O Efeito Salenko (parte 1)

No final de 2011 comecei a escrever um romance juvenil sobre futebol que seria publicado seis meses antes da copa e me deixaria rico e famoso. Eu não havia planejado nem o meio nem o fim, e percebi que ele não funcionaria após escrever mais ou menos quarenta páginas. As notas ensaísticas dessa e das próximas postagens foram extraídas (e atualizadas) desse romance inacabado, que se chamaria O Efeito Salenko.

01
Na primeira Copa que vi, nos EUA, em 1994, só competiam 24 times. O Brasil estava no grupo B, junto com a Rússia, o Camarões, e a Suécia. Os artilheiros foram Stoichkov, da Bulgária, e Oleg Salenko, da Rússia com 6 gols cada. Salenko jogou vinte minutos contra o Brasil, mas não marcou. Na verdade, a Rússia sequer passou da primeira fase. Mas ele fez cinco gols contra o Camarões, na goleada de 6 a 1. Em um único jogo fez o mesmo número de gols que Romário na copa inteira. Romário, que entrou em suas sete partidas como titular, foi nosso artilheiro, e absolutamente decisivo. O que me leva a pensar numa verdade futebolística: o Efeito Salenko. As premissas e teoremas que nos ajudam a definir tal verdade ainda estão sendo desenvolvidas e pesquisadas. A primeira delas é bastante óbvia: mais vale obter sete vitórias magras que uma goleada, um artilheiro, e uma eliminação precoce.

02
Até hoje, não há qualquer rancor prolongado entre o Brasil e a Itália (apesar de serem rivais tradicionais), ao menos não como temos em relação à Argentina e à França. Cada um dos dois países teve seus momentos de glória na história do confronto, e o desejo de retaliação não é tão acentuado como poderia ser, caso só houvesse vitórias de um lado. Há ainda certo ressentimento por conta da copa de 1982, ressentimento que eu herdei. Mas ele nunca poderá ser sarado, mesmo que os batamos em dezenas de finais, pois o time de Telê era uma seleção especial, que as crianças das gerações posteriores foram ensinadas a apreciar sem terem visto jogar. A goleada na final de 1970, no entanto, compensa, mesmo sabendo que nas copas de 1938 e 1982 tínhamos um time melhor.

E em 1994, mais uma vez, o Efeito Salenko. A Itália nos enfrentava confiando em Roberto Baggio, que foi seu artilheiro e já tinha desbancado a Bulgária de Stoichkov, o outro artilheiro, sendo que este precisou de muito mais minutos em campo para igualar a marca de Salenko. Baggio enfrenta o Brasil, e tem o mesmo número de gols que Romário. Qualquer um dos dois tinha a possibilidade de ser o artilheiro (isolado, se fizesse mais de um gol) e herói da Copa. Nenhum marca, e nos penais, Baggio manda o dele para o espaço, junto com toda sua bela campanha. Baggio se iguala, neste momento, a Barbosa, o goleiro brasileiro que recebeu a culpa pelo maracanazo (nosso “Hiroshima psicológico”): de herói a pária com um único chute. Taffarel, que nesta final quase toma o maior frango de todas as copas, se consagra.

03
Na física, um objeto qualquer é chamado corpo. Um corpo é formado por partículas, que juntas completam uma unidade. Um corpo pode ser qualquer coisa, de qualquer tamanho, e outros corpos podem estar dentro de um corpo. Uma bola de futebol é um corpo. Uma bolinha de lama que se colou na bola de futebol é outro corpo. Uma formiguinha que estava na bolinha de lama também é outro corpo. Um corpo pode ser considerado grande ou pequeno, quando há uma comparação. Podemos comparar um corpo a outro corpo de mesma categoria, ou a outro de categoria diferente. O planeta Terra é grande em relação à formiga (que é de uma categoria diferente, pois enquanto o primeiro é um planeta, o segundo é um inseto), porém é minúsculo em relação a Júpiter (que é da mesma categoria, pois também é um planeta). Júpiter, em relação ao sol, é pequeno, e assim sucessivamente, em relação a corpos de outros sistemas. Quando um corpo é considerado grande, é chamado de corpo extenso; quando é considerado pequeno, de ponto material. Isto está intrinsecamente ligado ao Efeito Salenko.

O grande jogador de futebol segue uma hierarquia e uma cadeia que geralmente vai da partícula ao astro. Ele melhora aos poucos entre seus amigos, na escolinha, no colégio, no time juvenil, no time principal, até que ganha seu primeiro título. É um corpo extenso, em relação aos times que enfrentou. Um título estadual permite que no ano seguinte o time jogue contra os grandes – na Copa do Brasil, especialmente –, ainda que como ponto material. Se este jogador seguir o ritmo de ascensão que teve até então, poderá chamar a atenção do time grande e ser contratado por ele, se destacar lá, ir para outro maior ainda, etc. O céu é o limite. Há outras maneiras de ascensão futebolística, e este é apenas um exemplo educativo.

Mas recuemos. O ponto a que quero chegar ainda está na Copa do Brasil: mesmo havendo uma diferença quilométrica entre o corpo extenso e o ponto material, o time pequeno pode surpreender. Na linguagem popular, isto é chamado de “zebra”. Não é uma possibilidade tão remota. Brian Clough e Peter Taylor foram campeões da Europa comandando times pequenos. O Juventude, o Paulista e o Santo André foram campeões da Copa do Brasil. O São Caetano quase ganhou o brasileirão duas vezes, mesmo sendo um time de tradição menor que a de seus adversários. Aconteceu também em várias Copas do Mundo: o maracanazo, o milagre de Berna, a queda da Laranja Mecânica, o fracasso de 1982, e consideraremos, nas últimas edições, o avanço inesperado de Bulgária, Croácia, Coreia do Sul e Turquia. É diferente da mera zebra, pois uma coisa é ganhar uma partida de um time grande, outra é um campeonato, que requer sequências de vitórias sobre vários deles. Isto dá origem ao Princípio Schrödinger do Efeito Salenko: qualquer time de futebol, ao entrar no campo, é ao mesmo tempo grande e pequeno. É o que o Efeito Salenko tem a acrescentar aos princípios da massa e da estatura.

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Um pensamento sobre “O Efeito Salenko (parte 1)

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