Sobre a batida no portão em Macbeth – Thomas de Quincey

Fiz uma mini-publicação de um ensaio de Thomas De Quincey que acabei de traduzir, porque fiquei bastante feliz que finalmente entreguei a versão final de minha dissertação (em que traduzi um punhado de ensaios de autores diversos). Penei e não consegui incorporar o Issuu ao WordPress. Fazer o que? Lá vai o link assim mesmo.

dequincey

O desperdício das glórias e das propagandas

As boladas no pescoço e as derrotas por números de dois dígitos são o que há de mais ridículo no futebol. Já testemunhei algumas pescoçadas – aconteceu comigo mesmo, jogando bola no escuro – e com um colega de sala, Cova, que tinha este apelido porque era rígido como um cadáver. Cova era mestre em fazer gols de pescoço, os mais feios que já vi, mas ainda melhor que perder por um placar de dez gols ou mais, no futebol de campo. Placares elásticos são comuns no futsal e nos babas, logo, não tão humilhantes.

Mas vejo o Taiti tomando uma lapada de dez a zero, e a torcida inteira – provavelmente até o Manolo el del Bombo – torcendo para que os coitados fizessem um golzinho. O goleiro Meriel foi ovacionado com uma defesa razoável, e depois alcançou o Olimpo ao defender um pênalti contra o Uruguai. Me parece que a mesma Espanha foi muito mais humilhada na final, ao perder por três gols contra os donos da casa.

E em que consiste a humilhação? Não vejo como desvinculá-la das expectativas. A derrota do Santos por oito a zero contra o Barcelona foi bem menos terrível para sua torcida que aquela da final do mundial, por quatro a zero, quando ainda podiam acreditar em Neymar. Se uma grande derrota é contra seu rival, sete a três do Vitória em cima do Bahia, cinco a zero do Barça no Real, a humilhação é maior. Não é à toa que Nelson Rodrigues chamou o maracanazo de nosso “Hiroshima psicológico”; apesar da diferença magra, aquele jogo foi humilhante demais, uma vez que as expectativas eram altíssimas.

Alguns times se promovem por meio da humilhação – esta mania bem brasileira de confundir imperícia e improvisação com humildade e honestidade. Sempre tem aquele cara que antes de qualquer coisa começa por se vangloriar com suas falhas e infortúnios. Se eu, que sou uma nulidade no sinuca, mato uma bola por acaso, isto meio que me dá o direito de pirraçar os mestres do efeito que jogam do lado de minha casa. Fulano adora falar que passou no vestibular sem ter lido Brás Cubas; sicrano que compôs um cordel interessante sem conhecer sequer uma balada de Castro Alves; outro se torna governante sem ter feito faculdade, com muita perseverança – não estou entrando em méritos específicos!

A questão é que ler Brás Cubas e Castro Alves na faculdade nunca constituiu um demérito propriamente dito. Hão de reconhecer que se dar bem por vias particulares é o Grande Sonho Brasileiro. Arrumamos um jeito de desmatar nossos atalhos, e sempre torcemos pro mais fraco, que ninguém sabe como chegou ali. Não tem coisa melhor que ver o ASA de Arapiraca tirar o Santos e o Palmeiras – assistir ao Santo André bater o Flamengo e o Sport vencer o Corinthians, na Copa do Brasil. Evidentemente, nosso senso de justiça acaba no momento que nosso time entra em campo.

O Íbis Sport Club, grande time pernambucano, conquistou fama internacional devido à sua ruindade. Seu ídolo, o cabeleireiro Mauro Shampoo, é conhecido no Brasil inteiro, pois protagonizou o time durante seu apogeu – a década de oitenta. Não venceram uma mísera partida entre 1980 e 1984, e ele fez um único gol (fato comparável ao idealizado gol do Taiti contra a Espanha) – quando perderam de oito a um. O time tinha um glorioso saldo negativo de mais de dois mil gols, e tenho por certo que não tomaram mais devido à própria falta de competência dos adversários, sempre times de terceira categoria. Mauro Shampoo ainda é protagonista de filmes e reportagens.

