O Livro Impossível (Parte I)

Texto escrito em 2007.Um leitor muito inexperiente normalmente lê qualquer coisa, pois ainda não sabe direito quais livros procurar, ainda não tem o seu gosto definido. Com o tempo de leitura vem a experiência, e ele vai aprendendo naturalmente a identificar as qualidades literárias dos livros com que depara. Com isso vai se tornando mais seletivo, de acordo com o seu gosto. No que se refere à leitura, Anne Fadiman vai chamar esta loucura que todos temos de estante excêntrica:

Uma pequena e misteriosa coleção de volumes, cujos assuntos não têm a menor relação com o restante da biblioteca, embora, numa investigação mais detalhada, revelem um bocado sobre seu dono.

Ela possui uma coleção de livros sobre explorações polares, já minha estante excêntrica talvez seja a minha bizarra coleção de gibis underground.  

Mas o ponto é que toda estante tem também uma parte reservada para os livros que ainda virão. Quanto mais experiente é um leitor, maior é sua lista de livros a serem lidos. Minha lista de livros pra ler sempre cresceu numa progressão geométrica, enquanto a de livros lidos sempre foi aritmética. Parece que quanto mais leio, menos leio. Os leitores mais experientes que eu já conheci sempre alegaram que tinham uma lista enorme de livros pra ler. Talvez essa seja uma lista que nunca poderá ser finalizada, por se tratar duma coisa pessoal demais para se administrar. Sempre aparece algum livro furão que eu leio antes dos que estão na fila. Aceito com felicidade que seja uma lista impossível de ser completada, pois é então um sinal de que sempre haverá em minha estante espaço para algo interessante.

Essa lista de livros a serem lidos aumenta com tanta velocidade porque um livro conduz a outro, e alguns escritores mais desaforados nos conduz a vários livros de uma só vez. Joca Reiners Terron beira a provocação quando lista do nada mais ou menos uns trinta livros, numa página do seu romance Não Há Nada Lá. Impossível ler Borges ou Umberto Eco sem sentir aquela discreta sensação que se é um completo ignorante em se tratando de leitura. Há ainda os livros aos quais praticamente todos os escritores conduzem.

Normalmente esses são os grandes clássicos. Não convém listar aqui.

Na lista “a serem lidos” sempre vai haver alguns livros que serão mais difíceis de ser encontrados. Haverá também entre eles o “livro impossível’. Todo leitor tem o seu livro impossível, que só mantém esse título até que, obviamente, é encontrado. Por vinte anos o do bibliófilo José Mindlin – que possuía a maior biblioteca particular brasileira, incluindo a única cópia existente na América do Sul do Hypnerotomachia Poliphilii – seu livro impossível foi a primeira edição d’O Guarani, do José de Alencar, que depois de muito penar para conseguir, ele esqueceu no avião que voltava de Paris, onde o livro foi comprado. Coisas da vida. 

Mais emocionante é a história Padre Cayetano Delaura, do livro Do Amor e Outros Demônios, do Garcia Márquez. Ele lia um livro sem capa nem indicações que diria que livro era ou por quem tinha sido escrito. Antes de terminá-lo, porém, um padre o avisou que era um livro proibido e o tomou. E por anos Delaura vagou sem saber como terminava o seu livro desconhecido, até que contou a um bibliófilo a sua história e finalmente descobriu que o tal livro era o Amadis de Gaula, sempre mencionado no Quixote.

A literatura e a história estão repletas de casos semelhantes ao do padre Caetano: O livro impossível da pequena e magricela Lispector era As reinações de Narizinho, que sua colega não queria emprestar; o do bibliômano de Memórias Póstumas de Brás Cubas podia ser qualquer um, contanto que fosse único; o corcunda de Enrique Vila-Matas não queria simplesmente um livro, mas as bibliotecas impossíveis do Quixote e do Capitão Nemo, a de Alexandria, além de ele se imaginar com o acervo de livros recusados que repousa na Biblioteca Brautigan. Numa rápida memorização passo ainda por Ítalo Calvino, por Borges, por Carlos Ruiz Zafón, por Flaubert, entre uma grande variedade de autores que escreveram sobre o tema, e que, como os grandes clássicos, não convém listar.

Os livros mais impossíveis hoje em dia são o First Folio – a primeira coleção das peças de Shakespeare – e a Bíblia de Gutemberg. A última cópia inteira do First Folio vendida custou 3,5 milhões de libras esterlinas. A última da Bíblia de Gutemberg por 2,2 milhões de dólares.

E o que dizer então de um livro tão raro que não existe? O marquês de Chalabre tanto atormentou o bibliófilo francês Charles Nodier, que este inventou uma edição da Bíblia para o marquês procurar. Tudo isso nos conta melhor o Alexandre Dumas, no ensaio entitulado Tunísia:

Jamais Cristóvão Colombo colocou tanta obstinação em descobrir a América. Jamais Vasco da Gama colocou mais persistência em encontrar a Índia do que o marquês de Chalabre em perseguir sua Bíblia. A América porém existia entre 70º de latitude norte e 53º e 54º de latitude sul. A Índia situava-se de fato aquém do Ganges, enquanto a Bíblia do marquês de Chalabre não se localizava em qualquer latitude, nem se localizava aquém ou além do Sena. O resultado foi que Vasco da Gama encontrou a Índia, Cristóvão Colombo descobriu a América, mas, por mais que o marquês procurasse de norte a sul, do oriente ao ocidente, não encontrou sua Bíblia.

 E o mais impressionante é que o marquês encontrou na Suécia uma Bíblia com quase todas as especificações impossíveis do Nodier.

Mas o livro impossível não é necessariamente raro. Como eu disse no começo, varia do gosto do leitor. Eu normalmente não saio à caça de edições, mas de títulos. O meu Livro Impossível que durou mais tempo foi O Homem que Ri, de Victor Hugo, que vi mencionado num artigo que abria o quadrinho O Vampiro que Ri. Pesquisei e descobri que ele baseou um filme, e que depois veio a inspirar o Coringa, inimigo do Batman.

Eu acreditava ser capaz de encontrar qualquer livro facilmente, depois que alguns que eu achava difíceis simplesmente pousaram em minhas mãos. Mas por muito tempo eu revirei os sebos e a internet (ainda não era tempo dos sebos virtuais) atrás d’O Homem que Ri e nada. Quando eu finalmente encontrei, era numa edição muito vagabunda e por um preço altamente abusivo. Desisti, não me interessava mais. Ironicamente, eu, o caçador de títulos, queria mais encontrá-lo que lê-lo. Já era uma questão de honra.

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Um pensamento sobre “O Livro Impossível (Parte I)

  1. Pingback: A decadência da Estante Virtual | Paulo Raviere

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