A fuga em Filhos da Esperança

A festa em O Barco

E em a Regra do Jogo

Festim Diabólico

A cena do estádio em O Segredo de Seus Olhos.

Vocês viram esse último? A câmera se aproxima sobre o estádio distante, o jogo é percebido, uma bola bate na trave, a torcida vibra enquanto avançamos rumo a ela, nossos personagens procuram uma pessoa e quando finalmente o encontram a torcida vai abaixo com um gol, ele escapa, seguido pelos detetives por um banheiro, por uma escadaria, por corredores, até que salta de um lugar muito alto, entra dentro do campo e é atacado por um dos jogadores. Um plano-sequência deve ser descrito sem pontos.

Diferentemente de Houston ou Welles, esta cena não foi feita de uma vez só. O diretor, Juan José Campanella usou um horror de efeitos especiais, ao custo de uma fortuna, e não vi ninguém criticando de sua artificialidade, apesar de, em termos técnicos, não ser tão diferente assim da realização da de Tintin. Penso que a grandiosidade em ambas está no desenho da cena, e nisso a animação de Spielberg é insuperável.

Aliás, foi em outra animação que vi uma grande sacada. Todo mundo sabe que os tons amarelados, sépia, preto e branco eram os padrões das câmeras de antigamente. Assim, quando o cinema em cores dominou as produções, estes tons eram usados para retratar o passado, recordações, flashbacks. Isto se transformou em linguagem; uma maneira especifica de comunicação. Animações coloridas, sem tradição de preto e branco, até hoje usam o bom e velho sépia para contar o passado. Mesmo obras de outras mídias se utilizam deste artifício, como os quadrinhos, que sempre tiveram as cores à sua disposição.

Kung Fu Panda 2 é um dos exemplos mais exuberantes de animações produzidas em computador. As cores estouram em nossos olhos, como fogos de artifício. Mas quando o urso se lembra do seu passado, voilà! Volta-se ao estilo de animação tradicional, sem todos aqueles efeitos, como se recontasse a própria história do cinema, como se dissessem “era assim que se fazia, e é assim que vamos representar o passado, nas animações”. Não sei se foram os primeiros a fazer isso, mas se não é uma ideia genial, é no mínimo absolutamente brilhante.

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