Calhamaços e Mangangás

Um calhamaço digital é uma contradição. Os livros digitais, além de não sentirem em seu corpo o movimento dos calendários (descartando assim um significado da palavra), possuem todos a mesma espessura de um mini-conto. Como os DVDs, os livros digitais têm mesmo peso, que é aquele do aparelho, ainda que uns sejam maiores. Minha resistência, é claro, se dá por outros motivos – eu não leio livros digitais por que eles não me transmitem a urgência do livro físico, esse sim, constantemente me chamando, me lembrando da vergonha de ainda não tê-lo lido: “por que ainda não me escolheste, bárbaro capadócio?”. O livro físico está sempre me chamando a atenção para a sua existência, seja na mudança, no sono, ou quando estou procurando alguma coisa; o livro digital fica escondido numa pasta dentro do HD externo e pronto. A leitura é resultado da constância – estamos preparados para ler uma pagininha no ponto de ônibus, outra no banheiro, entre as aulas, um pouco antes de dormir. Ah, e o calhamaço ainda tem o benefício de ser grosso: podemos medir em centímetros o nosso avanço.

Isso tudo é pra dizer que muito relutei antes de iniciar meu Viva o Povo Brasileiro, esse cartapácio de quase 700 páginas, mas que não comecei agora só por causa da morte de João Ubaldo Ribeiro. Na verdade, estava com o livro na mão quando recebi a notícia. Ah, vá lá, isso é um exagero dramático para minha história fazer mais sentido. Na verdade o livro estava na minha bolsa quando soube. Mas te juro por Marcel Proust que ia começar essa semana, por razões completamente outras. Elas não vêm ao caso; o importante é que, como dizia, muito relutei em lê-lo.

midia-wap-escritor-joao-ubaldo-ribeiro-1274206187572_720x576Comprei o meu em 2006, editado pela Record/Altaya numa edição em papel-jornal da coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa mais leve que o Pinóquio de bolso da Cosac Naify. Ainda não tinha absoluta vontade de ler João Ubaldo. Adquiri o volume pura e simplesmente porque estava muito barato, coisa de uns 15 reais, e na época eu andava muito empolgado com uma matéria de Literatura Brasileira ministrada pelo poeta Ruy Espinheira Filho, amigo pessoal de João Ubaldo. Na faculdade e fora dela, todos diziam que era um livro muito importante e coisa e tal, mas apenas um ou outro tinha lido de verdade, do começo ao fim. O livro era obrigatório para o vestibular, e muita gente tinha assistido várias aulas sobre o danado. Eu passei no vestibular de LETRAS sem ter lido um livro sequer dentre os indicados, e posso dizer que a escola e as provas são um desserviço – não às editoras – à obra. Todo mundo compra os livros da lista por obrigação, e ninguém quer ler. E vou dizer: li alguns deles depois, simplesmente porque eu não era mais obrigado. São ótimos.

Viva o Povo, que comecei essa semana, é o melhor. Relutei exatamente por causa de toda a conversa mole de quem o conhecia sem ter lido, e por ser esse catatau que exige muito tempo e preparo. O livro é muito divertido! Há um humor escancarado ali que me lembra os romances históricos de Saramago (lembrando que Viva o Povo e Memorial do Convento são do mesmo ano), mas sua linguagem intensa e colorida, ora barroca ora coloquial, o coloca ali ao lado de Os Sertões e Grande Sertão: Veredas, entre nossas obras mais poderosas. Sargento Getúlio já havia sido uma grande experiência sensorial. Viva o Povo (até agora, pois ainda não cheguei nem na metade), me parece ser o nosso Guerra e Paz ou nosso Quixote, se é que precisamos de exemplos estrangeiros para conseguir delinear suas dimensões (imagine um Guerra e Paz ibérico, saliente e anti-heroico).

Então hoje, no mês das tragédias, previsivelmente, morre Suassuna. Já li umas peças dele, também bastante ibéricas. Suassuna  é Cervantes puro, e ressoa de cabo a rabo aquele sabor malandro de Tirso de Molina, Calderon de la Barca, Molière e Carlo Goldoni. Quem lê esses caras reconhece algo do interior nordestino ali. A semelhança é historicamente real, tudo bem; mas me fica a sensação que parte de nosso iberismo foi pintado por Suassuna, e bem sabemos que as letras reconstroem a memória coletiva.

noticia_977827_img1_suassunaSuassuna e João Ubaldo têm muito em comum – redesenharam o Nordeste; falavam alto, com suas vozes de mangangá; concorreram ao Nobel e perderam (o Nobel que os merecia e não o contrário); eram eles próprios os maiores personagens literários do país. Nas fotos, eram diferentes – João Ubaldo, fornido, galhofeiro, mantinha o eterno sorriso do baiano do litoral; Suassuna é o sertanejo convicto, taciturno, às vezes discretamente irônico; (Jorge Amado e João Cabral); não quero comparar mais.

