Off-10: minha lista de livros

A moda agora nas redes sociais é fazer sua lista de dez livros. Comecei uma, e não consegui sair do óbvio: meus favoritos são mesmo os destes mestres que são citados por qualquer crítico: Proust, Melville, Rosa, Stendhal, Conrad, Cervantes, Tolstoi, Shakespeare, Dumas, Nabokov, Homero. Assim como me recusei a falar de Montaigne em minha lista de ensaístas, não sei se tenho algo a acrescentar sobre meus autores favoritos. Por isso resolvi fazer uma lista com livros que não são muito conhecidos, tampouco completamente desconhecidos. Às vezes ele vem de um lugar estranho, outras, do baú de um escritor famoso. Listei apenas livros que já foram editados no Brasil, e me restringi à prosa de ficção (não há lista mais off que aquela dos livros de ensaios, mas não quero me repetir. Outros gêneros certamente gerarão outras listas no futuro).

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01 – Vidas Imaginárias – Marcel Schwob

Coletânea de contos com breves biografias ficcionais de 23 personalidades históricas, da antiguidade ao século XIX. Permeado de sacerdotes, artistas, políticos, poetas, mendigos, soldados, piratas, assassinos, Vidas Imaginárias conta a história da civilização. Sua narrativa sutil inspirou Borges, que disse que Schwob é um escritor para happy few.

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02 – A Pedra da Lua – Wilkie Collins

A Pedra da Lua, um gigantesco diamante, é roubada do armário de uma senhorita na noite de seu aniversário.  Segue-se uma longa investigação, contada a partir do ponto de vista de diversos personagens. Neste viciante romance, Collins, que dividia com seu amigo Dickens a atenção do público londrino, inventou de uma vez só a história de detetives e a polifonia.

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 03 – Uma Confraria de Tolos – John Kennedy Toole

escrevi sobre ele. Basta então relembrar que esse romance, protagonizado por um glutão antissocial, é simplesmente o mais engraçado de todos os tempos.

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04 – Jonathan Strange & Mr. Norrel – Suzanna Clarke

Inglaterra. Guerras napoleônicas. Dois mundos se unem. Um velho ranzinza e um alegre jovem conseguem realizar atos mágicos, o que será útil ao país. Com grande influência de Neil Gaiman, Clarke consegue superá-lo, nessa mistura de romance histórico com fantasia e aventura, escrito num estilo que remete aos escritores vitorianos.

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05 – Segundos Fora – Martín Kohan

Este romance argentino interliga três histórias: uma luta de boxe, uma apresentação de Mahler em Buenos Aires, e a investigação tardia de um assassinato. Tudo isto intermediado pelos interessantes diálogos entre um jornalista culto e um desinteressado. Como as frases de uma sinfonia, as histórias se interligam lentamente, até que se juntam numa apoteose.

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06 – A Medida do Mundo – Daniel Kehlmann

Com sua prosa divertida e elegante, Kehlmann nos brinda com o encontro entre dois geniais cientistas alemães: o recluso matemático Carl Friedrich Gauss, que explora as medidas do universo de dentro de um gabinete, e o aventureiro naturalista Alexander von Humboldt, que viaja o mundo medindo rios, montanhas, distâncias, e coletando seres vivos.

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07 – O Anão – Pär Lagerkvist

Apesar de ter ganhado o Nobel de Literatura, o sueco Lagerkvist não é tão conhecido no Brasil. Sua obra-prima menos ainda, pois a mais barata das quatro edições da EV custa duzentos pilas (li em espanhol). No livro, acompanhamos as ideias e opiniões do anão Picolino, que deve divertir os nobres numa corte renascentista. Ele odeia a humanidade com um ardor que não cabe em seu corpo. Tyrion Lannister é um anjo perto dele. A guerra, a doença, a miséria, a morte são o que há de mais divino para ele. Há ainda um artista sábio, inspirado em Da Vinci.  Recomendo o texto de Milton Ribeiro.

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08 – Verão em Baden-Baden – Leonid Tsípkin

O estilo vertiginoso assemelha-se ao de Thomas Bernhard. Seu procedimento narrativo, no entanto, me lembra bastante o Sebald de Os Aneis de Saturno: Tsípkin alterna sua narrativa entre uma viagem que ele fez, e momentos na vida de Dostoiévski. Sua viagem aos cassinos da cidade de Baden-baden (Alemanha), sua relação conjugal, o choque ao ver uma pintura, sua morte. O médico Tsípkin morreu na União Soviética sem ver seu livro publicado, e o livro não obteve reconhecimento até Susan Sontag encontrá-lo num sebo.

