O Efeito Salenko (Parte 3)

Descubra o que é Efeito Salenko aqui e aqui.

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Sabemos que a palavra “gol” deriva da inglesa goal, que significa “objetivo” ou “meta”. Mas qual o objetivo do gol? Primordialmente, o gol serve para alterar o placar, aproximar sua equipe da vitória, dos pontos, às vezes do título. Historicamente, gols são apenas números, e a história é marcada por estimativas frias: dois mil figurantes numa filmagem, 25 mil franceses numa batalha, seis milhões de judeus numa guerra. Arredonda-se as quantidades para facilitar a narração do mundo. Em longo prazo, nos recordamos apenas dos gols especiais. Quatro gols na final da copa, aquele no último minuto. O gol, enquanto momento único, é um número específico. Sua função é entusiasmar o jogador e inflamar a torcida. A modorra de um jogo morno é destruída com um primeiro gol.

Alguns gols são tão importantes e interessantes que recebem um nome próprio. Gol Olímpico, Gol de Placa, o Gol do Título; o Gol do Século, aquele em que Maradona atravessa o campo driblando ingleses; o Gol Cem de Rogério Ceni; o Gol Mil de Pelé. E, no entanto, são apenas variações do momento em que a bola cruza por inteira a linha de chegada. Por belos e importantes que sejam, adicionam apenas um número no placar, sempre. Nunca mais de um.

Ainda que em sua essência todos são a mesma coisa, há gols que no contexto geral valem mais. O Gol Mil de Pelé é consequência natural da eficiência de seu futebol; o gol mil de Túlio é um produto forçosamente extraído de uma experiência patética (o único gol de Tony Hibbert é mais genuíno). A paráfrase do Gol do Século realizada por Messi contra o Getafe só tem uma fração da importância do gol de Maradona. Não deixam de ser igualmente belos. E não podemos nunca nos esquecer da função primordial do gol. Neymar ganhou o Prêmio Puskas por seu lindo gol contra o Flamengo, mas o Santos, no final das contas, perdeu a partida.

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Depois de acontecida a tragédia, pensamos sempre em como ela poderia ter sido evitada. Um centímetro a menos de trave ou a mais na espessura da linha do gol, a posição do pé contra a bola num chute decisivo, o impedimento mal marcado. “Se aquela bola…” O futebol é um exercício metafísico em que um gol marcado anula um erro precedente, mas não o contrário. O gol de Ruiz, no jogo da Costa Rica contra a Itália, não sairia se o pênalti em Campbell tivesse sido marcado. Por outro lado, se o pênalti fosse posterior ao gol, a Costa Rica poderia ter ganhado com a diferença de dois gols. Acontece sempre.

A ordem dos fatores altera o produto; eis um princípio do Efeito Salenko. A Inglaterra não ganharia a copa de 1966 se o juiz não tivesse dado para eles um gol que não entrou. “Mas ganhamos de 4 a 2”, dirão os ingleses. Claro, o gol dado a Hurst na prorrogação obrigou a Alemanha Ocidental a atacar e, consequentemente, liberar espaço para o quarto gol inglês. Variação do princípio: se seu time toma uma goleada, posso te pirraçar à vontade. Se o meu toma uma lavada logo em seguida, você não pode dizer nada, pois o seu também tomou. O tempo e o espaço, como em Newton, são absolutos.

As duas grandes tragédias futebolísticas brasileiras sugerem movimentos opostos entre si. Precisávamos do empate nas duas ocasiões (ou seja, não tomar um gol a mais, ou fazê-los em mesma quantidade). No maracanazo, o movimento da bola para fora do gol (uma defesa de Barbosa, talvez), e na Tragédia do Sarriá, em 1982, da bola para dentro (na cabeçada de Oscar, aos 44 do segundo tempo). De acordo com o livro Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik, alguns jogadores tinham tanta certeza que o resultado estava divinamente escrito, que afirmaram que se a cabeçada tivesse entrado, certamente tomariam outro gol em seguida. Certamente de Paolo Rossi, penso.

