A maior excentricidade jamais realizada no Brasil

“Você deveria escrever um livro sobre os excêntricos”, sugeriu o cientista político Rodolfo Carneiro enquanto abria a facão um caminho entre as macambiras e mandacarus de um dos últimos redutos de caatinga virgem da região de Irecê, no sertão da Bahia. “Uma coleção de contos que narrasse os feitos dos grandes excêntricos da história, já pensou? Diógenes, Sócrates, Calígula, Luís XIV…” Apesar de nascido e educado no sertão, Rodolfo parecia ter sido teletransportado de uma cafeteria de San Francisco: barba minuciosamente descuidada, brincos pretos, óculos grandes como os de seu avô, camiseta com listras horizontais, suspensórios, calças de cor vinho. Sua aparência se ligava ao estereótipo sertanejo apenas pelo sotaque, pelas botas e pelo chapéu de couro – exemplar provindo de sua coleção repleta de panamás e fedoras de cores diversas.

Enquanto destrinchava uma passagem pela mata fechada, Rodolfo calculava os detalhes técnicos do livro; se haveria ilustrações, a ordem e o tamanho dos contos e, após decidir por apresentá-los cronologicamente, se eu deveria terminar com Dalí ou com Michael Jackson. “Que tal Charles Cosac?”, perguntei, para entrar na conversa. “Além de dentes cravejados de diamantes, uma coleção de sinos, e um salão como o de Gritos e Sussurros, ele possui uma editora de livros de luxo. Isso, per se, é a maior excentricidade jamais realizada no Brasil”. Paramos para beber água na sombra de uma gameleira. “Vamos fazer assim”, propôs ele, com seriedade, enquanto sacava o iPhone para tirar fotos de um tronco caído, “escreve da maneira que você quiser, que depois eu faço o design e a diagramação”. Foi a última vez que ouvi alguma menção à ideia.

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7 pensamentos sobre “A maior excentricidade jamais realizada no Brasil

  1. Mãos à obra, Paulo. Por favor, escreva-o.
    (Só eu fico irritado³ em ver tanto dinheiro desperdicado, uma oportunidade única para um país, um povo, mal utilizada por um herdeiro mimadinho “excentrico”? Legado ao Brasil? Mas o que é isso?* Nojinho de editar domínio público? Quantas obras ainda nao foram traduzidas para o portugues? Obras nao publicadas no Brasil? Ou esquecidas há decadas? O Outono da Idade Média foi magnífico, os livros do demiurgo Faulkner, Tolstói, mas nao foi o bastante. Que adiantou gastar milhoes em obras sem importancia alguma para a formacao cultural do país, mas apenas para um grupelho artístico metido? E ainda se despede fazendo troça das editoras que tentam realmente recuperar o que foi perdido. Muito mais útil se tivesse colocado essa bagatela de 140 milhoes nos crowdfundings dessas pequenas editoras que pipocam na internet ao invés de publicar livros dos quais posso transformar as páginas em Origami. Cacete, o Coffee Table Book do Kramer seria algo mais útil. Fetiche. E como nao controlou o dinheiro? Ah, Herdeiros…)

    *Voz de Maria do Rosário.

  2. Eu estou escrevendo outras coisas por agora, mas a lista dos excêntricos dava um bom livro na linha do Vidas Imaginárias de Schwob.
    Da Cosac só comprei/li mais livros de literatura. Fora um ou outro que não me empolgou, tipo Os Anões ou Copacabana Dreams, não tenho muito do que reclamar.

  3. Paulo, não tenho onde escrever isso além daqui: excepcional seu texto lá na Piauí! Justamente esse mês eu não recebi a revista; mudou-se o fornecedor e está uma bagunça, de maneiras que tive que reclamar no SAC. Gostaria de ter tido o espanto de ler seu texto e logo em seguida ver seu nome embaixo, mas…

    Li em seu facebook e no site da revista. Parabéns! Grande estilo ali.

  4. Charlles, não poderia haver lugar ou momento mais adequado que este. Depois explico melhor, pois acabei de chegar de viagem. Mas fico muito, muitíssimo feliz que tenha gostado. Muito obrigado.

  5. Tem um ar delicioso de Thomas Pynchon (Vício Inerente), uma atmosfera californiana sessentista. Procurei pelo seu personagem e, bem, confirma o poder de seu texto o detalhe de que sua criação é bem mais interessante. Lembra também aqueles grandes colonos loucos e cheios de ideias sem pavio dos livros do Naipaul.

  6. Curiosamente, nunca li Naipaul e de Pynchon só Lot 49. Acho que Pynchon, junto com Mann e Faulkner, são as falhas mais gritantes em minha formação, apesar de eu ter lido alguma coisa de cada um. Talvez eu pense assim por sempre vê-los mencionados em seu blog.

    Agora, livros sobre “grandes colonos loucos e cheios de ideias sem pavio” é algo que eu preciso buscar urgentemente, hehehe.

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