A vingança da cheerleader sueca

“There is powerful literature in all big cultures, but you can’t get away from the fact that Europe still is the centre of the literary world … not the United States. The US is too isolated, too insular. They don’t translate enough and don’t really participate in the big dialogue of literature… That ignorance is restraining.”

Horace Engdahl, membro da Academia Sueca

O Brasil ainda era tri na última vez em que a medalha do Nobel de Literatura foi parar no lar de um escritor americano. Depois disso, já foram galardoados autores de dezessete países diferentes – doze idiomas, cinco continentes, duas vezes seus rivais franceses, duas vezes seus rivais alemães, várias vezes seus rivais britânicos e, o fim da picada, a prova definitiva de que os suecos estão mesmo de pirraça com eles: uma canadense.

Que me perdoe Alice Munro, autora ainda não lida que me parece ser formidável, mas não existe provocação maior, para um americano, que a premiação de um canadense. É a mesma angústia invejosa de um garoto ao descobrir que seu amiguinho ganhou um videogame; é o que sentimos sempre que nos deparamos com um filme argentino no Oscar. “O que eles têm de tão especial?”, nos perguntamos, antes de vermos Relatos Selvagens com as mais ferinas intenções, para depois nos resignarmos com sua qualidade incontestável e nossa infinita incapacidade enquanto grande nação.

roth preocupadoCom exceção de futebolistas masculinos, os americanos têm condições de ombrear com qualquer país do mundo na criação do produto que for; são capazes de alcançar a excelência até num investimento incerto e relativo como a literatura. Um leitor razoável deve saber que entre os maiores escritores vivos estão Joyce Carol Oates, Thomas Pynchon, Cormac McCarthy e, talvez o mais lido aqui, Philip Roth, e que nenhum deles levou o Nobel.

São quatro grandes, entre os milhares exportados por seu país, e têm como público o mundo inteiro. Um sucesso nos EUA provavelmente também será sucesso no Brasil, na França e no Japão, muitas vezes antes mesmo de ser traduzido. Não é à toa que têm o mais poderoso mercado livreiro do planeta. Um autor americano médio sabe que poderá ganhar dinheiro e fazer da escrita uma carreira confortável.

Paradoxalmente, esse mercado internacional tão abrangente tem suas portas fechadas para publicações cuja língua original não seja a sua própria. A resistência norte-americana ao resto do mundo não acontece apenas na literatura, mas no cinema, na música, na cultura em geral, principalmente no que envolve idiomas; penso em todas as adaptações malfeitas de grandes filmes de outros países, somente para agradar um público que se recusa a ler legendas. No mundo literário, preferem exaltar um autor meia-boca como Paul Auster a glorificar um forasteiro brilhante como Javier Marías.

Essa resistência não é feita apenas pelos leitores, mas também por editores, agentes, críticos e mesmo escritores. Para provar que não é uma ilha, a intelligentsia norte-americana eventualmente escolhe um estrangeiro para exibir em seu pódio de badalação; os últimos, todos muito bons, foram o chileno Bolaño, o alemão Sebald, o norueguês Knausgaard e a italiana Ferrante. Em troca, nos empanturram semanalmente com seus autores de variável qualidade.

nobelMas foi encontrada uma rachadura em todo este cimentado umbiguismo não-estou-nem-aí-pra-vocês: o Nobel de Literatura. Os acadêmicos suecos descobriram que o Nobel de Literatura é a cheerleader inconquistável dos ianques. A nação mais poderosa e egocêntrica do planeta se curva exatamente diante de uma das formas mais instáveis de reconhecimento estrangeiro, e as reações à declaração de Engdahl são provas disso.

Os outros Nobéis não importam muito para o cidadão comum. Há alguns anos, por exemplo, um laureado em Química foi dar uma palestra na UFBA e quase ninguém, com exceção dos próprios químicos, se comoveu para prestigiá-lo. Pensei em ir, apenas para sentir a aura de estar próximo a um Nobel. Mas era de química… Já a Paz e a Literatura estão ao alcance de todos. Logo, de que maneira nossa cheerleader sueca reage ao interesse dos americanos? Como a boa cheerleader que é: esnoba-os escancaradamente.

Mercadologicamente falando, é fácil entender a posição da academia sueca. Sendo a premiação, ainda que arbitrária, o maior reconhecimento literário do planeta, além dos milhões de coroas suecas, o laureado também recebe holofotes, contratos, traduções, leitores e ouvintes do mundo inteiro, muitas vezes após décadas de ostracismo – enfim, o que um bom escritor americano já espera receber desde o começo da carreira. O Nobel é a chance de conhecermos um chinês com cara de sapo que jamais leríamos se não fosse pelo fetiche da logomarca na capa. No entanto não precisamos das folhinhas de louros para nos interessar por Pynchon e Roth (e Eco, Kundera, Kadaré, grandes escritores de outros países que porventura também se tornaram grandes vendedores). Os críticos e os publicitários já fizeram sua parte, em nome desses caras. Mas de qual outra maneira ouviríamos falar na obscura bielo-russa Svetlana Alexievich?

Por outro lado, se fôssemos nos restringir a critérios literários, Roth & Cia mereceriam o prêmio. Eles têm alguma culpa por conseguir fazer sucesso no maior mercado do mundo? Que atitude deveriam tomar, recusar o sucesso em nome do prêmio? Os acadêmicos suecos, não raramente umas verdadeiras mulas, pouco se importam. Ainda que Roth & Cia sejam críticos mordazes de seu país, os suecos são irredutíveis em sua resolução de embargar os EUA. Enquanto o mercado literário americano não abrir suas portas às traduções, Roth & Cia não ganharão seu prêmio. Eis a severa vingança dos desprezados.

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