Numa Tela Brilhante: Black Mirror

I could be bound in a nutshell, and count myself a king of infinite space.

Hamlet, Shakespeare.

Meu desejo, na verdade, seria fazer apenas um longo elogio sobre a série britânica Black Mirror, e dar conta de minhas intenções. Mas elogios só interessam a quem recebe ou a quem idolatra. Qualquer linha duma sinopse funcionaria melhor ao meu propósito, que é divulgar a série a quem não conhece, e esperar comentários muito mais reveladores e brilhantes de outros expectadores. Digo isso, que uma sinopse funcionaria, porque o forte da série está exatamente em seus roteiros, apesar de não dever nada em relação aos aspectos técnicos das melhores produções audiovisuais: os atores são ótimos, a fotografia é correta, a trilha sonora é interessante, assim como a montagem e os efeitos especiais. Mas o ponto alto mesmo são os roteiros. Bastante comparada com Além da Imaginação, Black Mirror nos apresenta algumas das distopias mais contundentes dos últimos anos.

Creio não ser preciso gastar muito tempo explicando o que são distopias, pois aqueles que acompanham a história do cinema, da literatura, dos quadrinhos, ainda que não as conheçam por esse nome, são capazes de percebê-las como um padrão de tom em certas obras. Pois bem, a distopia é o anti-lugar, a projeção de um mundo indesejável, terrível, apocalíptico, o oposto da utopia. Na ficção, essa projeção pessimista pode estar direcionada em diversos aspectos morais de uma sociedade, como os excessos do governo (1984, V de Vingança), das corporações (Akira, Mad Max) da sociedade em si (Laranja Mecânica), da tecnologia (O Exterminador do Futuro). Há outros tipos de distopia, mas não pretendo destrinchar um por um.

Os episódios de Black Mirror podem se encaixar em diversas destas categorias, mas o elo entre eles é o uso exagerado das tecnologias domésticas. Se a tecnologia sempre foi, pretensamente, um meio de facilitar a vida das pessoas, este discurso ignora, ou prefere esconder, que apesar dos indiscutíveis benefícios, cada nova invenção acarreta numa nova série de problemas para a humanidade. Charles Brooker, o criador da série, pretende discutir estes problemas, os efeitos colaterais duma nova doença mundial: os abusos das gravações de imagens, o voyeurismo, a procrastinação, a crença ou idolatria cega no que é compartilhado oficialmente, a perda de tempo, as “necessidades” inúteis, a estupidez coletiva, a sedução do poder, o culto à bobagem, a tecnologia como substituição (mas não solução) para os males de nossa natureza frágil, o vício na tecnologia como um fim em si.

Os episódios não mantêm relação entre si. Black Mirror (até agora) tem apenas duas temporadas de três episódios. Temporadas curtas demais, para quem está habituado ao formato das séries dramáticas norte-americanas, com doze; mas não tão diferente da métrica de outros seriados britânicos, como Sherlock, pra citar um exemplo recente.

As premissas dos seis episódios são instigantes:

S01E01 – O primeiro-ministro da Inglaterra recebe um vídeo em que uma princesa amada pela Família Real, em prantos, lhe dita a ordem do sequestrador: ele deve fazer sexo com um porco, ao vivo, numa transmissão nacional.

S01E02 – A rotina de um homem desesperado, pois trabalha junto com uma multidão idiotizada, pedalando o dia inteiro em bicicletas ergométricas, em troca de pontos para comprarem futilidades virtuais.

S01E03 – Todos têm uma espécie de chip implantado abaixo da orelha que grava tudo o que é visto e ouvido, além de ser facilmente exibido, como uma projeção de slides. Assim, todas as relações sociais giram em torno dessas projeções.

S02E01 – Uma viúva de luto contrata os serviços para que um software faça o papel de seu marido morto (bastante semelhante à premissa de Ela, de Spike Jonze).

S02E02 – Uma mulher é caçada por assassinos grotescos enquanto uma multidão filma tudo tranquilamente com seus celulares.

S02E03 – Um desenho animado manipulado ao vivo por um cidadão comum concorre a um cargo político após esculachar um candidato.

Surpreende que, na maioria dos episódios, o mundo seja fisicamente igual ao que vivemos. Não há espaço para vales inóspitos, cidades na lua, animais esquisitos, carros voadores, espaçonaves, bazucas modernosas, robôs gigantes, essas coisas que estamos acostumados a ver nas ficções cientificas distópicas. As armas mais violentas são a câmera, o teclado e a estupidez generalizada.

Parte-se, em muitas vezes, de casos particulares para mostrar como a multidão estupidificada tem voz cada vez mais forte, por conta destas tecnologias. A multidão que se compraz em torturar uma criminosa sem memória; a multidão que financia os malabarismos dos poderosos; a multidão que ataca escondido detrás da tela luminosa. Destas telas e monitores vem o título. Black Mirror abre com uma tela rachada. Enquanto olhamos para nosso smartphone, ele nos reflete, reflete nosso lado obscuro, sem que percebamos. Sim, de alguma forma, fazemos parte dessa multidão.

Apesar de geralmente mostrar esta projeção maldita num futuro hipotético, as distopias respondem a anseios e dúvidas imediatas. Vemos uma obra de ficção e, ao perceber que o personagem está prestes a se dar mal, pensamos: “eu não faria isso”. Com Black Mirror, a sensação é mais amarga: “fazemos isso diariamente”. O mais importante, portanto, é o que podemos descobrir sobre nós mesmos enquanto nos divertimos com tais ficções.