A ruminação, entretanto, é a arte dos vencidos. O óbvio ululante, que não passa pela cabeça de ninguém por aqui, é que tais minúcias poderiam ocorrer em detrimento do vencedor. Ninguém sequer cogita a possibilidade da bola entrando, no pênalti de Baggio… Mas penso especialmente num lance nunca repetido da final de 2002. Estava cochilando, quando acordei com os gritos assustados de todo o Brasil, desperto, ansioso. Numa cobrança de falta no começo do segundo tempo, o sete, Neuville, estourou um tijolo na trave de Marcos. O jogo ainda estava empatado. E se o curso da bola tivesse se desviado uns dois centímetros em direção ao gol? 

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O Efeito Salenko (parte 2)

Descubra o que é o Efeito Salenko.

04

A copa da França, em 1998, foi a primeira com 32 equipes. As consequências do Efeito Salenko nos foram devastadoras. Para começar, o Brasil fez 14 gols, três a mais que em 1994, porém tomou dez, sete a mais que nos EUA. Além disso, o time perdeu duas partidas, sendo que a final foi uma derrota humilhante. O que leva a um segundo teorema: é melhor manter o saldo que marcar mais e tomar muito mais. Sempre é melhor ser campeão dando show, é a lógica básica, sabemos. Mas, teoricamente, um time retranqueiro que sabe bater pênaltis bem (e que tem a sorte de ver o craque adversário mandar a bola pro espaço) pode ser campeão do mundo se fazer um gol sequer no jogo normal.

É o Efeito Salenko. A França manteve um impressionante saldo positivo de treze gols. Mas esta é uma renda bem distribuída naquela seleção. Dos 14 gols do Brasil, um foi contra, da Escócia, e todos os outros treze foram marcados por apenas quatro jogadores. A França marcou 15 vezes, e todos bem divididos entre seus nove goleadores naquele ano. O inesquecível Zinedine Zidane só marcou dois na copa inteirinha, e os brasileiros, mesmo os que não viram aquela copa, já estão abusados de revê-los pela TV. O craque francês vai ser lembrado pelo resto de sua vida, por casa daqueles dois golzinhos de cabeça. Não duvido que se Ronaldo pudesse transferir gols como faz com seus dólares, tiraria os três que marcou contra o Chile e o Marrocos, onde vencemos com gols de sobra, e os depositaria na conta dos franceses. Creio até que ele daria sua Bola de Ouro para Zidane em troca da taça de campeão.

Alguns anos depois da lavada que tomamos para os donos da casa, com o luto passado, mas com a ferida ainda não cicatrizada, um jornalista brasileiro, com os olhos inchados de lágrimas, faz a pergunta definitiva: “você não tem coração, homem cruel, não sente remorsos por fazer chorar tantos milhões de brasileiros inocentes?” Zinedine Zidane, blasé, responde: “Mas vocês já pensaram em quantas pessoas sofreram, em quantas vocês fizeram chorar?” O torcedor brasileiro, acostumado a tantas vitórias, ainda não tem maturidade para notar que, sempre que comemoramos, o outro lado sai perdedor. Por isso, quando perdemos, entramos em luto, é catastrófico. Nunca conseguimos nos acostumar com perdas tão grandiosas. Vi o Brasil perder três vezes; a derrota de 1998 foi a única em que eu ainda não bebia.

Das dezenove copas disputadas até agora, o artilheiro foi do time campeão apenas em 1978, com o argentino Mario Kempes (que não seria nem artilheiro nem campeão sem os dois gols na polêmica goleada contra o Peru); em 1982, com o carrasco Paolo Rossi; em 2002, com Ronaldo Fenômeno; e  em 2010, com Villa. Apenas quatro, dentre dezenove, é um número significativo. Não que não seja importante ter o artilheiro, pois a essência do esporte é buscar fazer gols, sempre. Significa na verdade que um time com vários goleadores medianos em geral é mais eficiente que uma equipe com um único grande artilheiro. E mesmo assim, para ser campeão os gols precisam ficar espalhados em várias vitórias, como diz a primeira premissa do Efeito Salenko (vide quesito 01).

O exemplo do francês Just Fontaine é tão contundente que poderia batizar minha teoria, não fosse o fato de sua seleção ficar em terceiro lugar, bem melhor que o desclassificado Oleg Salenko. Fontaine é o artilheiro de copas com maior número de gols em uma só edição, treze no total, e por muito tempo recordista em número de gols marcados. Na copa de 1958, a França, sua seleção, desferiu ruidosas goleadas. Um 7 a 3 no Paraguai, em sua estreia, e um 4 a 0 contra a Irlanda do Norte, nas quartas, para enfim de tomar uma lapada de 5 a 2 contra o Brasil de Pelé e Garrincha. Ainda deu mais uma goleada, de 6 a 3, contra a Alemanha, na disputa do terceiro lugar. Quem se lembra? Alguém sabia disso? O que fica de 1958 são os golaços dos brasileiros.

