O insuportável sofrimento dos outros

Por algum tempo relutei em assistir No, último filme do chileno Pablo Larraín, que concorreu contra Amour (de Michael Haneke) ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Penso que meu motivo, se não justo, é ao menos compreensível: o outro filme de Larraín que conheço, jubilosamente intitulado Tony Manero, mesmo sendo uma obra-prima, é simplesmente o filme mais pesado que eu já vi. Ao terminá-lo, o fel transbordava por minha boca, um amargor que durou mais de uma semana. Assim deduzi que No, por se tratar da ditadura chilena, também o seria.

Fui muito bobo, pois não poderia estar mais errado. Um trailer daria conta de me mostrar que o filme, camaradas, não é nada pesado. Por sorte, minha irmã é a cinéfila mais idiossincrática que eu conheço, da espécie que começa a ver a lista do Oscar pelos concorrentes a Filme Estrangeiro. Foi ela, portanto, que me contou que o filme na verdade é sobre a gigantesca contribuição que um publicitário teve para a queda do General Pinochet.

Em 1988, após grande pressão internacional, o general, já com quinze anos de ditadura, abre um plebiscito para saber se a população desejaria que ele permanecesse por mais oito anos no governo. “Sim” ou “não”? O célebre publicitário René Saavedra é contratado para coordenar a propaganda da oposição ao general. Se antes queriam denunciar os atos de tortura do governo (o tipo de propaganda-denúncia que não interessa ao cidadão comum), após sua chegada decidem basear suas propagandas na previsão de um futuro alegre para o país. O álacre é o melhor convencimento. Os momentos de pura tensão do filme estão no prato mais alto da balança; estão em menor quantidade, por exemplo, que as divertidas gravações dos comerciais do partido do “não”.

A questão é que em nenhum momento desisti de minha intenção de ver o filme. Apenas adiei a tarefa continuamente, como se fosse uma daquelas atividades indispensáveis, porém jamais urgentes, que nunca riscamos da lista de afazeres: comprar uma estante, fazer abdominais, ler A Montanha Mágica. Há meses já tinha o filme gravado no HD da Sky, e sempre que cogitava vê-lo, escolhia outro. Eu pensava que era mais um filme-denúncia-fundamental.

A triste verdade é que estamos sempre cansados, quando se trata de um filme-denúncia-fundamental. Nossa resistência a eles é naturalmente nutrida com água, sol e oxigênio, e nada mais. Adiamos ao máximo ver aquela obra-prima sobre a situação no Egito ou sobre a fome na Etiópia que nossos colegas acadêmicos tanto recomendam, porque sabemos que ela nos perturbará profundamente. Já sabemos que o mundo é cruel e que enquanto nos divertimos com produções de Hollywood, as injustiças ocorrem a cada segundo, sem parar, em todos os lugares; grandes números não tocam o coração de ninguém, mas nem por isso queremos ser atingidos por cada infelicidade particular que reside num ponto fixo do planeta. Precisamos respirar um ar leve de vez em quando.

Creio ser este o único motivo que justificaria tanta resistência das pessoas a filmes de países de história recente maculados pela severidade e truculência, como o Irã ou a República Tcheca. Tomemos o caso deste último: vejo muitos cinéfilos que levam em conta somente seu imaginário raso, o de que se trata de um lugar em que todas as narrativas das décadas passadas são propagandas soviéticas camufladas, e todas as narrativas das décadas recentes são a denúncia desse período. Ignoram toda a hilária e agridoce extravagância sexual de autores como Kundera e Hrabal, e até de americanos como Roth e Chabon, com personagens que já se aventuraram em Praga. Ignoram, também, aquela série de filmes divertidos e fundamentais que fizeram a cabeça do mundo nos anos sessenta; filmes que abocanharam dois Oscars de Filme Estrangeiro, dos três que concorreram em três anos seguidos; o cinema que revelou o brilhantismo de Milos Forman, diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus; o país marcado exatamente pelo humor, pela sensualidade, pelas grandes canecas de cerveja, pela profundidade com que estuda a natureza humana. Tal resistência não se justificaria por qualquer outro motivo que não o puro preconceito contra a densidade, a lentidão e a pretensão que estão somente na cabeça desse tipo de expectador. Exatamente como minha relutância em ver No.

No entanto, essa mesma pessoa espera com ansiedade filmes violentos, se provindos de países que alardeiam alegria ou qualidade de vida (ou, no mínimo, a liberdade). A violência gráfica nos filmes de diretores como Padilha, Tarantino, Robert Rodriguez, Oliver Stone, Guy Ritchie ou Scorsese, apesar de bem mais palpáveis que em muitos dos filmes-denúncia que relutamos em ver, são bem mais palatáveis. Apreciamos a violência, mas não suportamos o sofrimento.

E qual a diferença?

Em primeiro lugar, não há simpatia nos filmes violentos. Ver um gangster entrar num banco e rapidamente assassinar meia dúzia de funcionários é bem mais fácil de digerir que a árdua trajetória de um pianista judeu que luta para sobreviver em tempos brucutus. É mais fácil tolerar o sofrimento de um mafioso psicopata que o de uma criança faminta dos olhos grandes.

E há também a identificação com a História. Saber que realmente aconteceu, perto de nós, é sempre terrível. No romance Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, descobrimos com horror que no casarão onde os poetas se reuniam, a poucos metros do salão onde ocorriam os maravilhosos saraus, eram aplicadas sessões de tortura. O mesmo ocorre conosco e o mundo cão que nos rodeia. Incomoda demais saber que neste mesmo planeta em que respiramos e sorrimos e dançamos e vivemos felizes, pessoas são atacadas, exploradas e massacradas todos os dias, e suas vozes morrerão sem que tenham a chance de contar sua história… O mundo lá fora sempre foi pior.

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