A maior excentricidade jamais realizada no Brasil

“Você deveria escrever um livro sobre os excêntricos”, sugeriu o cientista político Rodolfo Carneiro enquanto abria a facão um caminho entre as macambiras e mandacarus de um dos últimos redutos de caatinga virgem da região de Irecê, no sertão da Bahia. “Uma coleção de contos que narrasse os feitos dos grandes excêntricos da história, já pensou? Diógenes, Sócrates, Calígula, Luís XIV…” Apesar de nascido e educado no sertão, Rodolfo parecia ter sido teletransportado de uma cafeteria de San Francisco: barba minuciosamente descuidada, brincos pretos, óculos grandes como os de seu avô, camiseta com listras horizontais, suspensórios, calças de cor vinho. Sua aparência se ligava ao estereótipo sertanejo apenas pelo sotaque, pelas botas e pelo chapéu de couro – exemplar provindo de sua coleção repleta de panamás e fedoras de cores diversas.

Enquanto destrinchava uma passagem pela mata fechada, Rodolfo calculava os detalhes técnicos do livro; se haveria ilustrações, a ordem e o tamanho dos contos e, após decidir por apresentá-los cronologicamente, se eu deveria terminar com Dalí ou com Michael Jackson. “Que tal Charles Cosac?”, perguntei, para entrar na conversa. “Além de dentes cravejados de diamantes, uma coleção de sinos, e um salão como o de Gritos e Sussurros, ele possui uma editora de livros de luxo. Isso, per se, é a maior excentricidade jamais realizada no Brasil”. Paramos para beber água na sombra de uma gameleira. “Vamos fazer assim”, propôs ele, com seriedade, enquanto sacava o iPhone para tirar fotos de um tronco caído, “escreve da maneira que você quiser, que depois eu faço o design e a diagramação”. Foi a última vez que ouvi alguma menção à ideia.

Soterrados pela poeira da glória

Será possível produzir literatura no Brasil depois de A Poeira da Glória? Lançado em outubro, o livro de Martim Vasques da Cunha propõe uma provocadora releitura de nosso cânone, como meio de radiografar uma degeneração moral presente na alma e na identidade brasileira. De acordo com o ele, os clássicos são encarados no Brasil – seja por um estudante, um intelectual ou um cidadão comum, – com “medo ou reverência”. Sua intenção é fazê-lo com honestidade, independentemente do prestígio ou influência da obra.

Particularmente formidável na narração de anedotas que marcaram as biografias de artistas e pensadores, Martim Vasques é um dos melhores críticos culturais do país. Fundador da revista Dicta & Contradicta, e atualmente publicando no jornal Rascunho, ele escreve com conhecimento e profundidade sobre áreas diversas, – literatura, cinema, música, política, história, teologia e filosofia –, interligando-as quando conveniente, sem deixar enfraquecer a fluência e a contundência de sua prosa.

poeira gloria

No ambicioso A Poeira da Glória, Martim examina nossa literatura com o despudor de um Samuel Johnson. A primeira crítica se dirige a ninguém menos que o patriarca de nossas letras, Machado de Assis. Seu diagnóstico inicial é chocante: “estes livros não correspondem a uma realidade vivida e experimentada de fato – mas a uma enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”. Euclides da Cunha, por sua vez, seria infectado pela estetização da realidade, Lima Barreto devorado pelo ressentimento, Sérgio Buarque de Holanda contaminado pelo fetichismo do conceito, os modernistas envenenados pelo coletivismo cultural, Antônio Candido por preterir a realidade em nome da ideologia. Quase ninguém está a salvo da metralhadora conceitual de Martim Vasques. Em comum, todos eles teriam se recusado a se confrontar com o “abismo” que cada um possui dentro de si; falta a eles uma “imaginação moral”.

Tanta liberdade e desprendimento, entretanto, abrem vazão para leituras equivocadas. A primeira delas está justamente num texto de capa, que por sua vez foi adaptada da orelha escrita pelo jornalista Fábio S. Cardoso: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. De onde vem esta frase? Quem seria esse politicamente incorreto que considerou o livro imprudente? A impressão é que, devido ao teor da obra, na impossibilidade de chamá-la pelo vendável “O guia politicamente incorreto da literatura brasileira”, optou-se por algo mais discreto, mas ainda assim atrativo ao leitor que entrou por acaso na livraria.

