O Efeito Salenko (parte 4)

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Num esporte de bola jogado com os pés, ou seja, com a falta de minúcia, o goleiro é uma espécie de pária, rindo das leis na frente de todos; um usurpador. A Santa Ceia não foi pintada com pés, nem assim foi escrito Hamlet. Chopin não tocava nada com seus membros inferiores. A civilização é a exaltação das mãos, e o futebol a desforra dos pés. Assim, pois, o uso das mãos está renegado ao desprezo público.

O goleiro é o Sísifo dos campos. Mal se levanta de um glorioso salto de três metros e lá vem mais um petardo em sua direção. A cada lance lhe espreita a vergonha que esconderá os feitos de uma vida. Nem mesmo o gol contra é tão criticado quanto um frango. O frango é comédia pastelão; como o escorregão, a pisada na bola, a furada, a bolada no pescoço, é a materialização do patético. O gol contra é uma vicissitude factível a quem trabalha duro. O zagueiro, em vez dos apelidos e dos dedos apontados, recebe consolo. Os goleiros, a cruz.

Uma defesa é um gol perdido, o acréscimo de zero, antes demérito dos artilheiros que habilidade dos goleiros: “Como ele perdeu esse gol?” antes de “como ele pegou essa bola?”. O Efeito Salenko, que trata especialmente das relações entre os gols que ficam e os que se esvaem na mente, mantém os mesmos princípios no que se refere aos goleiros. O título fará o frango ser esquecido, uma falha na saída de bola não é nada demais se você pegar um pênalti depois, e as maiores defesas de todos os tempos estão em jogos de copas, simplesmente porque eles são mais importantes.

Uma grande defesa vale como um gol, pois não tomá-los é também uma vantagem. Entretanto, ela nunca é marcada nas súmulas dos árbitros. Refiro-me, é evidente, às defesaças, sensacionais, àquelas em lances tão infalíveis que não seria obrigação do goleiro defender – as defesas inacreditáveis que só entendemos no terceiro replay. Preferimos o jogo sem lances de nossos goleiros.

Um gol não deixa de ser bonito quando o vídeo é ruim; a defesa precisa do ângulo certo. O gol mais bonito de Pelé não foi filmado, e os vídeos da década de 50 são péssimos. Uma imagem não vale mais do que mil gols, daí ser esdrúxula a comparação com Maradona. Por falta de filmagens, o melhor goleiro de todos os tempos, František Plánička, o tcheco de 1,72 metros que segurou o Brasil com um braço quebrado e perdeu uma copa para Mussolini, é um anônimo internacional.

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O Efeito Salenko também exerce influência em outros esportes e jogos, especialmente aqueles que podem ser decididos com um único movimento. Nunca no atletismo, no levantamento de peso ou na natação, que do início ao fim da disputa (alguns segundos), dependem da atividade total e constante; e quase nunca no basquete ou do vôlei, em que o resultado é a soma de minúsculas frações: os pontos disputados numa partida podem chegar às centenas, e de fato ganha quem joga melhor. No tênis, talvez, pois o resultado depende do giro da bola em conjunção com o estado físico e psicológico de um jogador solitário, e às vezes até do piso da quadra.

Numa luta, sua presença é indiscutível. Um boxeador pode levar uma sova por rounds seguidos, e ainda assim, tonto, cambaleando, babando, com o sangue escorrendo pela cara, sem enxergar direito, sem se firmar no chão, poderá desferir o gancho fulminante que nocauteará seu adversário. No xadrez, perdemos as torres, os bispos, os cavalos, grande parte de todas as peças, e a possibilidade do xeque-mate ainda paira sobre o rei adversário, que está encurralado diante da rainha e do único peão sobrevivente. No dominó, seguramos uma bucha morta com a possibilidade da vitória; bucha de branco. No Texas hold’em, o dois e o sete do pato que entrou na mesa sem saber jogar podem virar um full house e bater o par de ases que o bom jogador escondia. No palitinho, quando seu único adversário inocentemente pede lona e você não tem nada na mão.

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