Os Polos Horizontais

Por ficar de cá, do alto de minha torre de marfim (um lugar em que as coisas pesam e é real o barulho de um choque entre corpos), quase sempre observando sem participar, não me sinto confortável em fazer julgamentos definitivos sobre o mundo virtual. Nos últimos meses venho usando a internet com muita cautela; você pode dizer que por covardia, eu que por falta de interesse: tenho posições claras e definidas sobre meu voto, e não as exponho aqui porque não te interessa e não tenho saco para os comentários histéricos que viriam de quem não vota como eu. Basta estar do lado diferente do seu, não importa qual seja ele. Não quero convencer nem ser convencido – por sinal, o elo em comum entre os mais histriônicos dos galos de rinha conectados, sejam vermelhos ou azuis: ninguém quer ser convencido.

A ideia é que o texto sirva para os dois lados. Se você me conhece de verdade terá total certeza sobre minhas posições; se não, tem 50% de chances de acertar, uma vez que não votarei em branco ou nulo, nem deixarei de votar. Pessoalmente, e mesmo virtualmente, numa conversa privada (um terreno vazio em que uma ofensa direta e gratuita é inibida [mas não improvável], pois só pode ser dirigida a você e não a este ente amorfo, ao mesmo tempo Todos e Ninguém: um grupo), não tenho nada a esconder, apesar de nem sempre estar disposto ao debate (não tentar convencer nem permitir ser convencido). Bem, esse texto é mais sobre os comentaristas das redes sociais que sobre as famigeradas Eleições 2014.

Em 2012 tivemos uma prévia do que viria, porém nada foi tão selvagem e brutal quanto esse ano, uma conversa de interesse abrangente sobre pessoas específicas, a mesma discussão para o país inteiro. E de lá pra cá tive a “oportunidade” de ganhar um smartphone, arrumar um facebook que me acompanha para cima e para baixo, entrar nuns grupos de zapzap até populosos, e ser bombardeado com imagens, vídeos e diálogos indesejados. Meu celular é a Palestina do lixo virtual: fotos de tragédias recentes, assassinatos, musiquinhas, hard porn, gente tosca falando besteira ou brigando na rua, mendigos/bêbados/animais dançando, propagandas, montagens bobas, piadinhas fuleiras, o cotidiano banal de quem pretende se exibir, opiniões, opiniões, opiniões, mais piadinhas. A nova doença mundial.

xkcd

Ah, e o ódio ou desprezo contra quem pensa de modo diferente. Eu frequento a internet há tempo o bastante para saber que só dá pra conversar com um desconhecido se você concorda com ele. Discordar é ser sempre um idiota ou um nazista do pescoço duro. Fizeram até uma piada dizendo que toda discussão online acabará com uma comparação com Hitler (a Lei de Godwin). Argumentum ad Hitlerum ou Reductio ad Nazium. E a verdade é que grande parte da população mundial, entre eles esses alemães do passado, é sempre muito cheia de certezas. Falo isso com base nos debates alheios. Foi-se o tempo em que eu respondia com fúria apaixonada os enganos e as bobagens que me enviavam pela rede – um idiota rosnando para uma tela brilhante. Hoje só dou uma olhadinha nas caixas de comentários mundo afora; vejo a mesma conversa de sempre.

Bem, a internet móvel ao menos acabou com as discussões de bar sobre dados checáveis. A capital da Austrália é Sidney ou Adelaide? – É Camberra. Em que ano Ronaldinho Gaúcho fez aquele golaço contra a Venezuela? – 1999 (discussões reais que duraram horas). Antes, como um pedaço de carne fria que a gente mastiga mastiga e não engole, a indaga durava uma noite inteira, sem chegar a lugar nenhum. Agora brigamos por causa de opiniões, que, no mundo virtual, geralmente são divididas em dicotomias – certo/errado, a favor/contra, sim/não.

Faço uma breve lista de opiniões pessoais:

1) verde ou amarelo (verde)

2) chiclete ou chocolate (chocolate)

3) Madrid ou Barcelona (BCN)

4) Tolstoi ou Dostoiévski (Tolstoi, apesar de Dostô ser maior desbravador da alma humana).

Pensei numas mil aqui; o mero ato de gostar já implica, de certa forma, numa competição. Minhas escolhas estão corretas, pois sou eu que estou afirmando sobre meus gostos, mas a lista em si está errada. Veja, nem gosto de chiclete ou de amarelo, passei muito pouco tempo em Madrid e li poucos livros de Dostoiévski. E a lista nem está errada por isso, mas porque quase sempre, nesse tipo de escolhas, há mais que duas opções: 1) roxo 2) sorvete 3) Tarragona 4) Tchekhov – posso escolher entre dúzias de opções em cada uma dessas categorias.