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09 – A Luneta Mágica – Joaquim Manuel de Macedo

Apesar dos colégios e a Bravo! indicarem o chatíssimo A Moreninha, esse que é o bom de Macedo. Simplício é extremamente míope e ingênuo, e não percebe as verdadeiras intenções das pessoas. Então um feiticeiro lhe entrega uma lente mágica que finalmente o faz enxergar tudo normalmente, com um porém: se ele encarar algo por três minutos ou mais, verá o lado mau daquilo.

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10 – O Terceiro Tira – Flann O’Brien

Uma maluquice do começo ao fim. Após cometer um crime brutal, um irlandês vive aventuras numa delegacia de duas dimensões, conhece as cosmicômicas teorias de um cientista louco, e tem que resolver os enigmas apresentados por três policiais excêntricos. Dizem que é Alice no País das Maravilhas do século XX.

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Hors concours:A Morte de Napoleão – Simon Leys

Napoleão na verdade vive, porém está anônimo e deve voltar a Paris, para viver peripécias que nada têm a ver com a esperada opulência do poder. Faço esse hors concours para representar uma maravilhosa coleção que a Companhia das Letras lançou na década de 90, só de livros desconhecidos, que continuam assim até hoje (com exceção de O Náufrago). Todos pequenos, bonitos e excelentes. Outros: Sonhos de Einstein, Viagem à Terra das Moscas, A Última Página e O Virtuose.

Mudança

Penso eu que cada leitor tem suas manias, umas menos, outras mais excêntricas, visto que qualquer coisa pode ser considerada uma “mania”. Por exemplo, há muita gente que não tem pena de rabiscar seus livros, alguns com lápis, outros com marcador, e ainda aqueles que não se importam com o material, utilizando o que estiver mais próximo das mãos, enquanto eu geralmente pretendo manter meus livros imaculados (ainda que sejam exemplares de segunda mão, comprados em edições estropiadas por pessoas malignas e estranhas). A ensaísta norte-americana Anne Fadiman, uma verdadeira especialista em diagnosticar manias de leitores, os divide em amantes carnais e amantes corteses (ela é uma amante carnal, carnívora, canibal). Então minha febre por inteireza pode ser considerada sim uma mania; veja bem, a falta de ação se transforma em mania (e se trata de uma inação diferente daquela de todas as outras pessoas que simplesmente ignoram os livros. Ainda que iguaizinhos, não dá pra comparar um lido com aquele guardado no plástico. Quem frequenta sebos sabe a que me refiro).

Já falei aqui de meu vício em listas. No ano de 2005, eu e o Mofino já tínhamos o saudável hábito de realizar disputas inúteis. Qualquer coisa: quem vence no Mortal Kombat, quem escreve o texto mais popular (vejam que bela maldade ele falou de mim na época que eu editava o Confraria de Tolos), quem tem os óculos que mais escurecem no sol; o importante é ficar na frente. Pois então, nesse ano, mais ou menos na época que vimos nossos primeiros filmes de Zhang Yimou (HeróiO Clã das Adagas Voadoras e Lanternas Vermelhas), decidimos do nada verificar quem tinha lido mais vencedores do Nobel de Literatura. Empatamos. Eu tinha lido O Estrangeiro de Camus e ele O Elogio do Ócio de Russel.

“Afe”, disse ele espanando o ar com uma mão, “essa lista não vale nada!”

Concordei com os olhos tortos e na semana seguinte comprei e li A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata, apenas por que tinha a logomarca do Nobel na capa. Não sei se hoje manteria meu julgamento, pois na época meus critérios eram vacilantes e muitos livros que então eram amados perderam sua potência numa releitura mais atual; mas, além de me colocar uma posição à frente do Mofino, esta foi uma experiência memorável. No mesmo ano li ainda Saramago, Hemingway, Garcia Marquez e William Golding, dentre os laureados. Para não ficar muito para trás em nossa disputa boba, o Mofino também leu alguns deles, mesmo sem manter um interesse genuíno. São todos excelentes. Nossa conclusão foi que mesmo repleta de nomes desconhecidos, a lista oferecia grandes surpresas. (Ficando mais velho percebi que a lista de autores grandes, gigantescos, naquela lista, é proporcional à lista de ausências imperdoáveis. Claro que não perdi o interesse. Há alguns meses, por exemplo, li O Anão de Par Lagerkvist, um estupendo romance de um Nobel desconhecido).

