A apoteose de minha carreira acadêmica – como descobri ter sido plagiado

Elogio de amigo ou de parente – e (num mundo ideal eu nem precisaria mencionar, mas vivemos na época do selfie) ainda o elogio de si mesmo – é sempre muito suspeito. Claro, é melhor um elogio de amigo ou parente que a indiferença completa; mas o que me faz ganhar o dia mesmo é qualquer meio twitter de um completo desconhecido. Mas que nada! Esses dias um estranho só fez compartilhar um texto daqui e eu já estava pra abrir uma de minhas cervejas importadas. Não sou assim muito popular.

Com exceção dos meus amigos sarcásticos que fazem questão de me sacanear, para descontar da época em que eu editava com mão de ferro o Confraria de Tolos, o conhecido eventualmente vai topar comigo e vai se lembrar que ainda não leu aquele texto sobre os perebas da bola. “Vixe, esse mala vai acabar me perguntando sobre ele”, pensa, prevendo um desconforto semelhante àquele de não reconhecer uma pessoa que fala com a gente na rua. Então o cara, enquanto atualiza as “histórias” no Facebook, dá uma escaneada no texto e ensaia um comentário interessante e agradável, só pra ter o que dizer. Eu sei disso porque também o faço com frequência, não necessariamente com blogs.

Mas o desconhecido não me deve nada. Sou completamente indiferente a ele. O mero contato virtual é um acaso, entre milhões de possibilidades, e não sei quem visita o blog (tenho apenas os números), logo não mantenho expectativa alguma dos meus visitantes. Se ele se dedicou a me escrever um breve comentário elogioso, foi por um impulso livre e genuíno – fez porque quis. Por isso fico radiante quando alguém que não conheço me manda uma mensagem demonstrando interesse, ou me pedindo algum texto, e faltei explodir de alegria quando Shiko compartilhou meu artiguinho sobre ele. Mas esses dias conseguiram se superar na inflação de minha vaidade.

Fui plagiado.

Em 2012, publiquei um conto numa revista impressa de grande circulação nacional, e vi que não tinha um lugar organizado para o caso de alguém resolver procurar algo mais. Assim, quando abri o blog, uma das minhas ideias era utilizar o espaço para juntar tudo o que eu tenho publicado por aí. Uma espécie de portfolio, bem mais fácil de manejar que um caótico perfil do Facebook. De lá pra cá, publiquei outros contos, uns artigos jornalísticos perdidos, umas traduções (por conta própria) e um artigo acadêmico sobre o ensaísmo, escrito também em 2012. Esse último foi o texto plagiado.

Estou esperando respostas de um monte de coisas, então em vez de sair procurando em cada site, simplesmente boto meu nome no Google e procuro pelos resultados mais recentes. Hoje, sabe-se lá porque, fui mais além, relembrando o passado, ora me divertindo ora sentindo alguma vergonha, e achei uma menção num artigo publicado em 2013 numa revista de Londrina sobre Rubem Braga. Foi uma glória! Estava sendo citado. A citação é uma grande declaração de respeito e admiração. Fui conferir.

Havia um maldito apud. Meu nome, na verdade, era mencionado apenas como o cara que citou EPSTEIN et al, e meu orientador está lá como co-autor do trabalho, apesar de não ser. Bem, a simpática e respeitável senhora (vi no face) havia lido meu texto, sem dúvida. Então percebi certo paralelismo improvável entre nossas bibliografias. E quem já pesquisou sabe o labirinto que é sair vasculhando os livros que os outros citam. Eu achei o artigo de Sanseverino na internet, e de lá fui atrás de Auerbach e de Adorno, e deste descobri Bense e Lukács, depois li Fadiman (que também escreveu o melhor texto sobre plágio que já li), e de lá fui atrás de Epstein et al (estes dois últimos inéditos em português), depois li Ozick, e de lá li… Li um montão de coisa, antes de escrever o artigo – muita coisa que nem me serviu ali, e nem menciono tudo. Ela cita todos eles; não é impossível seguir o mesmo caminho, mas é possível coincidentemente usar exatamente as mesmas citações – as mesmas frases das mesmíssimas páginas, tudo costurado praticamente na mesma ordem?

O que ela fez, na verdade, foi copiar parte de minha bibliografia e citar separadamente como se ela mesma tivesse lido todos aqueles textos. Ela leu apenas meu artigo. De primeira fiquei com raiva porque, pô, ler tudo aquilo foi na verdade um prazer, o que eu faço de graça todo dia, e continuo a fazer ainda hoje, mesmo depois do artigo, da dissertação, do mestrado – mas citar foi um saco. A professora Nancy vai te confirmar que eu sempre tive problemas com a ABNT. Detesto as cambiantes formalidades no modo de se fazer referências. Ir atrás, ler, organizar, escrever, tudo isso é uma beleza, mas fazer as referências… “Apud”, “et alia”, “in:”, “São Paulo, Mestre Jou, 1982”, “MONTAIGNE, Michel de”, “acesso em” – citar é pior que a morte, e a dona lá não teve que fazer nada disso.

Mas melhora. Depois descobri que ela simplesmente parafraseou alguns parágrafos de meu texto. Pouca coisa – mal passa de uma página do artigo dela (que não cito diretamente para não dar ibope – a verdade é que só li a parte que me toca). Vi isso em uns poucos trabalhos quando dei umas aulas na UNEB de Seabra, e não perdoei: deixei bem claro que lia os textos minuciosamente, e que aquilo me parecia mais uma maneira ofensiva de se desacreditar na minha dedicação – a maioria copiava tudo da internet, com leves alterações, mas um dos textos era uma paráfrase descarada de outro bastante pessoal recebido antes, como se pensassem: “esse professor jamais vai ler esse monte de coisa”. Não só li como ainda me lembro dos melhores.

Pois bem, em meu artigo discorro livremente sobre as definições de ensaio, e a jovem senhora pega isso tudo e faz um contraponto com a crônica, assunto de seu artigo. O próprio contraponto se inicia com uma paráfrase de meu texto. Não há problema algum em fazer algo assim, numa pesquisa. O problema é ela fazer isso como se fosse obra e pesquisa sua, e citar meu nome apenas como “aquele cara que mencionou EPSTEIN et al”. De primeira me senti um pouco irritado. “Que esta senhora pague com dinheiro e humilhação! Vou processar! Vou lhe mandar um e-mail dizendo umas verdades! Vou mandar e-mail pra revista!”

Mas depois me toquei que jamais tive certeza que meu artigo troncho houvesse sido lido por alguém. Não tenho controle das estatísticas da revista. Publiquei de graça, e provavelmente também aquela senhora de Londrina – e demorei mais de ano até descobrir meu nome lá. Terá alguém lido o texto dela? Alguém lê de verdade essas revistas? Certamente a coitada não recebeu nenhuma remuneração por ele. Revendo o caso, penso sequer se tratar de malícia por parte dela. Se fosse, bastaria não mencionar meu nome, e ninguém nunca saberia de nada. Não sou assim tão popular, e seria uma coincidência inimaginável que alguém associasse o texto dela ao meu, se ele não estivesse nas referências. E assim o ego devora a ira. O que ela me fez, na verdade, foi a maior das homenagens que já recebi. O maior dos elogios para a maior das vaidades. Pense bem, não é esse pequeno plágio o ápice de minha carreira acadêmica?

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