O texto mais tocante do ano

Mordo-me de inveja quando leio um texto sagaz. Há textos sagazes que são frutos de pesquisa, de observação repetitiva, do estudo de uma vida; não os invejo. Desejo para mim apenas o produto do puro insight, a lâmpada flutuante que poderia ter acendido sobre a cabeça de qualquer um. Sinto inveja quando leio João Pereira Coutinho discorrendo sobre a caça aos gordos, José Francisco Botelho sobre um jogo de futebol sem importância, meu compadre, O Mofino, sobre muletas, Martim Vasques sobre best-sellers, Julião sobre o cemitério do Campo Santo. Sim, sinto inveja de conhecidos e desconhecidos. Eu não escolho como a inveja vem – ela é caprichosa. Não a sinto quando leio autores de língua estrangeira. Jamais meu sangue carrega deste veneno quando leio alguém que já morreu. Piza sobre Pelé e João Ubaldo sobre o abuso das estatísticas me trazem puro deleite. Por que haveria de invejar quem não está mais vivo? Outro dos caprichos de minha doença é que ela não é a inveja maledicente ou sabotadora – invejo os textos que admiro abertamente. É uma inveja competidora – que por algum tempo moveu um blog coletivo que eu tinha com meus amigos. A cada texto interessante que surgisse era preciso (tentar) superá-lo, seja no texto seguinte ou nos comentários.

Entretanto, não invejo textos emocionantes – que pressupõem uma experiência pessoal – ainda que puramente ficcionais. Não invejo a profundidade alheia, pois ela sempre carrega consigo o sofrimento; a doença dos outros já lhes bastam. A mim me basta saber que Charlles Campos fez o texto mais tocante do ano.

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7 pensamentos sobre “O texto mais tocante do ano

  1. Baita texto o do Charlles, eu já sou cara-de-pau, e invejo os mortos também, a pouco tempo eu estava lendo um conto do Machado de Assis, chamado “último capítulo”, e disse para mim mesmo; Eu jamais escreverei sequer um parágrafo igual aos desse conto.

  2. Hehehehe. Mas quando você nasceu o conto já estava escrito há muito tempo. Sentir inveja dele, pra mim, é o mesmo que ficar de luto por alguém que morreu antes de eu ter nascido.
    (Agora sou obrigado a verificar esses parágrafos de Machado).

  3. Na verdade o conto em si, não diz muita coisa, é mais uma afirmação íntima de me achar uma nulidade, e não me meter a besta a escrever, mas o conto é muito bom.

  4. Acabei de ler todas as referências do seu texto, o do João Ubaldo é o que eu mais gostei, mas me fala o que tu achaste do conto do Machado ,e o que tu discordaste afinal ?

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