Os deslizes metalinguísticos de Orwell e Ruy Castro

George Orwell, num de seus ensaios mais famosos, “A política e a língua inglesa”, demonstra alguns problemas da escrita de sua época. No texto, que é mais divertido que o título faz parecer, Orwell reclama que geralmente “a voz passiva é usada em lugar da ativa”. Não sei dizer se a frase é irônica, mas prefiro acreditar que ele cometeu um deslize metalinguístico, ao usar a voz passiva para criticar o uso da voz passiva.

Semana passada, encontrei um deslize metalinguístico de um dos maiores escritores de não ficção do Brasil. No volume A Palavra Mágica, que junto com A Canção Eterna compõe o livro Letra e Música, Ruy Castro reúne crônicas sobre a escrita. Uma delas, “O autor de inéditos”, é uma crítica a expressões como “Dalton Trevisan acaba de ganhar um prêmio literário com um livro de contos inéditos”. O problema estaria em ressaltar o ineditismo dos contos, o que Ruy sugere ser redundante. Ele segue:

Isso demonstra a grande coerência de Dalton. Quando ele estreou na literatura, em 1959, com “Novelas Nada Exemplares”, já era um livro de contos inéditos. Depois veio “Cemitério de Elefantes” (1964), idem, de inéditos. Em seguida, “Morte na Praça” (1964) e a obra-prima “O Vampiro de Curitiba” (1965), ambos também de inéditos. E assim continuou, até hoje. Desde cedo Dalton encontrou sua forma ideal de expressão: escrever contos inéditos.

É claro que não foi o primeiro a fazer isso. Antes dele, Shakespeare já escrevera uma peça inédita, “Hamlet” (c. 1600); Edgar Allan Poe, o poema inédito “O Corvo” (1845); e James Joyce, o romance inédito “Ulisses” (1922). Sem falar em Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebelo. Parece que escrever inéditos é uma mania dos escritores. Os poucos que fugiram a essa regra –ou seja, escreveram coisas não inéditas– arriscaram-se a processos dos autores originais.

Tudo que um autor escreve deve sim, ser inédito, mas nem tudo o que ele publica. O engano está em achar que “inédito” deve se referir apenas a “livro”. Trevisan pode reunir em livro os contos publicados em revistas ou jornais, talvez na internet, e quem sabe até ganhar prêmios com eles – livros inéditos de contos éditos. Podemos até publicar romances inéditos de capítulos éditos. Dickens, Dumas, Machado, e a maioria dos romancistas do século XIX fizeram assim. E aí está a metalinguagem: o próprio livro de Ruy Castro, A Palavra Mágica, jamais havia sido publicado, era inédito; as crônicas, porém, já estavam todas na Folha, editíssimas. Um deslize metalinguístico, portanto, não muito diferente do de Orwell.

Anúncios