O Efeito Salenko (parte 2)

Descubra o que é o Efeito Salenko.

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A copa da França, em 1998, foi a primeira com 32 equipes. As consequências do Efeito Salenko nos foram devastadoras. Para começar, o Brasil fez 14 gols, três a mais que em 1994, porém tomou dez, sete a mais que nos EUA. Além disso, o time perdeu duas partidas, sendo que a final foi uma derrota humilhante. O que leva a um segundo teorema: é melhor manter o saldo que marcar mais e tomar muito mais. Sempre é melhor ser campeão dando show, é a lógica básica, sabemos. Mas, teoricamente, um time retranqueiro que sabe bater pênaltis bem (e que tem a sorte de ver o craque adversário mandar a bola pro espaço) pode ser campeão do mundo se fazer um gol sequer no jogo normal.

É o Efeito Salenko. A França manteve um impressionante saldo positivo de treze gols. Mas esta é uma renda bem distribuída naquela seleção. Dos 14 gols do Brasil, um foi contra, da Escócia, e todos os outros treze foram marcados por apenas quatro jogadores. A França marcou 15 vezes, e todos bem divididos entre seus nove goleadores naquele ano. O inesquecível Zinedine Zidane só marcou dois na copa inteirinha, e os brasileiros, mesmo os que não viram aquela copa, já estão abusados de revê-los pela TV. O craque francês vai ser lembrado pelo resto de sua vida, por casa daqueles dois golzinhos de cabeça. Não duvido que se Ronaldo pudesse transferir gols como faz com seus dólares, tiraria os três que marcou contra o Chile e o Marrocos, onde vencemos com gols de sobra, e os depositaria na conta dos franceses. Creio até que ele daria sua Bola de Ouro para Zidane em troca da taça de campeão.

Alguns anos depois da lavada que tomamos para os donos da casa, com o luto passado, mas com a ferida ainda não cicatrizada, um jornalista brasileiro, com os olhos inchados de lágrimas, faz a pergunta definitiva: “você não tem coração, homem cruel, não sente remorsos por fazer chorar tantos milhões de brasileiros inocentes?” Zinedine Zidane, blasé, responde: “Mas vocês já pensaram em quantas pessoas sofreram, em quantas vocês fizeram chorar?” O torcedor brasileiro, acostumado a tantas vitórias, ainda não tem maturidade para notar que, sempre que comemoramos, o outro lado sai perdedor. Por isso, quando perdemos, entramos em luto, é catastrófico. Nunca conseguimos nos acostumar com perdas tão grandiosas. Vi o Brasil perder três vezes; a derrota de 1998 foi a única em que eu ainda não bebia.

Das dezenove copas disputadas até agora, o artilheiro foi do time campeão apenas em 1978, com o argentino Mario Kempes (que não seria nem artilheiro nem campeão sem os dois gols na polêmica goleada contra o Peru); em 1982, com o carrasco Paolo Rossi; em 2002, com Ronaldo Fenômeno; e  em 2010, com Villa. Apenas quatro, dentre dezenove, é um número significativo. Não que não seja importante ter o artilheiro, pois a essência do esporte é buscar fazer gols, sempre. Significa na verdade que um time com vários goleadores medianos em geral é mais eficiente que uma equipe com um único grande artilheiro. E mesmo assim, para ser campeão os gols precisam ficar espalhados em várias vitórias, como diz a primeira premissa do Efeito Salenko (vide quesito 01).

O exemplo do francês Just Fontaine é tão contundente que poderia batizar minha teoria, não fosse o fato de sua seleção ficar em terceiro lugar, bem melhor que o desclassificado Oleg Salenko. Fontaine é o artilheiro de copas com maior número de gols em uma só edição, treze no total, e por muito tempo recordista em número de gols marcados. Na copa de 1958, a França, sua seleção, desferiu ruidosas goleadas. Um 7 a 3 no Paraguai, em sua estreia, e um 4 a 0 contra a Irlanda do Norte, nas quartas, para enfim de tomar uma lapada de 5 a 2 contra o Brasil de Pelé e Garrincha. Ainda deu mais uma goleada, de 6 a 3, contra a Alemanha, na disputa do terceiro lugar. Quem se lembra? Alguém sabia disso? O que fica de 1958 são os golaços dos brasileiros.

Enquanto isso, Zinedine Zidane não precisaria fazer mais nada para ter seu nome gravado no esporte, com apenas dois gols. E eu me pergunto quem é mais famoso, o artilheiro Salenko, ou mesmo Stoichkov, que já foi considerado o melhor do mundo, ou Zidane, com suas cabeçadas?

Eis a questão: quantos gols de cabeça iguaizinhos àqueles não são feitos às pencas por aí? Eu mesmo já vi centenas, milhares de gols até mais bonitos que aqueles, transmitidos rapidamente na chuva de gols televisiva, sendo esquecidos para sempre, para dar lugar a alguns gols feios, porém decisivos, de campeonatos mais interessantes. Gols repetidos todos as semanas. O sentido do Efeito Salenko, aqui, é exatamente demonstrar que o lugar e a situação às vezes são mais importantes que os gols em si. Operações frias de matemática e de estatística não funcionam bem no contexto caliente do futebol.

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2 pensamentos sobre “O Efeito Salenko (parte 2)

  1. Pingback: O Efeito Salenko (Parte 3) | Paulo Raviere

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