A fama do Íbis vai tão longe que eles não podem correr o risco de se profissionalizar, ou seja, ganhar algumas partidas, chutar umas bolas com força e direção. Imagino um teste para o clube, como todos aqueles profissionais decadentes, craques da bola desiludidos, loucos por fama, dando pescoçadas de propósito, chutando grama, metendo bicos com efeito exagerado, para as bolas voarem para as laterais, como se realmente jogassem assim nos seus campeonatos valendo grades de cerveja. É preciso muita técnica para errar de propósito, mas é por uma boa causa. Nininho, o mito, estes dias estava numa propaganda de alcance nacional. Deve ter rolado uma bufunfa preta. Os dirigentes do Pior Time do Mundo se exaltam diante da profissionalização dos maiores perebas da bola. O time manteria seu posto.

Mas eis que surge um pereba genuíno. Chama-lo-ei Salésio, que é um nome incomum. Não quero meus amigos me importunando por ter usado seus primeiros nomes como exemplo, e nessa altura já gastei meus “fulanos” e “sicranos”, que não vou ficar repetindo toda hora. Salésio é um nome genérico, que simboliza o desconhecido (tirei esse nome de um quadrinho do Marcatti, chamado Mariposa). O exemplo é meramente ilustrativo. Cada um que conheça seus próprios perebas.

Pois bem, Salésio é, como eu disse, o pereba genuíno, que sabe que só teria chances no time da ave negra. Ele reconhece seu valor – haveriam de aceitar alguém pior que Mauro Shampoo – nem um gol ele tinha. Porém, após amarrar suas chuteiras e entrar em campo, ele percebe o profissionalismo degenerado que o rodeia – todos aqueles craques pisando na bola por interesse. “Que grande presepada”, ele pensa, “mas se já estou aqui, o que eu posso fazer?” Ele decide entrar no jogo dos caras.

A pelada está rolando, uns tropeçam, outros trombam, um faz gol contra de canela e outro dá uma furada convincente e lasca a sola da chuteira nos peitos de Salésio – que é um homem robusto e aguenta o tranco. É pênalti, e ninguém quer se arriscar a fazer o gol. São muitas as vicissitudes da Fortuna; o campo era muito pequeno pra isolarem o chute, e o goleiro sempre poderia jogar a bola pra dentro. Seu desvirtuamento técnico não lhes era suficiente, e medo de acertar passa por todos os jogadores. Eis que o próprio Salésio pede pra bater. Ninguém hesitou, e o argumento era muito forte: ele sofreu a violência quando estava prestes a perder um gol feito.

A ideia era esculhambar com alguma artimanha; uma paradinha, um escorregão, uma bufa de velho. Ainda não estava decidido. O goleiro decide jogar sério e grita: “se mandar em mim eu pego! Tomar gol desse sacana já é humilhação demais!” Por fim Salésio decide enfiar o pé na grama. Seria lindo, um festival de grama para cima, como a chuva de papeizinhos picados durante o carnaval, e a bola escorrendo para fora discretamente, como um cano que despeja esgoto no Rio Capibaribe.

Porém no momento da execução ele não desce o pé o bastante para concretizar o fato e desvia a perna na tentativa de corrigir o erro, lançando um petardo de trivela, um míssil teleguiado norte-americano com efeito fulminante no ângulo superior esquerdo, aquele lugar cujo acerto num programa do Sílvio Santos lhe renderia um milhão de reais.

A coruja, que dormia naquele gol desde a última derrota do rubro-negro pernambucano, acorda sobressaltada, em face do cataclismo: “mas domingo não era a primeira divisão?” Quem acerta uma bola dessas? Os profissionais não o cumprimentam, morrendo de inveja sincera. Foi um gol de classe. O goleiro não consegue se irritar, lá no centro do gol, imóvel como o coração de Pelé naquela clássica fotografia. Os dirigentes se exaltam com a afronta e imediatamente após recuperar o fôlego mandam embora aquele engraçadinho que tentava sabotar as honras do Pior Time do Mundo.

Salésio novamente desperdiça um futuro de glórias e propagandas.