As dualidades, no entanto, não são sempre assim divertidas. Afirmar suas opiniões publicamente pode não ser tão simples. Escolha: Religião ou ateísmo? Buda ou Maomé? Maconha ou cerveja? Bahêa ou Vitória? Com homens ou com mulheres? Não precisam responder; mas percebem o que ficou de fora? Tenho certeza que para alguma dessas perguntas você escolheria uma opção que não estava entre as duas. A personalidade é um gigantesco caldeirão de sopa de letrinhas cheio de respostas desse tipo. Muita gente, entretanto, não consegue aceitar que uns gostam de cristo, maconha, Tolstoi e amarelo ao mesmo tempo. Outros não conseguem aceitar que aquele paquiderme torça pro mesmo time que você ou que um usuário de drogas possa ter religião. Inúmeras são as variações, nenhuma aceitável pra quem está do outro lado da tela. O que fazer então? “Oxe, brigar na internet, é claro”. Daí surgem os haters, trolls, e todas essas classificações curiosas, como vimos na última edição da Superinteressante.

dilmecio

E o que isso tem a ver com as Eleições 2014? Primeiramente, é preciso esclarecer que temos cá polos extremos, dois polos horizontais, pois ao contrário dos polos do planeta Terra, nossa linha faz par com a do Equador: de um lado a extrema esquerda, do outro a extrema direita. Não falo aqui dos nulos e dos moderados, essa galera que não comenta na internet; meu comentário é dirigido aos extremos. Se ainda não ficou claro, deixa eu falar mais uma vez: meu texto aqui é sobre gente que publica na internet, não necessariamente sobre eleitores ou políticos, mesmo porque muita gente publica, mas não vota e vice-versa – e além do mais já tenho minha escolha; não estou aqui pra falar bem de ninguém.

Então, podemos perceber que há dois espelhos ali, no meio exato da linha horizontal, ou então um está arremedando o outro, porque agem do mesmo jeito. Ambos acusam o ódio do lado oposto, um alardeia a corrupção do outro, ambos respondem com a falibilidade das fontes da informação, a desconfiança das pesquisas só acontece quando o favorecido está do outro lado, fazem escárnio do eleitor diverso, e denunciam a falta de patriotismo, compaixão e inteligência de quem não consegue votar como ele. O polo direito tem a Veja, o polo esquerdo a Carta Capital; o direito Olavo, o esquerdo Boff; o esquerdo Chico, o direito Lobão; Jean Willys de um lado, Malafaia do outro; Rodrigo Constantino fala bobagem sobre a logomarca da Copa, Paulo Nogueira não lê o livro que critica com ferocidade; a esquerda contra o final do milênio velho, a direita contra o começo do milênio novo.

Quem recebe esta enxurrada de veneno não aguenta mais, não vê a hora de acabar, porém não faz nada para evitá-lo – pior ainda é não saber do que andam falando pelas ruas; a velha doença da informação… Mas por que, em tempos do irreparável discurso do politicamente correto – época na qual uma breve pressão no print screen pode gerar processo judicial – é tão aceitável ofender e esculachar grupos inteiros?

sieber

Oras, porque os grupos dos eleitores, como eu disse acima, são entes amorfos. Ou seja, comportam ali todas as formas e expressões. Diferentemente das divergências raciais, étnicas, religiosas, sexuais, financeiras e tudo mais que possa causar uma guerra de comentários, diferenças per se exclusivas e excludentes, os grupos de eleitores querem sempre mais gente. A guerra une. Uma eleição se vence pela maioria, e o voto do pobre tem o mesmo peso que o do rico, o do católico e o do evangélico, o do negro e o do nipônico. A união faz a força contra os energúmenos que votam na outra cor – inimigos se juntam contra o mal comum.

Um grupo de eleitores se assemelha, assim, a um grupo de torcedores de futebol. Não há requisitos para se torcer por um time – escolhemos aquele que nos agrada, que acreditamos ser o melhor, que nos acostumamos. O motivo é sempre particular, sempre. Mas quem acompanha futebol sabe que os times estão constantemente oscilando, ano sim, ano não, entre a vitória e a derrota, a falha e a conquista. Ninguém é o melhor por muito tempo seguido. Mesmo assim, os torcedores haverão de sempre defender seus clubes com garras e dentes, torcer até morrer.

Nas redes sociais a rinha insuportável entre os eleitores está no mesmo patamar que a conversa mole dos torcedores fanáticos. Por isso esse ano a disputa está tão ferrenha e exagerada. Tanta gente “falando” de política, pela primeira vez em muito tempo. Por isso tanta acidez e virulência. É a linguagem corrente da internet. O ódio, o desrespeito, o escárnio e a proteção do anonimato: é assim que se expressa uma opinião sincera! Nas redes sociais é mais fácil brigar. Lá você existe de acordo com suas projeções, mostra apenas o que deseja mostrar, e está fisicamente protegido contra possíveis rompantes de fúria. Há um trato oculto entre os dois lados: “eu não admito minhas falhas, nem as falhas em minhas escolhas, ideias e ideologias, nem você admite as suas, então tentamos um convencer ao outro com a caixa alta e a linguagem mais detestável possível. Não nos conhecemos, não vamos trocar porrada na vida real nem sofrer consequências para além do estresse e da perda de tempo, portanto relaxemos”. Então começa a batalha. A briga como um fim em si, a arte pela arte.

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2 pensamentos sobre “Os Polos Horizontais

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