Enquanto isso, Zinedine Zidane não precisaria fazer mais nada para ter seu nome gravado no esporte, com apenas dois gols. E eu me pergunto quem é mais famoso, o artilheiro Salenko, ou mesmo Stoichkov, que já foi considerado o melhor do mundo, ou Zidane, com suas cabeçadas?

Eis a questão: quantos gols de cabeça iguaizinhos àqueles não são feitos às pencas por aí? Eu mesmo já vi centenas, milhares de gols até mais bonitos que aqueles, transmitidos rapidamente na chuva de gols televisiva, sendo esquecidos para sempre, para dar lugar a alguns gols feios, porém decisivos, de campeonatos mais interessantes. Gols repetidos todos as semanas. O sentido do Efeito Salenko, aqui, é exatamente demonstrar que o lugar e a situação às vezes são mais importantes que os gols em si. Operações frias de matemática e de estatística não funcionam bem no contexto caliente do futebol.

O Efeito Salenko (parte 1)

No final de 2011 comecei a escrever um romance juvenil sobre futebol que seria publicado seis meses antes da copa e me deixaria rico e famoso. Eu não havia planejado nem o meio nem o fim, e percebi que ele não funcionaria após escrever mais ou menos quarenta páginas. As notas ensaísticas dessa e das próximas postagens foram extraídas (e atualizadas) desse romance inacabado, que se chamaria O Efeito Salenko.

01
Na primeira Copa que vi, nos EUA, em 1994, só competiam 24 times. O Brasil estava no grupo B, junto com a Rússia, o Camarões, e a Suécia. Os artilheiros foram Stoichkov, da Bulgária, e Oleg Salenko, da Rússia com 6 gols cada. Salenko jogou vinte minutos contra o Brasil, mas não marcou. Na verdade, a Rússia sequer passou da primeira fase. Mas ele fez cinco gols contra o Camarões, na goleada de 6 a 1. Em um único jogo fez o mesmo número de gols que Romário na copa inteira. Romário, que entrou em suas sete partidas como titular, foi nosso artilheiro, e absolutamente decisivo. O que me leva a pensar numa verdade futebolística: o Efeito Salenko. As premissas e teoremas que nos ajudam a definir tal verdade ainda estão sendo desenvolvidas e pesquisadas. A primeira delas é bastante óbvia: mais vale obter sete vitórias magras que uma goleada, um artilheiro, e uma eliminação precoce.

02
Até hoje, não há qualquer rancor prolongado entre o Brasil e a Itália (apesar de serem rivais tradicionais), ao menos não como temos em relação à Argentina e à França. Cada um dos dois países teve seus momentos de glória na história do confronto, e o desejo de retaliação não é tão acentuado como poderia ser, caso só houvesse vitórias de um lado. Há ainda certo ressentimento por conta da copa de 1982, ressentimento que eu herdei. Mas ele nunca poderá ser sarado, mesmo que os batamos em dezenas de finais, pois o time de Telê era uma seleção especial, que as crianças das gerações posteriores foram ensinadas a apreciar sem terem visto jogar. A goleada na final de 1970, no entanto, compensa, mesmo sabendo que nas copas de 1938 e 1982 tínhamos um time melhor.

E em 1994, mais uma vez, o Efeito Salenko. A Itália nos enfrentava confiando em Roberto Baggio, que foi seu artilheiro e já tinha desbancado a Bulgária de Stoichkov, o outro artilheiro, sendo que este precisou de muito mais minutos em campo para igualar a marca de Salenko. Baggio enfrenta o Brasil, e tem o mesmo número de gols que Romário. Qualquer um dos dois tinha a possibilidade de ser o artilheiro (isolado, se fizesse mais de um gol) e herói da Copa. Nenhum marca, e nos penais, Baggio manda o dele para o espaço, junto com toda sua bela campanha. Baggio se iguala, neste momento, a Barbosa, o goleiro brasileiro que recebeu a culpa pelo maracanazo (nosso “Hiroshima psicológico”): de herói a pária com um único chute. Taffarel, que nesta final quase toma o maior frango de todas as copas, se consagra.

