Mudança

Penso eu que cada leitor tem suas manias, umas menos, outras mais excêntricas, visto que qualquer coisa pode ser considerada uma “mania”. Por exemplo, há muita gente que não tem pena de rabiscar seus livros, alguns com lápis, outros com marcador, e ainda aqueles que não se importam com o material, utilizando o que estiver mais próximo das mãos, enquanto eu geralmente pretendo manter meus livros imaculados (ainda que sejam exemplares de segunda mão, comprados em edições estropiadas por pessoas malignas e estranhas). A ensaísta norte-americana Anne Fadiman, uma verdadeira especialista em diagnosticar manias de leitores, os divide em amantes carnais e amantes corteses (ela é uma amante carnal, carnívora, canibal). Então minha febre por inteireza pode ser considerada sim uma mania; veja bem, a falta de ação se transforma em mania (e se trata de uma inação diferente daquela de todas as outras pessoas que simplesmente ignoram os livros. Ainda que iguaizinhos, não dá pra comparar um lido com aquele guardado no plástico. Quem frequenta sebos sabe a que me refiro).

Já falei aqui de meu vício em listas. No ano de 2005, eu e o Mofino já tínhamos o saudável hábito de realizar disputas inúteis. Qualquer coisa: quem vence no Mortal Kombat, quem escreve o texto mais popular (vejam que bela maldade ele falou de mim na época que eu editava o Confraria de Tolos), quem tem os óculos que mais escurecem no sol; o importante é ficar na frente. Pois então, nesse ano, mais ou menos na época que vimos nossos primeiros filmes de Zhang Yimou (HeróiO Clã das Adagas Voadoras e Lanternas Vermelhas), decidimos do nada verificar quem tinha lido mais vencedores do Nobel de Literatura. Empatamos. Eu tinha lido O Estrangeiro de Camus e ele O Elogio do Ócio de Russel.

“Afe”, disse ele espanando o ar com uma mão, “essa lista não vale nada!”

Concordei com os olhos tortos e na semana seguinte comprei e li A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata, apenas por que tinha a logomarca do Nobel na capa. Não sei se hoje manteria meu julgamento, pois na época meus critérios eram vacilantes e muitos livros que então eram amados perderam sua potência numa releitura mais atual; mas, além de me colocar uma posição à frente do Mofino, esta foi uma experiência memorável. No mesmo ano li ainda Saramago, Hemingway, Garcia Marquez e William Golding, dentre os laureados. Para não ficar muito para trás em nossa disputa boba, o Mofino também leu alguns deles, mesmo sem manter um interesse genuíno. São todos excelentes. Nossa conclusão foi que mesmo repleta de nomes desconhecidos, a lista oferecia grandes surpresas. (Ficando mais velho percebi que a lista de autores grandes, gigantescos, naquela lista, é proporcional à lista de ausências imperdoáveis. Claro que não perdi o interesse. Há alguns meses, por exemplo, li O Anão de Par Lagerkvist, um estupendo romance de um Nobel desconhecido).

Alguns anos após nossa disputa, quando o Mofino já havia migrado para as leituras de sociologia e política e, portanto, quando já havia parado de falar coisas que fizessem sentido, eu notei um padrão que resolvi manter: minha grande mania de leitor é sempre começar o ano lendo um livro de um escritor premiado pela academia sueca, sem nunca repetir (os dessa lista):

2007 – A Peste de Camus

2008 – Pygmalion de Shaw

2009 – O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago

2010 – O Lobo da Estepe de Hesse

2011 – Huit Clos de Sartre

2012 – Proust de Beckett

2013 – O Falecido Mattia Pascal de Pirandello.

E é sobre o livro que terminei hoje que quero deixar uma nota. Em 2012 eu estava no meio de uma viagem quando recebi a notícia de que o laureado foi um chinês com cara de sapo, ao invés de Cormac McCarthy, ou Cees Nooteboom, ou Javier Marias, ou Phillip Roth, ou Thomas Pynchon ou Ismail Kadaré, esses caras que sempre desejamos, ainda que não entrem em nossas listas de apostas, uma vez que não queremos desperdiçar dinheiro em nome de alguém duvidamos que tenham convencido o bom senso das bestas quadradas da Academia Sueca. Antes de saber quem era, já havia decidido que não leria o tal do Mo Yan; mas uma coisa é verdade: todo mundo fica curioso. Quando a Munro ganhou esse ano, o que vi na maioria dos blogs de leitores fanáticos (brasileiros) que frequento foi que, assim como após a morte de Autran Dourado, ninguém tinha lido nada da coitada, apesar de já ter ouvido falar. E agora tá todo mundo lendo os contos dela. Logo que Mo Yan ganhou o seu, editaram aqui sua autobiografia ficcionalizada.

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 A opinião mais sensata que li na época foi a de Paulo Roberto Pires, que afirma que “para uma comunidade intelectual ainda impermeável a experimentar novos sabores literários, abre-se uma nova possibilidade”. Basta pensar que nosso maravilhoso João Ubaldo Ribeiro é um completo desconhecido na China. Ainda assim, continuei empenhado em não lê-lo, não como protesto, mas porque tenho no sofá uma pilha de livros intocados, e eu não iria gastar dinheiro com um oriental desconhecido só porque havia a logomarca do Nobel estampada na capa.

E então nesta última vez em que fui a Salvador, um dia depois da Bienal, com uma bagagem pesada para voltar para casa, reclamei bastante quando o incansável Igor Albuquerque insistiu para que eu levasse também Mudança entre os livros que ele estava me emprestando. Só aceitei após o argumento de que era um livro pequeno, e bastaria que eu tirasse umas duas mandioquinhas de minha mochila para levá-lo tranquilamente. O livro é quase do tamanho de um HD externo e, cara, é completamente diferente do que eu havia esperado.

Em perfis escritos por gente que não o leu, mencionam bastante a política chinesa ao falar da obra de Mo Yan e, pensando agora, foi isto o que mais me afastava do autor. Claro, ela está lá, mas esta obra é na verdade uma história interessantíssima sobre sujeitos que souberam aproveitar suas oportunidades num país em que a palavra “concorrência” carrega proporções faraônicas em seu significado.

Não quero contar muita coisa, pois o livro é muito pequeno e percorremos suas páginas com velocidade automobilística. O fio da narrativa é traçado por um caminhão soviético Gaz-51, que era o objeto que marcava presença nos sonhos de todos os colegas de sala de Mo Yan (cujo apelido, hehehe, era “sapo”), que viviam numa aldeia. Seu colega de classe mais popular, o zombeteiro He Whang, chega a roubar apetrechos do caminhoneiro para fazer uma cena. O caminhoneiro era pai da menina mais bonita da sala, por quem todos eram apaixonados. No futuro Mo Yan faz uma viagem de 1200 km até Pequim, e He Whang descobre que dirigir não era nada assim tão extraordinário, como o caminhoneiro fazia parecer.

Décadas mais tarde, quando Mo Yan já era um escritor de relativo sucesso, descobrimos que seu amigo, então um empresário em ascensão, compra o antiquado Gaz-51 por um preço absurdo e depois o vende a Zhang Yimou! Sim, o caminhão foi usado no primeiro filme do cineasta, por sua vez uma adaptação do primeiro romance de Mo Yan, Sorgo Vermelho! Porra, Zhang Yimou, um de meus cineastas orientais favoritos! Ah, se eu soubesse dessa, era o primeiro a importar um livro do cara de sapo que fiz questão de ignorar.

Até que 2014 não começou mal…

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2 pensamentos sobre “Mudança

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