No ano de 2008, ambos disputaram o maior prêmio internacional para escritores de língua portuguesa, o Camões. Alternam-se os continentes lusófonos com frequência, para o recebimento do prêmio. Meu professor Ruy Espinheira foi o presidente da comissão de julgamento naquele ano, e nos contou como foi acirrada a escolha do vencedor. Fizeram não uma, mas várias reuniões internacionais, com membros dos três continentes, e a votação sempre empatava. O prazo de definição se esgotava e João Ubaldo Ribeiro enfim foi galardoado, por conta de Viva o Povo Brasileiro, devido exatamente a essa vívida representação que ele faz dos povos da América do Sul, da África e da Europa. O livro que durante todos esses anos esteve ali à minha espreita. Ao escutar essa história, me marcou exatamente uma fala de Ruy, espécie de consolo por não poder entregar o prêmio aos dois: “Essa dificuldade em escolher foi, de certa forma, uma espécie de reconhecimento a ambos, e no futuro Suassuna certamente haverá de receber o seu”. Suassuna não chegou a ganhar. Na verdade nem precisava.

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O narrador adiantado

A narração esportiva é indispensável, e te explico por que. Teve uma época que eu acompanhava com afinco o Brasileirão, certamente com mais disposição e interesse que hoje em dia, e como não tinha TV fechada, sempre via os jogos naquele aglomerado de bares que liga a Avenida Sete à Rua Direita da Piedade, às vezes de pé, porque poderia escolher qual partida assistir.

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O problema é que na transmissão do bar ao lado o gol sempre acontecia alguns segundos antes. O sinal da TV tinha um delay perpétuo. Alguns do outro bar até aproveitavam para nos engambelar, gritando gol aleatoriamente. O baiano é muito malandro. Se porventura eu trocasse de bar na semana seguinte, como numa brincadeira de Amélie Poulain, o delay se reverteria; ou seja, o bar da semana anterior agora se adiantaria e a informação atrasada continuaria comigo. O delay me acompanhava como aquela pequena nuvem de chuva que persegue os azarados nos cartuns. Mas era ele ou nada. Se ficasse em casa seria forçado a ver um jogo qualquer do Flamengo, sem ninguém pra me servir uma cervejinha. Assim me submetia ao intransigente delay. No futebol, esse teatro de fel e húbris, não há maior anticlímax que saber de antemão que aquela bola sem futuro no meio do campo vai se transformar numa jogada de gol (ou o contrário).

Por fim, uma tarde fui ao estádio de “Pituacives” ver um empate sem graça entre Bahia e Santos. Um sujeito ouvia aquela partida morna com um radinho de pilha. Ao contrário do jogo, a narração era veloz e entusiasmante: uma grande mentira. A bola flutuava a uns 50 metros do gol, e na narração ela passara raspando na trave. Um cruzamento torto era um lance perigoso e um chute fraco, uma chance forte. O jogo parava com um jogador caído no meio do campo, mas a narração continuava, furiosa, vibrante. Era uma grande partida, aquela do rádio. Não fosse a constante eminência da malandragem do torcedor baiano, eu fecharia os olhos e ficaria só com ela, de tão boa que estava.

Até que o jogo entra nos acréscimos e morre de vez. Os jogadores passam a trocar passes sem futuro. Os do Santos, satisfeitos com o empate fora de casa; os do Bahia, por não terem perdido. Mas na narração o jogo já havia acabado. “Fim de partida!”, gritava o narrador. Eu olhava para aqueles jogadores caminhando lentamente em campo, dois times de vacas pastando, a bola para lá e para cá, a torcida desanimada, e escutava o narrador falando já de outra coisa. O próprio jogo estava atrasado em relação à narração. Foi assim que desisti de fugir do delay…

Escrito originalmente como comentário a esse texto de Milton Ribeiro.