03
Na física, um objeto qualquer é chamado corpo. Um corpo é formado por partículas, que juntas completam uma unidade. Um corpo pode ser qualquer coisa, de qualquer tamanho, e outros corpos podem estar dentro de um corpo. Uma bola de futebol é um corpo. Uma bolinha de lama que se colou na bola de futebol é outro corpo. Uma formiguinha que estava na bolinha de lama também é outro corpo. Um corpo pode ser considerado grande ou pequeno, quando há uma comparação. Podemos comparar um corpo a outro corpo de mesma categoria, ou a outro de categoria diferente. O planeta Terra é grande em relação à formiga (que é de uma categoria diferente, pois enquanto o primeiro é um planeta, o segundo é um inseto), porém é minúsculo em relação a Júpiter (que é da mesma categoria, pois também é um planeta). Júpiter, em relação ao sol, é pequeno, e assim sucessivamente, em relação a corpos de outros sistemas. Quando um corpo é considerado grande, é chamado de corpo extenso; quando é considerado pequeno, de ponto material. Isto está intrinsecamente ligado ao Efeito Salenko.

O grande jogador de futebol segue uma hierarquia e uma cadeia que geralmente vai da partícula ao astro. Ele melhora aos poucos entre seus amigos, na escolinha, no colégio, no time juvenil, no time principal, até que ganha seu primeiro título. É um corpo extenso, em relação aos times que enfrentou. Um título estadual permite que no ano seguinte o time jogue contra os grandes – na Copa do Brasil, especialmente –, ainda que como ponto material. Se este jogador seguir o ritmo de ascensão que teve até então, poderá chamar a atenção do time grande e ser contratado por ele, se destacar lá, ir para outro maior ainda, etc. O céu é o limite. Há outras maneiras de ascensão futebolística, e este é apenas um exemplo educativo.

Mas recuemos. O ponto a que quero chegar ainda está na Copa do Brasil: mesmo havendo uma diferença quilométrica entre o corpo extenso e o ponto material, o time pequeno pode surpreender. Na linguagem popular, isto é chamado de “zebra”. Não é uma possibilidade tão remota. Brian Clough e Peter Taylor foram campeões da Europa comandando times pequenos. O Juventude, o Paulista e o Santo André foram campeões da Copa do Brasil. O São Caetano quase ganhou o brasileirão duas vezes, mesmo sendo um time de tradição menor que a de seus adversários. Aconteceu também em várias Copas do Mundo: o maracanazo, o milagre de Berna, a queda da Laranja Mecânica, o fracasso de 1982, e consideraremos, nas últimas edições, o avanço inesperado de Bulgária, Croácia, Coreia do Sul e Turquia. É diferente da mera zebra, pois uma coisa é ganhar uma partida de um time grande, outra é um campeonato, que requer sequências de vitórias sobre vários deles. Isto dá origem ao Princípio Schrödinger do Efeito Salenko: qualquer time de futebol, ao entrar no campo, é ao mesmo tempo grande e pequeno. É o que o Efeito Salenko tem a acrescentar aos princípios da massa e da estatura.

Minha primeira Copa

Nasci em ano de copa. Uma pessoa normal perguntaria em que ano nasci. Um fanático por futebol, em que copa. E parece que no Brasil só tem fanático. Pois bem. Nesse ano aconteceu muita coisa. Coisas tristes e felizes. Antes de eu nascer teve o acidente da aeronave Challenger e o desastre nuclear de Chernobyl. Um mês depois que nasci, Jorge Luis Borges morreu. E o que tem de feliz nisso tudo? Meu nascimento, ora bolas.

Explico fanaticamente a que ano me refiro: nessa copa o nosso técnico era o Telê Santana, perdemos pra França nas quartas-de-final, destacaram-se ao longo da copa os “Diabos Vermelhos” e a “Dinamáquina”; o jogador Lineker, por quantidade, e Maradona, por qualidade. Foi nessa copa, contra a Inglaterra, que ele fez aquele gol de mão e aquele em que ele dribla meia dúzia de bretões antes de marcar. A Argentina foi campeã nesse ano. Como eu disse, coisas tristes aconteceram.

