A decadência da Estante Virtual

Pra variar, a incompetência e a malandragem continuam a estragar serviços, direitos ou atividades simples de nosso dia a dia. Não quero nem falar de mamatas e prefeitos corruptos, mas do cidadão comum, de gente que grava vídeos ensinando como roubar refrigerante no Burger King e continuarão a fazer isso até que eliminem por completo o refil. Descobri esta semana, por exemplo, que os planos de saúde também cobriam o custo dos remédios, até que isso se tornou insustentável por causa de pessoas que estavam vendendo notas fiscais falsas – e assim, mais uma vez, a vantagem ilícita de uma minoria desonesta corta o direito de todo um grupo.

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Também a Estante Virtual foi invadida por essa laia. Para quem não sabe, a EV é um portal virtual de sebos – lojas de livros usados. Lá você pode comprar livros de praticamente todo o Brasil, muitas vezes novinhos, a preços impossíveis de se encontrar nos melhores saldões. Eu já indiquei esse site para muitas pessoas, e por muito tempo me referi a ele como “a salvação”. Minha cambiante lista de livros desejados é sempre maior que a dos possuídos e quando comecei a comprar por lá, em 2008, após indicação de Dona Lachance, eu era um rato de lojas físicas, bastante desconfiado daquele sistema de compras. Depois de uns meses, jamais comprava um livro num sebo físico sem antes conferir na EV. Até hoje, quase todos os vendedores que escolhi são muito gentis – já ganhei vários livros de brinde, e uma vez me mandaram uma pedra branca acompanhada de uma crônica à Rubem Braga –; e até este mês de maio, nunca fiquei sem receber um livro (ainda espero os que comprei no final de abril).

No começo, eu tinha que fazer o pedido, depositar o valor no banco, escanear o comprovante (ou digitar as informações) e mandar um e-mail. Hoje eu simplesmente imprimo um boleto e pago pelo celular, na hora. A tendência é que eu me torne um hikikomori. Mas então, agora que está mais fácil, venho tendo problemas.

Sem estoque

Vamos começar com a incompetência. Há dois meses pedi Maus Bocados, de Anthony Bourdain, e fiz o pagamento na mesma noite. Era final de semana. O pagamento do boleto só foi confirmado na terça; na quinta o livreiro me alertou que o livro não estava mais disponível; na semana seguinte o valor foi estornado e tive que fazer o pedido novamente, por outro livreiro, e esperar outros dez dias para finalmente lê-lo.

Não sei se vale para todos, mas eu tenho um ânimo para cada leitura. Muitas vezes me desespero para ler algo desconhecido como se minha vida dependesse disso, como quando comprei A Lebre dos Olhos de Âmbar após ler um artigo de Daniel Piza; em outras, esse desejo ardente se desvanece após alguns dias – me distraio, encontro outras coisas, percebo que aquela obra não me interessa tanto. Sempre espero um pouco antes de comprar o livro do momento da Companhia das Letras (2666, Liberdade, Barba Ensopada de Sangue, O Pintassilgo, Graça Infinita), pra ver se ainda vou querer ou se encontro mais barato. Agora, entre meu pagamento e o estorno, esperei uns dez dias. Eu podia ter perdido a vontade. O vendedor não podia simplesmente ter conferido lá e reservado o livro? Ou melhor, não podia simplesmente dar baixa nos livros que vende, para não pedirmos livros inexistentes?

O envio incerto

Sebo em Barcelona

Outro caso de incompetência: ano passado, bastante empolgado com a leitura de Kapuscinski, comprei O Xá dos Xás na semana em que começou a Copa. O cara não enviou nem respondeu as minhas mensagens até as oitavas de final. A própria EV só me deu atenção depois que reclamei publicamente em sua página do Facebook. Depois, o livreiro me enviou o código de rastreio errado, o que só vim descobrir quando surgiu a mensagem que a entrega havia sido efetuada… Em Porto Alegre! Estou certo de que o mineiraço (outro severo caso de incompetência) só aconteceu para punir esse sujeito! Apenas uns dois meses depois, inesperadamente, o livro chegaria a minhas mãos. Entre o pagamento e a leitura, sem o rastreio, já contava o dinheiro como perdido. O maldito livreiro ainda teve a ousadia de me ligar reclamando quando qualifiquei seu serviço como “ruim”.

