O narrador adiantado

A narração esportiva é indispensável, e te explico por que. Teve uma época que eu acompanhava com afinco o Brasileirão, certamente com mais disposição e interesse que hoje em dia, e como não tinha TV fechada, sempre via os jogos naquele aglomerado de bares que liga a Avenida Sete à Rua Direita da Piedade, às vezes de pé, porque poderia escolher qual partida assistir.

locutor

O problema é que na transmissão do bar ao lado o gol sempre acontecia alguns segundos antes. O sinal da TV tinha um delay perpétuo. Alguns do outro bar até aproveitavam para nos engambelar, gritando gol aleatoriamente. O baiano é muito malandro. Se porventura eu trocasse de bar na semana seguinte, como numa brincadeira de Amélie Poulain, o delay se reverteria; ou seja, o bar da semana anterior agora se adiantaria e a informação atrasada continuaria comigo. O delay me acompanhava como aquela pequena nuvem de chuva que persegue os azarados nos cartuns. Mas era ele ou nada. Se ficasse em casa seria forçado a ver um jogo qualquer do Flamengo, sem ninguém pra me servir uma cervejinha. Assim me submetia ao intransigente delay. No futebol, esse teatro de fel e húbris, não há maior anticlímax que saber de antemão que aquela bola sem futuro no meio do campo vai se transformar numa jogada de gol (ou o contrário).

Por fim, uma tarde fui ao estádio de “Pituacives” ver um empate sem graça entre Bahia e Santos. Um sujeito ouvia aquela partida morna com um radinho de pilha. Ao contrário do jogo, a narração era veloz e entusiasmante: uma grande mentira. A bola flutuava a uns 50 metros do gol, e na narração ela passara raspando na trave. Um cruzamento torto era um lance perigoso e um chute fraco, uma chance forte. O jogo parava com um jogador caído no meio do campo, mas a narração continuava, furiosa, vibrante. Era uma grande partida, aquela do rádio. Não fosse a constante eminência da malandragem do torcedor baiano, eu fecharia os olhos e ficaria só com ela, de tão boa que estava.

Até que o jogo entra nos acréscimos e morre de vez. Os jogadores passam a trocar passes sem futuro. Os do Santos, satisfeitos com o empate fora de casa; os do Bahia, por não terem perdido. Mas na narração o jogo já havia acabado. “Fim de partida!”, gritava o narrador. Eu olhava para aqueles jogadores caminhando lentamente em campo, dois times de vacas pastando, a bola para lá e para cá, a torcida desanimada, e escutava o narrador falando já de outra coisa. O próprio jogo estava atrasado em relação à narração. Foi assim que desisti de fugir do delay…

Escrito originalmente como comentário a esse texto de Milton Ribeiro. 

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