Soterrados pela poeira da glória

Será possível produzir literatura no Brasil depois de A Poeira da Glória? Lançado em outubro, o livro de Martim Vasques da Cunha propõe uma provocadora releitura de nosso cânone, como meio de radiografar uma degeneração moral presente na alma e na identidade brasileira. De acordo com o ele, os clássicos são encarados no Brasil – seja por um estudante, um intelectual ou um cidadão comum, – com “medo ou reverência”. Sua intenção é fazê-lo com honestidade, independentemente do prestígio ou influência da obra.

Particularmente formidável na narração de anedotas que marcaram as biografias de artistas e pensadores, Martim Vasques é um dos melhores críticos culturais do país. Fundador da revista Dicta & Contradicta, e atualmente publicando no jornal Rascunho, ele escreve com conhecimento e profundidade sobre áreas diversas, – literatura, cinema, música, política, história, teologia e filosofia –, interligando-as quando conveniente, sem deixar enfraquecer a fluência e a contundência de sua prosa.

poeira gloria

No ambicioso A Poeira da Glória, Martim examina nossa literatura com o despudor de um Samuel Johnson. A primeira crítica se dirige a ninguém menos que o patriarca de nossas letras, Machado de Assis. Seu diagnóstico inicial é chocante: “estes livros não correspondem a uma realidade vivida e experimentada de fato – mas a uma enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”. Euclides da Cunha, por sua vez, seria infectado pela estetização da realidade, Lima Barreto devorado pelo ressentimento, Sérgio Buarque de Holanda contaminado pelo fetichismo do conceito, os modernistas envenenados pelo coletivismo cultural, Antônio Candido por preterir a realidade em nome da ideologia. Quase ninguém está a salvo da metralhadora conceitual de Martim Vasques. Em comum, todos eles teriam se recusado a se confrontar com o “abismo” que cada um possui dentro de si; falta a eles uma “imaginação moral”.

Tanta liberdade e desprendimento, entretanto, abrem vazão para leituras equivocadas. A primeira delas está justamente num texto de capa, que por sua vez foi adaptada da orelha escrita pelo jornalista Fábio S. Cardoso: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. De onde vem esta frase? Quem seria esse politicamente incorreto que considerou o livro imprudente? A impressão é que, devido ao teor da obra, na impossibilidade de chamá-la pelo vendável “O guia politicamente incorreto da literatura brasileira”, optou-se por algo mais discreto, mas ainda assim atrativo ao leitor que entrou por acaso na livraria.

Na orelha, Cardoso ainda afirma: “de Machado de Assis a Daniel Galera (…), são poucos os que se salvam”. E num comentário compartilhado pelo autor antes do lançamento, declara-se que “adoradores de Machado de Assis vão chorar. Seguidores do modernismo também. A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha, é um liquidificador que mói a mediocridade e separa o trigo do joio. Seus maiores heróis são Nabuco, Cecília Meirelles, os Inconfidentes, Rosa e Otto Lara Resende. Sobrou muita chibatada para os ídolos”. Tal citação faz o livro parecer – tendo em conta que, apesar da postura negativa, ela funcionou como propaganda – um paredão de reality show, e que Martim Vasques é uma espécie de Aldo Raine da literatura brasileira. Ou pior: que gerar polêmica é a principal finalidade do cartapácio.

Poder-se-ia argumentar que tais declarações têm o único e nobre intuito de plantar a expectativa no leitor, que compraria o livro e, logo, ampliaria seu alcance; mas elas são frutos do próprio ressentimento, ironicamente destrinchado no mesmo. Martim não considera descartáveis os autores “moídos” por ele, e faz questão de reconhecer as qualidades dos escritores que destrona. Não foi incluído quem não tenha sido de alguma forma notável. A Poeira da Glória é perturbador exatamente porque escrito com a seriedade de quem leu tudo de um autor antes de escrever a primeira linha sobre ele. Suas ideias são argumentadas e fundamentadas com centenas de referências e alusões (por sinal, o livro carece demais de um índice onomástico). Veja: “[Euclides da Cunha e Lima Barreto] são gênios, sem dúvida, mas quem disse que o Brasil precisa apoiar-se somente nos ‘homens da inteligência’?” O sentido está claro, mas o propósito está além.

