O Efeito Salenko (final)

O que é o Efeito Salenko?

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O Brasil fez uma campanha medíocre nas eliminatórias da Copa de 2002. Na época, também perdeu para nulidades como Honduras e Austrália, além de entregar a Olimpíada de Sydney para Camarões, que tinha dois jogadores a menos. Nossa maior esperança, vergonha das vergonhas, era apenas conseguir participar. Os favoritos eram França, Argentina, Itália, Espanha e Portugal. Ninguém foi muito longe. Ironicamente, vencemos.

A Alemanha, também desacreditada, avançou na segunda fase com três vitórias por 1 a 0. Terminou com números parecidos com os do Brasil nas copas anteriores: os 14 gols marcados em 1998 e os três que sofremos em 1994. Seria uma campanha vencedora? Dos três gols sofridos, dois foram na final; dos marcados, nenhum.

Não cabe mais adentrar nas minúcias do Efeito Salenko para tais ocasiões. Não se trata de uma teoria prescritiva, que tem a intenção de diagnosticar e remediar, mas sim de uma explicação descritiva. Expomos estas ideias com a intenção única de refletir sobre ocorrências no esporte, de modo a acrescentar algo na sua compreensão, visualização e no fantástico ato de torcer.

Em 2002, foi possível perceber outros fenômenos além de Ronaldo. Um deles é que a insatisfação dos times grandes é amenizada quando outro grande dá vexame. “A França voou cedo da copa”, diria Henry, “mas pelo menos Argentina e Portugal também”. O desgraçado ama companhia. Pior mesmo é se a queda provém de Davi. Enfrentar o mais fraco é semear a perspectiva do prejuízo – vencer com pompas traz no máximo o senso de dever cumprido; perder, pior ainda, é a glória dos feiticeiros e dos pessimistas.

O mesmo não se pode falar dos pequenos, pois deles espera-se, eternamente, a derrota. Sua queda não chama a atenção; quando muito, desperta piedade. Sua vitória, ainda que desprovida de qualquer interesse, é sempre notável. Pra quem sempre perde, qualquer avanço fica na história. Coreia do Sul e Turquia, repetindo os feitos anteriores de Bulgária e Croácia, alcançaram as semifinais.

Os EUA, seleção sem tradição no futebol, também se classificaram para a segunda fase; saíram mais cedo, motivo pelo qual provavelmente nada viram de interessante naquela disputa pelo terceiro lugar. E aqui está a premissa: a vergonha alheia diminui a nossa própria, mas o orgulho dos outros pertence somente a eles.

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O futebol não é exatamente uma caixinha de surpresas, mas um quebra-cabeça que vai sendo montado aos poucos, em que no final, ao nos depararmos com a bela imagem, nos lembramos de certas pecinhas especiais que estivemos procurando por muito tempo, que quando vistas de fora, são apenas mais uma, semelhante a muitas, mas que têm bastante valor no contexto da montagem, pois nos esquecemos da maioria das outras peças. Esta é a essência do Efeito Salenko.

Aqui suspendo a crônica de minhas saudades. Poderia ainda adentrar com detalhes nas copas seguintes, porém a cada quatro anos este ensaio ficaria carente de atualizações. O futebol nunca para. A copa de 2014 já começa a deixar uma sensação agridoce, não de nostalgia ou saudades, mas de algo maior. Esperamos dedicadamente por ela, durante sete anos, e com todos seus atrasos, bagunça, erros de orçamento, roubos e tudo mais, ela sai melhor que a expectativa. Por um mês, somos o centro do mundo; por um mês, somos Nova York, Argel, Paris, Camberra, Londres, Buenos Aires. Estamos sempre falando de futebol; é uma das grandes copas de todos os tempos, talvez a copa das copas! A sensação que fica não é de nostalgia, mas de que história parece ter chegado ao fim.

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