Uma nota sobre os ensaios de Woolf

Em 2009, li uma frase excelente de Virginia Woolf, citada no livro Para ler como um escritor, de Francine Prose:

Considerando quão comum é a doença, quão terrível é a mudança espiritual que ela traz, quão espantosos, quando as luzes da saúde se apagam, são os países ignotos que são então revelados, quais ermos e desertos da alma uma simples gripe torna visíveis, considerando os precipícios e as clareiras salpicadas de vívidas flores que são revelados por uma pequena elevação da temperatura, os antigos e obstinados carvalhos que são em nós desenraizados pelo evento da doença, considerando que caímos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação se fecharem sobre nossa cabeça quando, sentados na cadeira do dentista, temos um dente arrancado e, depois, ao acordarmos, voltando à superfície, pensamos nos encontrar na presença dos anjos de dos harpistas, confundindo o seu “Enxague a boca… enxague a boca” com a saudação da divindade erguendo-se do chão do paraíso para nos dar as boas vindas – quando pensamos nisso, e em muito mais, como tão frequentemente somos forçados a fazê-lo, torna-se realmente estranho que a doença não tenha encontrado o seu lugar, juntamente com o amor e a batalha e a inveja, entre os grandes temas da literatura. (Tradução: Tomaz Tadeu).

O sol e o peixeEssa longa frase, que se lê com o fôlego suspenso, é simplesmente um dos mais belos e instigantes começos de ensaios de todos os tempos. De acordo com Tomaz Tadeu: “Ficar de cama faz qualquer um pensar. Mas fazer disso literatura é coisa bem diferente. É preciso o mesmo domínio da arte que a fez escrever obras-primas como Mrs Dalloway e Ao Farol. Depois dela, talvez apenas Susan Sontag, em A doença como metáfora, tenha tentado algo semelhante”; o que, é claro, é fácil de discordar, se pensarmos em autores como Andrew Solomon ou Oliver Sacks, que construíram sólidas carreiras literárias com obras sobre doenças. Mas talvez Tadeu se refira a não especialistas, escritores que falaram da doença apenas com a experiência e a observação, unidas talvez a algum insight e ao talento (como Montaigne e seus cálculos renais), e aí sim, é difícil não concordar com ele.

Na primeira vez, não li a frase nessa tradução que cito, pois ela não existia. O ensaio era inédito em português. Tentei procurá-lo em inglês, na internet, e não o encontrei. Tentei comprá-lo em formato de livro, em alguma coleção, talvez, mas o frete sempre era um absurdo. “On being ill” por muito tempo foi meu sonho borgiano. Os livros importados de ensaios de Woolf que encontrei por um bom preço continham textos maravilhosos como “The death of the moth”, que traduzi exatamente por existir essa lacuna no Brasil.

Em 2011, quando eu já fazia meu mestrado sobre ensaísmo inglês, uma colega jactou-se de possuir tudo de Virginia Woolf. Meus olhos brilharam com as possibilidades. Naquele ano, os únicos livros de ensaios de Woolf disponíveis no Brasil, creio, eram O Leitor Comum, Cenas Londrinas e algumas traduções de “A room of one’s own”. Depois de pedir os ensaios emprestados, minha colega se corrigiu, pois possuía toda a ficção de Woolf. Ah, a ficção é fácil._o_valor_do riso

Pois agora, em 2015, posso dizer que finalmente estamos servidos não apenas com uma, mas com duas traduções de “On being ill”. A primeira saiu ano passado, em O Valor do Riso, pela Cosac Naify, a mais rica, variada e abrangente coleção de ensaios de Woolf, incluindo “A Morte da Mariposa”, e alguns ensaios já publicados em O Leitor Comum. A outra saiu esses dias num volume lindíssimo chamado O Sol e o Peixe, pela Autêntica, uma coleção de ensaios mais, digamos assim, poéticos da inglesa, a que cito acima. E minha diversão agora é comparar as traduções, o que eu tenho em inglês, minha tradução, tudo. Finalizo esta nota com mais uma citação de ensaio dela, só para provar pra você como eles são bons:

A batida do ritmo na mente aparenta-se à batida do pulso em nosso corpo; e assim, apesar de muitos serem surdos para a melodia, é raro alguém organizado de um modo tão grosseiro que não consiga ouvir o ritmo de seu próprio coração em palavras movimentos e música. É por ela nos ser assim tão inata que não podemos jamais silenciar a música, como não podemos impedir nosso coração de bater; e é também por essa razão que a música é tão universal e tem o estranho e ilimitado poder de uma força natural. (“Músicos de rua”. Tradução: Leonardo Fróes).

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