Na orelha, Cardoso ainda afirma: “de Machado de Assis a Daniel Galera (…), são poucos os que se salvam”. E num comentário compartilhado pelo autor antes do lançamento, declara-se que “adoradores de Machado de Assis vão chorar. Seguidores do modernismo também. A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha, é um liquidificador que mói a mediocridade e separa o trigo do joio. Seus maiores heróis são Nabuco, Cecília Meirelles, os Inconfidentes, Rosa e Otto Lara Resende. Sobrou muita chibatada para os ídolos”. Tal citação faz o livro parecer – tendo em conta que, apesar da postura negativa, ela funcionou como propaganda – um paredão de reality show, e que Martim Vasques é uma espécie de Aldo Raine da literatura brasileira. Ou pior: que gerar polêmica é a principal finalidade do cartapácio.

Poder-se-ia argumentar que tais declarações têm o único e nobre intuito de plantar a expectativa no leitor, que compraria o livro e, logo, ampliaria seu alcance; mas elas são frutos do próprio ressentimento, ironicamente destrinchado no mesmo. Martim não considera descartáveis os autores “moídos” por ele, e faz questão de reconhecer as qualidades dos escritores que destrona. Não foi incluído quem não tenha sido de alguma forma notável. A Poeira da Glória é perturbador exatamente porque escrito com a seriedade de quem leu tudo de um autor antes de escrever a primeira linha sobre ele. Suas ideias são argumentadas e fundamentadas com centenas de referências e alusões (por sinal, o livro carece demais de um índice onomástico). Veja: “[Euclides da Cunha e Lima Barreto] são gênios, sem dúvida, mas quem disse que o Brasil precisa apoiar-se somente nos ‘homens da inteligência’?” O sentido está claro, mas o propósito está além.

A grande verdade é que, por mais que concorde com a argumentação, não deixarei de apreciar Machado, Euclides, Lima Barreto ou Raduan Nassar, e creio que poucos o farão com os autores de que realmente gostam. No máximo, e mesmo assim por pouco tempo, se tornarão guilty pleasures. Como nos ensaios de Theodore Dalrymple ou Joseph Epstein, temos aqui um minucioso estudo que, apesar da fluidez de best-seller, é digerido lentamente. É possível discordar de Martim Vasques, porém jamais acusá-lo de leviano ou desonesto. Não se deve confundir a polêmica como meio de chamar a atenção (o comentário de Paulo Coelho sobre Ulisses), e a polêmica como reação natural a uma publicação inesperadamente subversiva.

Martim parodia Orwell e brinca com a possibilidade: “Tenho certeza de que, enquanto escrevo as primeiras linhas do último capítulo deste livro, seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar. Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada”. Não poderia estar mais errado. De acordo com as postagens em seu perfil no Facebook (e o autor honesto há de optar entre não compartilhar nenhuma crítica, ou compartilhar qualquer uma, inclusive as desfavoráveis), ao menos neste primeiro momento, ele não encontrou nem o silêncio absoluto, nem a ira assassina dos rivais. Encontrou, em vez disso, a concórdia – a glória (às vezes com ressalvas).

E o maior equívoco de muitos de seus leitores está em acreditar que este rosário de denúncias só esteja dirigido ao outro, seja porque não leu, seja porque discordou – um engano semelhante ao da internauta que enfrenta o machismo com ferocidade, mas é incapaz de percebê-lo em suas próprias atitudes. Concordar com uma denúncia não nos isenta de ser alvo dela. Está explícito em muitos dos comentários elogiosos uma afinidade pessoal, intelectual ou política com o autor – como se ser de direita ou de esquerda, morar em São Paulo ou no Maranhão, acreditar ou não em Deus, gostar ou não de Lavoura Arcaica, pudesse nos livrar de escrutinar o “fundo insubornável do ser”. Eis um dos engodos da inteligência. A exortação de Martim Vasques não se dirige a grupos específicos, mas a cada um, inclusive a ele mesmo: “Todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”. É preciso antes retirar a trave do próprio olho.

Curiosamente, a reação mais interessante das publicadas em seu perfil proveio de um pedido dele mesmo. Nicolau Olivieri, num texto muito bem humorado, termina por admitir que “seu livro não foi simples. Foi difícil. Não pela questão teórica ou pelas alusões não pescadas ou pela densidade, mas pelo confronto. Lendo o Poeira, como eu disse, eu me senti parte integrante, quando não um entusiasta, do esteticismo e da dissimulação, da recusa, enfim da falsidade e absoluta ausência de coragem para enfrentar meus próprios abismos”. Se a maioria dos leitores que entenderam o livro não se sentir do mesmo jeito, estamos diante de uma onda de insinceridade, ou, sem ironia, talvez o país não esteja indo assim tão mal. E se Dalrymple e Epstein estiverem certos, talvez alguns dos problemas apontados por Martim não sejam tão específicos ao Brasil. Será possível produzir literatura depois de A Poeira da Glória?

Sim, porém sempre há mais a ser considerado.