Minha primeira Copa

Nasci em ano de copa. Uma pessoa normal perguntaria em que ano nasci. Um fanático por futebol, em que copa. E parece que no Brasil só tem fanático. Pois bem. Nesse ano aconteceu muita coisa. Coisas tristes e felizes. Antes de eu nascer teve o acidente da aeronave Challenger e o desastre nuclear de Chernobyl. Um mês depois que nasci, Jorge Luis Borges morreu. E o que tem de feliz nisso tudo? Meu nascimento, ora bolas.

Explico fanaticamente a que ano me refiro: nessa copa o nosso técnico era o Telê Santana, perdemos pra França nas quartas-de-final, destacaram-se ao longo da copa os “Diabos Vermelhos” e a “Dinamáquina”; o jogador Lineker, por quantidade, e Maradona, por qualidade. Foi nessa copa, contra a Inglaterra, que ele fez aquele gol de mão e aquele em que ele dribla meia dúzia de bretões antes de marcar. A Argentina foi campeã nesse ano. Como eu disse, coisas tristes aconteceram.

Mas tudo isso eu só sei de arquivo. Não presenciei por motivos óbvios. Pra falar a verdade, nem a copa de 1990 eu cheguei a ver. Tinha quatro anos só, ainda não dava ousadia pra essas coisas. Em 1994 comecei a assistir. Entrei seguindo a direção da onda. Era só no que se falava. Não sabia muito sobre as regras, nem sobre a seleção Brasileira, nem nada. Na verdade nem gostava muito de jogar bola. Toda vez que eu tentava ou tomava uma bolada na cara ou raspava o dedão no chão de cimento em que a gente jogava. Preferia ler gibi. Comecei a assistir mais por curiosidade sociológica de criança, afinal, que diabos era aquilo que transformava todos em fanáticos, unidos por um bem comum? Inclusive minha mãe, que vivia reclamando com meu pai quando ele jogava bola no quintal. “Como odeio esse negócio de chutar uma bola pra lá e pra cá, em cima de minhas plantas!”

Até a copa de 2006 eu acreditava que era o torcedor mais pé quente que já houve. Veja: de quando eu comecei a assistir copas, no mínimo na final o Brasil chegava. Já fazia vinte e quatro anos que isso não acontecia, então passou a ser a cada quatro anos. Culpa minha, eu tinha certeza. E dizia mais: alguma coisa sobrenatural devia ter acontecido no ano de 1998 pra que o Brasil não ganhasse. Alguma conspiração política capaz de arrepiar os cabelos do braço de Stálin. Mas aí veio Henry, Zidane e cia e mostraram que a coisa não era bem assim. Ainda acho que há algo de podre no reino da França.

A superstição, por sinal, desde antes de Homero, é produto da disputa. Sem ela o futebol seria um mero espetáculo contemplativo, como uma orquestra ou um sermão. Mas está mais para o show de rock ou para a tragédia grega; participamos, acreditamos, vaiamos. Liberamos toda a nossa catarse. Jogar bola, em meus tempos, era lutar pela pátria, apesar dos arranhões, inchaços, hematomas, das cacetadas que a gente levava. Era nossa pequena batalha. Pouca coisa, mas o que seria dos gregos se Aquiles, quando criança, tivesse medo de uma ou outra pancadinha? Imagine então com Pelé…

Disse que comecei a assistir copas em 1994. Outra coisa me influenciou bastante pra isso. Um tal de bolão. Era fácil demais. Bastava adivinhar os resultados dos jogos e eu teria dinheiro pra comprar meus gibis do Senninha, cujo inspirador morrera naquele ano. Acertei o do jogo contra o Camarões, na primeira fase. Nosso melhor resultado na copa. 3×0. Sou pé quente, sério mesmo. A partir daí um interesse crescente pelos jogos me dominava. Temi a Suécia. O jogo contra os Estados Unidos foi o primeiro em que eu gritei gol. Eu ficava meio acanhado de gritar no meio de gente. Nesse dia isso acabou. GOL! E todos gritavam junto comigo, o que destruiu todo meu acanhamento. Depois veio o jogo contra a Holanda. Ah, o jogo contra a Holanda (suspiro). Pra mim o melhor jogo daquela copa. Todo mundo reunido na casa de nosso avô, na roça. A família é grande. A meninada sentada ou deitada no chão da sala, um em cima do outro. Uns usavam uniformes da seleção, outros luvinhas em “v”, uns seguravam bandeiras e eu, nada. Simplesmente torcia, e só. Foi um jogo difícil, disputado, polêmico. Sei que uma hora Bebeto recebe a bola, passa por um, dribla o goleiro e gol! GOL! E ele faz aquela comemoração para o filho dele, que – dizem – foi inventada naquela hora. Nesse momento nasce mais um fanático. Nem precisaria do gol de falta de Branco pra isso acontecer. Bastaria o de Bebeto. Bem, fiquemos com o dois, devemos gratidão eterna a Branco…

No final do jogo eu me lembro de ter comentado com meu pai:

– Desse jeito o Brasil vai até ganhar a copa, né?
E ele, acostumado a ver o Brasil perder com seleções melhores que aquela, mas com medo de me dar esperanças incertas demais ou de tirar as que eu tinha (e que ele, como torcedor, também devia ter), respondeu:
– Pode até ser.

Esse texto foi publicado antes, no Confraria de Tolos, com o título Um Nascimento. Veja os lances do jogo entre Brasil e Holanda.

 

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