Alguns anos após nossa disputa, quando o Mofino já havia migrado para as leituras de sociologia e política e, portanto, quando já havia parado de falar coisas que fizessem sentido, eu notei um padrão que resolvi manter: minha grande mania de leitor é sempre começar o ano lendo um livro de um escritor premiado pela academia sueca, sem nunca repetir (os dessa lista):

2007 – A Peste de Camus

2008 – Pygmalion de Shaw

2009 – O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago

2010 – O Lobo da Estepe de Hesse

2011 – Huit Clos de Sartre

2012 – Proust de Beckett

2013 – O Falecido Mattia Pascal de Pirandello.

E é sobre o livro que terminei hoje que quero deixar uma nota. Em 2012 eu estava no meio de uma viagem quando recebi a notícia de que o laureado foi um chinês com cara de sapo, ao invés de Cormac McCarthy, ou Cees Nooteboom, ou Javier Marias, ou Phillip Roth, ou Thomas Pynchon ou Ismail Kadaré, esses caras que sempre desejamos, ainda que não entrem em nossas listas de apostas, uma vez que não queremos desperdiçar dinheiro em nome de alguém duvidamos que tenham convencido o bom senso das bestas quadradas da Academia Sueca. Antes de saber quem era, já havia decidido que não leria o tal do Mo Yan; mas uma coisa é verdade: todo mundo fica curioso. Quando a Munro ganhou esse ano, o que vi na maioria dos blogs de leitores fanáticos (brasileiros) que frequento foi que, assim como após a morte de Autran Dourado, ninguém tinha lido nada da coitada, apesar de já ter ouvido falar. E agora tá todo mundo lendo os contos dela. Logo que Mo Yan ganhou o seu, editaram aqui sua autobiografia ficcionalizada.

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 A opinião mais sensata que li na época foi a de Paulo Roberto Pires, que afirma que “para uma comunidade intelectual ainda impermeável a experimentar novos sabores literários, abre-se uma nova possibilidade”. Basta pensar que nosso maravilhoso João Ubaldo Ribeiro é um completo desconhecido na China. Ainda assim, continuei empenhado em não lê-lo, não como protesto, mas porque tenho no sofá uma pilha de livros intocados, e eu não iria gastar dinheiro com um oriental desconhecido só porque havia a logomarca do Nobel estampada na capa.

E então nesta última vez em que fui a Salvador, um dia depois da Bienal, com uma bagagem pesada para voltar para casa, reclamei bastante quando o incansável Igor Albuquerque insistiu para que eu levasse também Mudança entre os livros que ele estava me emprestando. Só aceitei após o argumento de que era um livro pequeno, e bastaria que eu tirasse umas duas mandioquinhas de minha mochila para levá-lo tranquilamente. O livro é quase do tamanho de um HD externo e, cara, é completamente diferente do que eu havia esperado.

Em perfis escritos por gente que não o leu, mencionam bastante a política chinesa ao falar da obra de Mo Yan e, pensando agora, foi isto o que mais me afastava do autor. Claro, ela está lá, mas esta obra é na verdade uma história interessantíssima sobre sujeitos que souberam aproveitar suas oportunidades num país em que a palavra “concorrência” carrega proporções faraônicas em seu significado.

Não quero contar muita coisa, pois o livro é muito pequeno e percorremos suas páginas com velocidade automobilística. O fio da narrativa é traçado por um caminhão soviético Gaz-51, que era o objeto que marcava presença nos sonhos de todos os colegas de sala de Mo Yan (cujo apelido, hehehe, era “sapo”), que viviam numa aldeia. Seu colega de classe mais popular, o zombeteiro He Whang, chega a roubar apetrechos do caminhoneiro para fazer uma cena. O caminhoneiro era pai da menina mais bonita da sala, por quem todos eram apaixonados. No futuro Mo Yan faz uma viagem de 1200 km até Pequim, e He Whang descobre que dirigir não era nada assim tão extraordinário, como o caminhoneiro fazia parecer.

Décadas mais tarde, quando Mo Yan já era um escritor de relativo sucesso, descobrimos que seu amigo, então um empresário em ascensão, compra o antiquado Gaz-51 por um preço absurdo e depois o vende a Zhang Yimou! Sim, o caminhão foi usado no primeiro filme do cineasta, por sua vez uma adaptação do primeiro romance de Mo Yan, Sorgo Vermelho! Porra, Zhang Yimou, um de meus cineastas orientais favoritos! Ah, se eu soubesse dessa, era o primeiro a importar um livro do cara de sapo que fiz questão de ignorar.

Até que 2014 não começou mal…