Um método comprovadamente eficaz de estimular a leitura

Na última semana fui com dois pensamentos à famigerada Bienal do Livro de Salvador. O primeiro, deveria ser óbvio, era a possibilidade de encontrar algum livro barato e imprescindível. Sempre sonhei com um saldão em que eu pudesse encontrar obras de Javier Marias e Thomas Bernhard a preço de sebo. Acontece que o pensamento, me parece, não é tão óbvio, e os livros baratos estavam amontoados em pilhas grotescas, toneladas de livros desagradáveis com as lombadas viradas para dentro, como se quisessem se esconder dos compradores. Os ratos de biblioteca e os leitores da moda haverão de concordar: não dava pra encontrar porcaria de nada. Quando sim, os descontos não valiam a pena; a Estante Virtual haverá de acabar com a Bienal, se estes livreiros não tomarem vergonha na cara. (No final das contas, miraculosamente, e falo muito sério, saí com Quando Fui Mortal, do espanhol).

O segundo pensamento, creio, foi muito mais satisfatório. Era me divertir num lançamento de uma antologia com autores vivos baianos, e de quebra ainda comer uns camarões. O livro em questão reúne dezoito escritores e foi publicado em quatro idiomas, primeiramente na Feira de Frankfurt. A seleção, como é de praxe, rendeu alguma polêmica, por parte de quem ficou de fora. Nada que não tenha acontecido com a Granta. Alguns estão tão centrados em seus umbigos que não são capazes de entender que algo maior está em jogo; a possibilidade de que talvez, finalmente, comecem a ler os baianos fora da Bahia, ou melhor, de Salvador. É um passo inicial, que pode render bons frutos não só para os autores selecionados, mas para editores, futuros escritores, pesquisadores, para o público. O que não dá é pra publicar todo mundo de uma vez, de acordo com as vontades de cada um.

Mas deixemos estas confusões de lado. O mais interessante mesmo foi um comentário que me foi feito pela celebridade João Filho (procurem por ele nos jornais da semana!), que participa da antologia: “Sim, fui à Feira de Frankfurt. Acima de tudo, se trata de negócios. Aqueles livros maravilhosos eram apenas amostras; não estavam à venda, e eu os desejava. Consegui comprar alguns, mas os expositores eram muito cautelosos. Descobri que há uma alta incidência de roubos, por parte dos alemães. Pois é. Não são só os brasileiros. Eles também roubam livros”.

O comentário era informal, mas cá discordo publicamente. A questão é que aqui se rouba de tudo – chaveiros, motocicletas, celulares, carteiras, cavalos, e até uma perna de bode congelada já roubaram de minha casa uma vez – de tudo, menos livros. Em nossos filmes mais realistas os carros são arrombados e passam a noite inteira com os livros lá dentro, intocados. É verdade. Uma vez um amigo perdeu um Saramago meu numa rodoviária e o encontrou três semanas depois, no mesmo lugar, na viagem de volta. A maneira mais segura de guardar dinheiro é dentro de um dicionário. O livro do próximo jamais haverá de ser cobiçado. Ler mais que o feed de notícias é uma atividade deveras cansativa, por estas plagas.

Mas eis que, recentemente, descobri por acaso uma maneira deveras eficaz de estimular a leitura. Tenho um primo de uns treze anos que mora numa roça longínqua no último recanto do oeste do estado, distante de qualquer estímulo cotidiano, e é um leitor voraz. Descobri na última vez que o visitei, no último natal. De lá pra cá, lhe mandei uma pilha de livros que, para desagrado de alguns, já foram todos lidos. Não sabem o que fazer com o rapaz, que pede outros constantemente, contra todas as condições possíveis. Na Bienal comprei para ele (a preço de capa) a edição de bolso da Zahar de Um Estudo em Vermelho.

Repensando o assunto, creio ter descoberto porque ele se tornou um leitor tão ávido. Quando o visitávamos, para evitar a chatice de passar quatro, cinco dias sem fazer nada (e tenha certeza que lá o tempo flui num ritmo diferente!), eu e minha irmã levávamos em média um livro para cada dia de viagem. Eu me deitava numa rede e lia até escurecer, e o menino, louco por comunicação com os primos mais velhos, brincava de ler, com um Cem Anos de Solidão de cabeça para baixo. Minha reação mais óbvia e instintiva era tomar o exemplar da mão da criança. Ele pegava meu Vathek, eu mandava me devolver; agarrava meu Sepúlveda, eu o escondia. Era um prazer proibido, restrito aos mais velhos, aos mais legais, àqueles que dominavam esta entidade secreta chamada “palavra”. Uma habilidade que ele, coitado, deve ter esperado por anos antes de dominar. Agora é sua desforra.

Portanto, bravos entusiastas, esqueçam os milhões investidos pelo governo em editais de estímulo, esqueçam as bibliotecas bonitinhas e burocráticas, esqueçam todas as utilidades práticas e ganhos relacionados à leitura – quem mais vejo fazendo discursos sobre a nobre atividade, menos lê; o importante mesmo é proibir-lhes o acesso ao livro de adultos, é dar uns tapas na mão do guri que quer abrir seu catatau sem figuras, é tomar-lhe o volume e colocá-lo em cima da geladeira, onde pode ser visto o tempo inteiro, mas jamais ser alcançado.

Devemos ressaltar que, obviamente, o método perde toda sua eficácia se a criança não observar com alguma frequência, por mínima que seja, um adulto lendo por prazer.

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5 pensamentos sobre “Um método comprovadamente eficaz de estimular a leitura

  1. Pingback: Mudança | Paulo Raviere

  2. Jansey, se o método funcionar com ela você vai ter que procurar outro lugar pra guardar a bufunfa, ou então ela vai torrar tudo com sorvete e brinquedos. Hehehehehehe.

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