A grande verdade é que, por mais que concorde com a argumentação, não deixarei de apreciar Machado, Euclides, Lima Barreto ou Raduan Nassar, e creio que poucos o farão com os autores de que realmente gostam. No máximo, e mesmo assim por pouco tempo, se tornarão guilty pleasures. Como nos ensaios de Theodore Dalrymple ou Joseph Epstein, temos aqui um minucioso estudo que, apesar da fluidez de best-seller, é digerido lentamente. É possível discordar de Martim Vasques, porém jamais acusá-lo de leviano ou desonesto. Não se deve confundir a polêmica como meio de chamar a atenção (o comentário de Paulo Coelho sobre Ulisses), e a polêmica como reação natural a uma publicação inesperadamente subversiva.

Martim parodia Orwell e brinca com a possibilidade: “Tenho certeza de que, enquanto escrevo as primeiras linhas do último capítulo deste livro, seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar. Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada”. Não poderia estar mais errado. De acordo com as postagens em seu perfil no Facebook (e o autor honesto há de optar entre não compartilhar nenhuma crítica, ou compartilhar qualquer uma, inclusive as desfavoráveis), ao menos neste primeiro momento, ele não encontrou nem o silêncio absoluto, nem a ira assassina dos rivais. Encontrou, em vez disso, a concórdia – a glória (às vezes com ressalvas).

E o maior equívoco de muitos de seus leitores está em acreditar que este rosário de denúncias só esteja dirigido ao outro, seja porque não leu, seja porque discordou – um engano semelhante ao da internauta que enfrenta o machismo com ferocidade, mas é incapaz de percebê-lo em suas próprias atitudes. Concordar com uma denúncia não nos isenta de ser alvo dela. Está explícito em muitos dos comentários elogiosos uma afinidade pessoal, intelectual ou política com o autor – como se ser de direita ou de esquerda, morar em São Paulo ou no Maranhão, acreditar ou não em Deus, gostar ou não de Lavoura Arcaica, pudesse nos livrar de escrutinar o “fundo insubornável do ser”. Eis um dos engodos da inteligência. A exortação de Martim Vasques não se dirige a grupos específicos, mas a cada um, inclusive a ele mesmo: “Todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”. É preciso antes retirar a trave do próprio olho.

Curiosamente, a reação mais interessante das publicadas em seu perfil proveio de um pedido dele mesmo. Nicolau Olivieri, num texto muito bem humorado, termina por admitir que “seu livro não foi simples. Foi difícil. Não pela questão teórica ou pelas alusões não pescadas ou pela densidade, mas pelo confronto. Lendo o Poeira, como eu disse, eu me senti parte integrante, quando não um entusiasta, do esteticismo e da dissimulação, da recusa, enfim da falsidade e absoluta ausência de coragem para enfrentar meus próprios abismos”. Se a maioria dos leitores que entenderam o livro não se sentir do mesmo jeito, estamos diante de uma onda de insinceridade, ou, sem ironia, talvez o país não esteja indo assim tão mal. E se Dalrymple e Epstein estiverem certos, talvez alguns dos problemas apontados por Martim não sejam tão específicos ao Brasil. Será possível produzir literatura depois de A Poeira da Glória?

Sim, porém sempre há mais a ser considerado.

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20 pensamentos sobre “Soterrados pela poeira da glória

  1. Velho, não conheço o bastante. Li dele alguns textos curtos sobre literatura que são muito bons, porém mais que isso não posso falar. Agora, tenho ressalvas em relação ao fanatismo com que se referem a ele, como se não fosse humano, passível de falar bobagem, e ressalvas em relação à aversão (também fanática) de quem chama o cara de besta quadrada sem ter lido nada dele, como se não fosse capaz de ter escrito coisas interessantes. Um futebolismo comum na era da internet. Os polos horizontais – fiz uns dois textos aqui falando disso. Os dois lados estão podres – é basicamente uma das coisas que MVC fala, que João Ubaldo tentou dizer antes. Não há debate. Amo Chesterton e Orwell, detesto Constantino e Paulo Nogueira. Por exemplo, tenho algumas posições completamente diferentes das de MVC, mas é o crítico cuja leitura mais me agrada ultimamente. Será possível? Hehehehe.

  2. Só pelo fato de você não falar que fumar faz bem a saúde e que a terra é o centro do universo, já me deixa aliviado, a defesa que ele faz da obra do Carpeaux é muito bonita, mas fica nisso para mim, já tentei ler outras coisas dele, mas aí ele começa com aquelas baboseiras de comunismo e os iluminati e sei lá mais o que, pelo menos eu tentei lê-lo.

  3. De fato eu tenho que me desculpar pelo tom, um tanto desabrido de minha pergunta, sobre você ser uma “olavete” e de ter feito um pré julgamento da obra supracitada.