O peso exagerado

Mas os casos de malandragem são ainda piores, pois são tentativas descaradas de açoitar seu bolso. Uma prática muito comum que já percebi por lá é a de reduzir bastante o preço dos livros, para que eles sejam os primeiros das buscas, e exagerar em seu peso. O frete é calculado a partir do CEP e do peso, mas muita gente não presta atenção a eles. Então o que os malandros fazem é compensar o preço baixo com o frete alto, ou seja, colocam um Boca do Inferno por R$20 (esse do link nem está barato) e vendem a trinta como se ele tivesse quase um quilo, e não 250g, e pegam a diferença na hora de enviar. Já pensou se comprássemos carne desse jeito? Confiram sempre o peso verdadeiro no site da editora.

A invenção da raridade

E a outra maneira comum de malandragem é a pura e descarada especulação bibliográfica. Tudo bem pagar mais caro por edições raras, autografadas, originais, importadas, antigas, luxuosas, especiais, limitadas ou, sei lá, qualquer coisa da Cosac Naify, mas acho um absurdo cobrarem R$300 por uma edição estropiada de um romance de quarenta anos. Como isso acontece?

Hypnerotomachia Poliphili by Francesco Colonna published by Aldus Manutius in 1499. Biblioteca Nazionale Marciana, Venice

Tenho minhas teorias. Um livreiro esperto vê que estão comprando muitos exemplares do clássico de John Kennedy Toole, então pimba! Bota um lá por dez vezes o seu valor. Daqui a dois, três anos, quando todos os exemplares estiverem extintos, um leitor desesperado (e rico) irá fazer valer a paciência do comerciante e ele lucrará mais que todos os outros vendedores juntos. E assim passam a confundir uma edição vagabunda de Uma Confraria de Tolos com um Hypnerotomachia Poliphilii da vida. Mas digamos que um livreiro compre um Toole todo lascado, mas bem barato das mãos de um cidadão inocente que herdou o livro de um tio-avô desconhecido. Em vez de querer lucrar o usual, o vendedor vai consultar na EV, como faria qualquer comprador precavido, e vai acreditar que o livro realmente vale aquilo. E o leitor comum que poderia vendê-lo barato, pois o detesta, depois de conferir no site e achar apenas exemplares caros, também vai crer que vale uma fortuna; em vez de vendê-lo por um preço justo, prefere simplesmente guardá-lo, apesar de seu desapreço pelo conteúdo do mesmo. Assim, os livros param de circular e o sistema dos sebos fica viciado. Um processo autodestrutivo, a longo prazo.

Pra nossa sorte, no caso de Uma Confraria de Tolos, o livro foi relançado em formato de bolso, a módicos R$20, e a maioria dos livreiros se viu obrigada a abaixar seu preço, ou seus volumes mofados ficariam encalhados para sempre. Alguns ainda tentam justificar o valor mais alto pelas horrorosas edições da década de 80, mas seu único atrativo é o conteúdo. Como objeto, não têm nada de especial. Eu nunca compro esses livros. Li em língua estrangeira O Anão e O Leilão do Lote 49; comprei meu Saberes e Odores no Mercado Livre por um preço legal e meu O Náufrago antes da especulação na EV. Meu V foi comprado baratinho num sebo de verdade, dois anos antes de conhecer a EV. Ainda estou esperando uma reedição de Cozinha Confidencial e de Olhos de Madeira.

Então é isso meus amigos: confiram o peso dos livros, evitem comprar exemplares supervalorizados, escolham bem o vendedor, briguem com eles quando algo der errado, e qualifiquem direitinho. Se ainda assim não estiver bom, espere pelas maravilhosas promoções da Amazon, uma loja limpa, rápida e confiável (e às vezes até mais barata).