Mas tudo isso eu só sei de arquivo. Não presenciei por motivos óbvios. Pra falar a verdade, nem a copa de 1990 eu cheguei a ver. Tinha quatro anos só, ainda não dava ousadia pra essas coisas. Em 1994 comecei a assistir. Entrei seguindo a direção da onda. Era só no que se falava. Não sabia muito sobre as regras, nem sobre a seleção Brasileira, nem nada. Na verdade nem gostava muito de jogar bola. Toda vez que eu tentava ou tomava uma bolada na cara ou raspava o dedão no chão de cimento em que a gente jogava. Preferia ler gibi. Comecei a assistir mais por curiosidade sociológica de criança, afinal, que diabos era aquilo que transformava todos em fanáticos, unidos por um bem comum? Inclusive minha mãe, que vivia reclamando com meu pai quando ele jogava bola no quintal. “Como odeio esse negócio de chutar uma bola pra lá e pra cá, em cima de minhas plantas!”

Até a copa de 2006 eu acreditava que era o torcedor mais pé quente que já houve. Veja: de quando eu comecei a assistir copas, no mínimo na final o Brasil chegava. Já fazia vinte e quatro anos que isso não acontecia, então passou a ser a cada quatro anos. Culpa minha, eu tinha certeza. E dizia mais: alguma coisa sobrenatural devia ter acontecido no ano de 1998 pra que o Brasil não ganhasse. Alguma conspiração política capaz de arrepiar os cabelos do braço de Stálin. Mas aí veio Henry, Zidane e cia e mostraram que a coisa não era bem assim. Ainda acho que há algo de podre no reino da França.

A superstição, por sinal, desde antes de Homero, é produto da disputa. Sem ela o futebol seria um mero espetáculo contemplativo, como uma orquestra ou um sermão. Mas está mais para o show de rock ou para a tragédia grega; participamos, acreditamos, vaiamos. Liberamos toda a nossa catarse. Jogar bola, em meus tempos, era lutar pela pátria, apesar dos arranhões, inchaços, hematomas, das cacetadas que a gente levava. Era nossa pequena batalha. Pouca coisa, mas o que seria dos gregos se Aquiles, quando criança, tivesse medo de uma ou outra pancadinha? Imagine então com Pelé…

Disse que comecei a assistir copas em 1994. Outra coisa me influenciou bastante pra isso. Um tal de bolão. Era fácil demais. Bastava adivinhar os resultados dos jogos e eu teria dinheiro pra comprar meus gibis do Senninha, cujo inspirador morrera naquele ano. Acertei o do jogo contra o Camarões, na primeira fase. Nosso melhor resultado na copa. 3×0. Sou pé quente, sério mesmo. A partir daí um interesse crescente pelos jogos me dominava. Temi a Suécia. O jogo contra os Estados Unidos foi o primeiro em que eu gritei gol. Eu ficava meio acanhado de gritar no meio de gente. Nesse dia isso acabou. GOL! E todos gritavam junto comigo, o que destruiu todo meu acanhamento. Depois veio o jogo contra a Holanda. Ah, o jogo contra a Holanda (suspiro). Pra mim o melhor jogo daquela copa. Todo mundo reunido na casa de nosso avô, na roça. A família é grande. A meninada sentada ou deitada no chão da sala, um em cima do outro. Uns usavam uniformes da seleção, outros luvinhas em “v”, uns seguravam bandeiras e eu, nada. Simplesmente torcia, e só. Foi um jogo difícil, disputado, polêmico. Sei que uma hora Bebeto recebe a bola, passa por um, dribla o goleiro e gol! GOL! E ele faz aquela comemoração para o filho dele, que – dizem – foi inventada naquela hora. Nesse momento nasce mais um fanático. Nem precisaria do gol de falta de Branco pra isso acontecer. Bastaria o de Bebeto. Bem, fiquemos com o dois, devemos gratidão eterna a Branco…

No final do jogo eu me lembro de ter comentado com meu pai:

– Desse jeito o Brasil vai até ganhar a copa, né?
E ele, acostumado a ver o Brasil perder com seleções melhores que aquela, mas com medo de me dar esperanças incertas demais ou de tirar as que eu tinha (e que ele, como torcedor, também devia ter), respondeu:
– Pode até ser.

Esse texto foi publicado antes, no Confraria de Tolos, com o título Um Nascimento. Veja os lances do jogo entre Brasil e Holanda.