O Senhor do Tempo

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Não é difícil ter ouvido falar de alguma criação de Alan Moore. Muitos de seus personagens e histórias em quadrinhos foram adaptados para o cinema, entre eles V de Vingança, Do Inferno, A Liga Extraordinária, Watchmen, Constantine (originalmente um coadjuvante de O Monstro do Pântano). Aqueles que leram seus quadrinhos, apesar de ser uma legião, estão em número menor. Isso não implica em negatividade: seus fãs, com justiça, são ardorosos.

Com justiça, pois Moore é um daqueles gênios polímatas, capazes de compreender assuntos desconexos (magia, ciências, política, literatura, história, religião) e de produzir obras de qualidade em diversos suportes. Além dos quadrinhos, ele é autor de divertidas canções, de roteiros de filmes independentes (ele não tem participação nas adaptações de seus quadrinhos; na verdade, odeia os blockbusters a ponto de negar seus polpudos royalties e a aparição de seu nome nelas), e atualmente escreve seu esperadíssimo segundo romance, um catatau chamado Jerusalem, que esses dias já ia nas 500 mil palavras (só pra comparação, Ulysses, que na última tradução brasileira saiu com 1112 páginas, tem aproximadamente 260 mil palavras).

O que mais me admira em Moore, no entanto, é pegar qualquer premissa, qualquer personagem, e fazer uma obra-prima. Assim como Kubrick no cinema, Picasso na pintura, e Machado de Assis na literatura, ele também é um daqueles artistas que dominaram completamente todas as facetas de seu ofício, ao ponto de criarem maravilhas nas mais diversas técnicas e estilos. Sabemos que ele revolucionou os quadrinhos em Watchmen, ao exilar as onomatopeias e balões de pensamento, e ao sobrepor camadas de histórias, artigos, biografias, todo o material que pudesse acrescentar realismo à sua história. Mas antes escreveu clássicos com personagens como o Monstro do Pântano, o Batman e o Super-Homem, entre inúmeros outros, muitos deles anteriormente desconhecidos e rasos. Ao se desvincular com a grande indústria afirma que nunca foi um criador tão feliz (fazendo Promethea, Tom Strong, A Liga Extraordinária!). Após a leitura dos Grandes Clássicos DC, meu amigo Wesley o chamou de Midas, que transformava em ouro tudo o que tocasse.

A leitura de Writing for Comics, no entanto, mostra que por trás de tudo está não uma entidade mítica, mas um ser humano, falível como qualquer outro. Há muito esforço envolvido. Nesse longo ensaio, um dos clássicos sobre a nona arte, escrito nos primórdios de sua carreira, ele expõe os mecanismos da criação de algumas dessas histórias, e dos quadrinhos em geral. Mais importante que isso – ele não prescreve regras, e o tempo inteiro ressalta a liberdade do criador. Tanto que, num posfácio escrito vinte anos depois,  nega o seu método de criação, e o demonstra como se reinventou. Evidentemente, isso não invalida suas dicas excelentes. Ele explica, por exemplo, a quarta dimensão (o tempo) nos quadrinhos.

A situação mostrada na pintura é a representação de um mundo tridimensional que com o acréscimo do tempo se torna quadrimensional e muda de uma situação para uma história.

O acréscimo do tempo a uma imagem se faz com a inserção de outra imagem. Mais ou menos o que Giotto fazia.

Nesse ensaio, ele fala constantemente de umas histórias curtas do começo de sua carreira que eu desconhecia por completo, compiladas como Time Twisters. Muito antes do Dr. Manhattan e do menino-gênio Jack B. Quick, Moore pegou várias ideias, especialmente relacionadas com a relatividade, e as transformou em narrativas, histórias simples e perfeitamente compreensíveis. Ele não foi o primeiro a fazer isso – me lembro imediatamente de Borges, das Cosmicômicas de Ítalo Calvino e dos Sonhos de Einstein narrados por Alan Lightman.

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Em The Reversible Man vemos a história de uma vida narrada ao contrário, mas não como Benjamin Button, em que uma pessoa nasce já idosa (e com a falha de roteiro em que o bebê nasce velho, do tamanho de um bebê, mas o velho não permanece com seu tamanho ao rejuvenescer, e diminui). Na história de Moore, o tempo flui ao contrário. O protagonista anda para trás, as coisas caem para cima, e ele reflete sobre os acontecimentos gradualmente, linearmente. Num momento, ele vai à escola para esquecer matérias como química e latim. Noutro, ele, já bebê, se assusta, pois não sabe o que aconteceu aos seus filhos quando eles “desnasceram”. Um temor parecido com o da morte, que Nabokov nos antecipa de modo inesquecível:

O berço balança pairando sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa experiência não passa de uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o homem, em geral, encara com mais calma o abismo pré-natal do que aquele a que se destina (a cerca de quatro mil e quinhentas pulsações cardíacas por hora). Conheço, porém, um jovem cronófobo que sentiu algo parecido com o pânico ao ver pela primeira vez filmes domésticos que haviam sido feitos algumas semanas antes do seu nascimento. Viu um mundo que praticamente não apresentava qualquer diferença – a mesma casa, as mesmas pessoas –, mas então percebeu que era um mundo onde ele não existia, e que ninguém deplorava a sua ausência. Viu de relance a sua mãe acenando de uma janela do segundo andar, e aquele gesto estranho o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o deixou particularmente assustado foi a visão de um carrinho de bebê novo em folha na varanda, com o ar presunçoso e inoportuno de um ataúde; e também estava vazio, como se, naquele curso invertido dos acontecimentos, seus próprios ossos se tivessem desintegrado.

Em Dr. Dibworthy’s Disappointing Day, o cientista inventa um aparato capaz de enviar um objeto a qualquer época. Sua ideia é enviar algo ao passado, de forma que mudasse a cadeia de eventos da história, até que ele percebesse a mudança no presente. Um quadro depois, vemos o professor desapontado, pois nada havia ocorrido (no entanto percebemos as mudanças em suas roupas, nos ornamentos de seu salão, no formato de seu relógio. Ele não percebe, pois vive em sua própria cadeia de eventos). E assim vai, tentando mudar, até que chega a consequências desastrosas para toda a humanidade. O que Moore parece dizer é que não existe “e se…”, pois ao contrário da versão do tempo de Efeito Borboleta, vivemos uma dessas cadeias de eventos, desvinculadas de outras possibilidades, por mais que possamos imaginá-las, assisti-las, desejá-las. Vivemos nossas vidas, e não há muito o que fazer em relação a esse assunto.

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Um pensamento sobre “O Senhor do Tempo

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