  4. Relaxe, cabra, pode falar no tom que quiser. Hehehehe. Só me incomoda demais essa polarização e desconfiança geral, de ter que saber a opinião de alguém sobre algo muito específico antes de ler, curtir, fazer amizade, chamar pra tomar uma, sei lá. Outro dia, por exemplo, vi um cara dizer todo receoso que Antônio Fernando Borges escrevia bem, mas ele não sabia se o autor era de direta; como se isso fosse alterar a qualidade da escrita, entende?

    Hahaha. Vou ter que procurar por essa dos Iluminati.

  5. Que tara tem Tiago por Olavo e seus alunos asuhuhsuaha
    Creio que MVC nao seja seu aluno, mas gosta do Olavo, sim. Tenta deixar pra lá essa divisao A x B que existe no Mundo Brasil. Os livros e textos do velho nos anos 90 sao bem bons. Leia O Jardim das Aflicoes. Tenho a impressao de que, hum, gostarás (nao digo .

    Ótima resenha, Paulo. Ainda nao o li – o meu exemplar chegará semana que vem – mas “conhecendo” o trabalho de MVC assim como conheces, nao muito porém o bastante para ter uma ideia dos seus objetivos, expuseste bem o ideal dele com esta obra.

  6. Tiago, junto com Millôr e Machado, Nelson é o rei da tirada sagaz.
    Martim, eu que agradeço.
    Matheus, vi que vão fazer um filme sobre O Jardim das Aflições. Ele é mencionado no livro de MVC. É o mais famoso dele? Acho que você vai gostar (e se tudo der certo, se incomodar) muito de A Poeira .

  7. Matheus, só por esse seu comentário, o “velhinho”, já o chamaria de comunista e outras coisas menos louváveis, eu li algumas coisas dele sobre literatura que eu gostei, principalmente o ensaio sobre o Carpeaux…

  8. Ótima resenha, Paulo!

    Oposição é verdadeira amizade, né? Pois sou o oposto do Matheus quando se fala do Olavo. Até há alguns dois anos eu desconhecia completamente o sujeito. E como o Tiago, eu também tentei honestamente ler o cara. Eu adoro ler autores com os quais não tenho nenhuma afinidade moral, política, sentimental, etc, como o Céline (aliás, um dos meus preferidos) e o Allan Bloom. Mas o Olavo…ernh!, gente, parece que é uma imensa piada que fazem comigo. Eu reviro o volume sobre como deixar de ser idiota, e sinto uma impressão do absurdo daquilo, como se tivessem me passando uma pegadinha. Me desculpem a sinceridade, mas eu não só o acho péssimo em todas as dimensões possíveis, como parte da minha mente desconfia com severidade que ele exista. Daí, assisti a uns dois vídeos dele pelo seu face ou youtube, e, meudeusdocéu. Se eu tivesse menos idade e segurança em meu amor próprio, eu acharia que o problema era comigo. O cara é uma inexpresividade absoluta, um desses proferssorzões do colegial que vira mito no pré-vestibular mas que a gente esquece assim que o deixa para trás. Uma figura exageradamente histriônica. É tão descartável e cômico que minha razão inconscientemente já se resolve em não lhe dedicar nenhuma atenção. Daí, quando vejo que a crítica literária interpola o nome dele, o citando com delicadeza, me vem a impressão de que a coisa toda é uma piada que já perde a graça pela insistência.

    Cara, ao ler esse seu texto, tirei um fardo das costas. Reparei que eu nunca tive a coragem de dizer que o Machado me parece sempre um chato, hipervalorizado. E Lima Barreto, nas minhas leituras angustiantes da adolescência, não me parecia ter escopo minimamente suficiente para me passar a certeza de estar lendo um livro. Nesses pontos, eu reconheço, o erro está em mim. Já tentei consertar, mas é inamovível.

  9. Penso que não deveria ter em nossas livrarias uma estante para “literatura nacional”. Por mim os escritores brasileiros deveriam estar misturados com todos os outros, como parte do mundo. Esse desprendimento usado por MVC bem que poderia ser repetido quando falamos de contemporâneos, ou quando ouvimos críticas ou discordamos de algo. Eu adoro Machado e os contos de Lima Barreto. Não gosto mesmo é de Mário de Andrade e Rubem Fonseca.
    Numa dessas contradições bem brasileiras, os textos que li de Olavo me foram passados por um primo – um dos caras/intelectuais mais honestos que conheço – que ano que vem vai se candidatar a vereador, acredite se quiser, pelo PT.
    Viagem ao Fim da Noite é completamente diferente do que eu esperava. Um dos melhores livros que li este ano.

