Vinte Livros de Ensaios Imperdíveis (01-10)

Esta lista tem como principal critério unificador a escolha de livros publicados no Brasil. Quem confere uma lista não vai atrás apenas da confirmação de seus gostos, mas quer também descobrir novidades. Qual a graça de encontrar Cidadão Kane nos 10 primeiros do cinema? Todo mundo sabe que vai estar lá, junto com O Poderoso Chefão e Um Corpo que Cai… Ninguém aguenta mais ler aquele texto de meia lauda sobre Cidadão Kane nessas listinhas de revista. Por isso justifico apenas uma ausência, a de Michel de Montaigne, que está de fora porque todos já sabemos que é imperdível. Minha lista provavelmente carece de outros autores, que eu desconheço ou não couberam. Sugestões são bem vindas. Como poderão ver, tenho pendor para a diversificação temática; assim, tive que limitar o número de críticos e ficcionistas que praticaram o ensaio, muitos deles brilhantes, magníficos, geniais, mas que concentraram sua produção ensaística em áreas de especialidade. Mais exclusões serão discutidas ao longo dos textos. Não uso nenhum critério para a ordenação – certamente não estão por ordem de preferência, como muita gente espera.

01 – Ensaístas Ingleses (Clássicos Jackson V. XXVII) – Vários autores

O volume traz vinte e um ensaios de dezoito autores, como Samuel Johnson, William Hazlitt e John Ruskin, além de um esclarecedor prefácio escrito por Lúcia Miguel Pereira. Os assuntos se diversificam: tristeza, amizade, jardins, solteirice, morte de crianças, escrita, personalidades históricas. A maioria dos autores permanece sem mais nada traduzido no Brasil. A coleção tem ainda um volume dedicado ao ensaísmo norte-americano, com Poe, Emerson, Thoreau.

02 – Modesta Proposta (Editora UNESP) – Jonathan Swift

O ensaio satírico que batiza este livro é um dos mais famosos de todos os tempos. Como era hábito, ele precede um enorme subtítulo: “para evitar que as crianças dos pobres da Irlanda se tornem um fardo para seus pais ou para seu país, e para torná-las benéficas ao público”. Prefiro que o leitor descubra por si esta surpreendente proposta. Outros três textos completam a antologia, entre eles uma divertida meditação sobre um cabo de vassoura. O livro faz parte da luxuosa coleção Pequenos Frascos, junto com obras de outros ensaístas.

03 – A Decadência da Mentira (Imago) – Oscar Wilde

Quem já conhece as narrativas de Wilde pode intuir o teor destes quatro ensaios, que giram em torno da criação e da apreensão das artes. Com suas sentenças talhadas em mármore, Wilde dinamita tudo o que pode ser encaixado no senso comum. Dois ensaios são apresentados como longos diálogos filosóficos, sobre natureza ficcional das artes, e sobre a importância da crítica. Há um sobre Thomas Wainewright, crítico, pintor e envenenador e, por fim, um belo ensaio sobre a importância das vestimentas em Shakespeare.

04 – O Leitor Comum (Graphia) – Virginia Woolf

O título vem de uma citação de Samuel Johnson, que alega concordar com o leitor comum, pois ele não sofre do preconceito e do dogmatismo do aprendizado. É impossível dedicar indiferença a estes ensaios de Woolf sobre literatura. Mesmo que não conheçamos, queremos saber um pouco mais sobre Evelyn ou Beaumont e Fletcher. E quando ela discorre sobre nossos velhos amigos, como Montaigne ou Conrad, lhe reservamos na estante aquela vaga de fácil acesso, em que o sol nunca bate diretamente.

05 – Ex Libris: Confissões de uma Leitora Comum (Zahar) – Anne Fadiman

Apesar de sua dedicação quase que exclusiva ao gênero de Montaigne, Fadiman produziu apenas dois livros de ensaios, frutos de um trabalho minucioso, o equilíbrio perfeito entre memória, paixão e pesquisas avassaladoras. Em Ex Libris, ela parte da mesma frase de Johnson para montar uma apaixonada coleção de ensaios sobre temas relacionados com a leitura: dedicatórias, sesquipedais, sebos, canetas tinteiro, mastigação de páginas, casamento de estantes. E seu outro livro, At Large and at Small, é tão bom que me dá ganas de mudar os critérios desta lista; continua inédito no Brasil.

06 – O Tempero da Vida (Graphia) – G. K. Chesterton

Chesterton foi um gênio natural, automático, – como Picasso ou Beethoven – que deixou um legado pantagruélico, com milhares de artigos e ensaios, centenas de contos, e alguns romances, poemas, peças, biografias, desenhos. Os ensaios de O Tempero da Vida estão separados por cinco blocos temáticos: literatura em geral; livros específicos; religião; viagens; cotidiano. Todos repletos de aforismos sagazes e ideias interessantes, transbordantes da alegria infantil que o caracterizava. Recentemente foi lançado no Brasil o Tremendas Trivialidades.

07 – Mitologias (Bertrand Brasil) – Roland Barthes

Mitologias é uma reunião de pequenos ensaios que, no todo, montam uma crítica ao vazio da burguesia francesa e uma virulenta interpretação da cultura de massa. Mesmo construído a partir de elementos cotidianos – vinho, detergentes, brinquedos, luta livre, filmes, plástico –, curiosamente, Barthes não deixa espaço para o humor. Escreve sempre com seriedade (às vezes excede nos galicismos pós-modernos), e ainda assim é um livro muito agradável. Ele serve de modelo ao Banalogias, do brasileiro Francisco Bosco.

08 – Viagem à Terra das Moscas (Companhia das Letras) – Aldo Buzzi

Em suas viagens, escrito após seus oitenta anos, Buzzi pouco nos mostra sobre os lugares por onde passou. Em vez disso, fala de modo aleatório sobre o que dá vontade, “do queijo gorgonzola à vodca russa, dos clubes ingleses às prisões siberianas, dos seios de Joana de Aragão ao mausoléu de Lênin”, como quem passeia sem planos, num saboroso fluxo de consciência, “seguindo os caprichos do olfato, da gula e da erudição”.

09 – Alhos e Bugalhos (Nova Fronteira) – Gilberto Freyre

Estes ensaios devem ser lidos com lerdeza. Numa sequência imediata, podem parecer repetitivos suas menções a Portugal, Inglaterra, Pernambuco, José Lins do Rego, batidas de pitanga e a palavra “telúrico”. Mas talvez nenhum grande intelectual brasileiro declarou tão enfaticamente sua filiação com o ensaísmo. Freyre descarrega sua paixão ao alternar assuntos prosaicos e literários, como cachaça, Marx, cartões postais, Joyce, Recife, obscenidades.

10 – O Álbum Branco (Nova Fronteira) – Joan Didion

Durante a década de 60, Didion estava no olho do furacão, a Califórnia. O Álbum Branco é sua lírica, caótica, e tateante tentativa de compreender aqueles tempos. Enquanto fala de consumismo, revolucionários, mansões e mesmo sobre distribuição de água, seus ensaios pessoais estão povoados por gente como Jim Morrison, Sam Peckimpah, Huey Newton e a Sra. Reagan, que vêm e vão como se estivessem num Shopping Center.

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6 pensamentos sobre “Vinte Livros de Ensaios Imperdíveis (01-10)

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