  10. Eu tinha que ficar lendo “literatura brasileira” na infância para passar nas provas, e de meia em meia hora eu abandonava o peso para observar pela janela do décimo andar um distante prédio de 3 andares que ficava entre árvores, na zona rural da cidade. Nunca via ninguém nele, mas imaginava que ali morava uma menina linda, e que eu devia me aventurar a ir perguntar qualquer dia desses o que era aquilo, um internato, um asilo. Nunca fui, e até hoje não sei do que se tratava. O lirismo dessa visão me ajudava a suportar Lima Barreto e o tal sargento de milícias e a luneta mágica, e de certa forma ficou indissociável dessas leituras. Há um discurso do Bernard Shaw para alunos colegiais americanos em que ele diz que é um autor irlandês, e que os alunos de seu país o odeiam tanto quanto eles odeiam, vamos dizer_ ele diz_ Mark Twain. Talvez seja essa a questão.

    Li todos os contos do Rubem Fonseca. Uma ótima diversão, mas como tudo dessa seara, sem a devida transcendência. Li os três ensaios do Nelson sobre o velório do Rosa, e recordo que arrepiei todo com a profundidade e desnudez do autor, algo que eu só via “em gente de fora”. É vergonhosa minha limitação na literatura nacional, pois, se pressionado, diria que as maiores páginas que li dela foram essas em que um desarmado Nelson admite que Rosa era superior a ele.

    Olavo leva o ovo. Tinha um belo exercício assim em meu livrinho de alfabetização, do qual tento me recordar o restante mas me vem o inadequado e improvável prosseguimento de “o vovô lava o ovo de Olavo”.

  11. Tá bom, O alienista me impressionou bastante. Mas a obsessão da professora em que eu entendesse o esquema da representação da fornicação através daquelas reticências e travessões em Brás Cubas estragou em definitivo esse romance. Eu bato muito nessa tecla: a origem do gosto literário está no deslumbre do estranhamento e da incompreensão. Não havia ninguém que me forçava a explicação de Kafka, e por isso eu o adorava e adoro, porque não o compreendia através do reducionismo do conformismo. Nessa minha terceira leitura de Doutor Fausto, por exemplo, que estou por terminar e farei uma resenha no meu blog, me deu um estralo que me congelou no carpete: “Mas… quem vende a alma ao demônio não é o Adrian, mas o narrador, Serenus! Adrian, pelo contrário, é o único de toda a história que escapa da danação, que se conserva humano e independente”. Agradeço muito à educação nacional em não ensinar literatura universal para as crianças, senão imagine o burro que eu seria hoje, com o nariz escorrendo e a cara complacente de volúpia pelo obvio televisivo me alimentando diuturnamente.

    Há dois contos do Fonseca que não são “literatura brasileira”. Uma diatribe deliciosa em que uma série de machões ocupam um prédio instalando um serviço de telefonia para conselhos práticos para donas de casa, e um outro que fala sobre golfinhos telepatas. Através deles dá para saber porque Pynchon o admira.

  12. Ah, a obrigação e a importância são a origem do medo e da reverência, e é impossível começar a gostar de algo assim. Claro, um pesquisador ou um literato que vive disso às vezes deve se submeter (estoicamente, pra usar seu termo) a algumas coisas que lhe são desagradáveis, mas não um leitor iniciante.
    Eu li mais as crônicas futebolísticas de Nelson – o cara era o Chesterton das muidezas. Vou procurar os ensaios sobre Rosa (por sinal, citados por MVC).
    Não sabia dessa de Pynchon. Porque ele leria logo Rubem Fonseca? (Depois dessa, não duvido de ele ter tirado o brasileiro Da Coño, de V, do nome de Euclides). Eu estou enganchado no Wigan Pier.
    Estive relendo a parte final do John Gray – que cara brilhante!

  13. Não somente o Pynchon, gosta do Zé Rubem, mas o: Stephen King, Lobo Antunes, José Saramago, Garcia Marquez, Leonardo Padura e o Vargas Llosa, já elogiaram-no.

  14. Os brasileiros são mais lidos em países de língua espanhola do que imaginamos. Quando estive em Madrid, encontrei pilhas de Daniel Galera ao lado de Donna Tartt, na Grán Via. Mas Pynchon e King me surpreenderam. Pynchon me parecia mais um leitor de An Invincible Memory.

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