Desmedidas brasileiras

O brasileiro é inexato por natureza. Aqui é muito comum que uma pergunta simples e factual – uma que não cause polêmica nem exija qualquer interpretação – receba uma resposta evasiva. Não seria estranho, por exemplo, se questão “quem ganhou a última copa?” fosse assim respondida: “A Argentina foi vice, e o Brasil, apesar de jogar dentro de casa, tomou o maior vexame de sua história. Os Estados Unidos jogaram como nunca, mas perderam como sempre, e a Costa Rica foi a grande surpresa”. Sobre os vencedores, nada.

Claro que se trata de um exemplo exagerado, uma vez que nem todas as perguntas são tão simples e, o mais importante, que ninguém ainda se esqueceu dos alemães. Mas o que pretendo ilustrar com o hiperbólico exemplo é quão cotidiana pode ser uma resposta evasiva. Vejamos um exemplo mais banal: “Fica pronto em quantos minutos?” Essa pergunta serve pra situações formais e informais, do preparo de um bife à finalização de um serviço. A resposta ideal seria um número, de preferência menor que trinta. Mas veja como a conversa geralmente se desenrola:

“Depois ainda preciso ir ao banco”.

“Em quantos minutos fica pronto mesmo?”

“Lá sempre demora um tempão”.

“Só me diz um número. Em quantos minutos?”

“Hoje está muito calor, ein?”

“Vinte, quarenta e nove, oitenta e dois?”.

“Um segundinho, preciso atender esta ligação”.

A resposta correta para as perguntas simples e factuais geralmente é sucinta, o que não convida o interlocutor, seja a própria mãe, seja um desconhecido na fila da lotérica, a iniciar o que os anglófonos chamam de small talk – nossa boa e velha conversa fiada. E o brasileiro quer bater papo o tempo todo. Se há algo que o brasileiro sabe jogar de verdade, não é futebol, mas conversa fora. Temos bolas de ouro em papo furado. Nossa perpétua criação de assunto – o principal produto do país – jorra por uma torneira que jamais é fechada.

A natural inexatidão do brasileiro, entretanto, não está apenas no discurso cotidiano. Afinal, dar uma resposta objetiva não seria lá muito complicado. No mundo material, ela é percebida desde a infância, quando o boneco na foto parece maior do que de verdade, quando no prato do primo de fora – supostamente igual ao nosso – sempre tem mais batata frita, ou quando medimos com pés diferentes as travinhas das peladas. Tudo isso tem seus análogos, adiante, quando nos tornamos adultos. Por muito tempo, por exemplo, desconfiei da contagem de onze passos feita pelos árbitros, antes de montar a barreira para a cobrança de uma falta. Onze passos medidos com minhas pernas curtas acabariam com a carreira de um Rogério Ceni. Parei de pensar no assunto após começarem a usar, na televisão, um círculo amarelo que marca a distância certa. A inconsolável verdade é que, se meu time raramente faz um gol de falta, a culpa jamais é duma medição arbitrária.

Por falar em passos, meu avô, notório caminhante e batedor de papo, é adepto da “légua de beiço”. “O senhor”, perguntaria um passante, “sabe onde é a roça de Manuel Firmino?” Crescido na zona rural do sertão baiano, um lugar em que as coisas eram medidas com ainda mais imprecisão, Vô Tôim responderia “É bem ali”, esticando o beiço para o lado, o que dava a entender que o lugar era muito próximo, tão próximo que nem valia a pena levantar o braço para mostrá-lo. E assim ia o viandante, na direção correta, porém a uma légua (sete quilômetros) de caminhada, sob o sol escaldante, preparado para andar menos que a metade.

Em um memorável texto publicado pela piauí, a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão discorre sobre nosso acentuado gosto pelo hipocorístico, a mania de por tudo no diminutivo. “Nós mesmos tempos o adjetivo pequeno, que já indica tamanho reduzido. Não contentes, ainda o minimizamos nas formas pequenino ou pequeninho e até pequenininho. Em geral achamos pitoresco esse tipo de prática, sem nos determos em suas implicações psicossociais”. Vinícius, o poetinha, foi o mais célebre usuário do hipocorístico. Em “Chega de Saudade”, extraiu da mania um verso: “há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca”. E não nos esqueçamos das personalidades brasileiras: Bentinho, Leonardinho, Jairzinho, Paulinhos, Serginhos, Juninhos, Ronaldinhos.

Mesmo para se referir a medidas exatas – peso, volume, tempo – o brasileiro tende a aumentar ou diminuir. Um quilo é um quilo, aqui e em qualquer lugar do mundo, um quilo de algodão não pesa mais que um quilo de chumbo – em Nova York, não pense estar recebendo mais que mil gramas ao comprar 2,2 libras de carne moída. Porém somente no Brasil é possível existir um quilo menor, um quilo diminuto, quando perdemos uns quilinhos. Aqui, é possível comprar uma cerveja em litro (600 ml), litrinho (300 ml) e litrão (um litro!). O tempo relativo de Newton, aquele que é aparente e comum, e tem sempre relação com alguma medida de duração perceptível e externa obtida através do movimento, aqui é “um tempão”.

E é exatamente sobre o tempo que desejo discorrer. O Brasil é o país da espera. Tudo no Brasil é demorado. Nossa conversa fiada na verdade é tempero para a enrolação. Certa vez ouvi falar de um brasileiro pontual que, como é de se esperar, causou problemas por onde andou. O Bartleby em questão era um funcionário da Skol que chegava sempre um minuto antes de passar seu cartão num ponto eletrônico. Esperava a hora certa, centrado, com os olhos no celular, e logo que o minuto mudava, passava o cartão. E assim o fez por um ano inteiro. Mais tarde, alguém da justiça trabalhista deduziu, a partir dos registros da máquina, que o ponto estava adulterado, e a empresa teve que responder a um processo. Perdeu.

O tempo brasileiro não é para amadores. Marcamos algo, sempre, para começar umas duas horas depois. Uma hora são sessenta minutos. Um minuto sessenta segundos. Um segundo, mil milésimos. Mas o leitor não clicou em meu link para que lhe jogassem na cara as informações mais óbvias do mundo. Por isso, quero explicar o que não é tão evidente, a desmedida das desmedidas, que é o uso paradoxal do diminutivo, uma vez que, na hora de medir o tempo, ele indica na verdade um aumento. Um “segundinho” não é medido em milésimos, mas em minutos. Já um “minutinho” é medido em dezenas de minutos. Uma “horinha” pode levar um tempão – e se alguém lhe disser que o serviço ou o bife ficará pronto em apenas “uma hora de relógio”, é melhor sentar-se com seu smartphone, porque você vai esperar por uma eternidade.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Desmedidas brasileiras

  1. Me lembrei de uma vez, no meio de uma discussão boba, eu fiz a besteira de falar: “este livrinho”, fazendo uma referência ao livro do Lima Barreto, o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, quase me lincharam por isso, me acusando até de racismo e outras coisas, no fim das contas usaram esse “espantalho” contra mim o tempo todo, e discussão que era sobre outro assunto ficou esquecida.
    A propósito, ótimo texto Paulo!

  2. Hahahaha. Nem tinha me lembrado que o diminutivo também pode ser tido como depreciativo. Uma coisa “bonitinha” pode ser tanto graciosa como “não muito bela, tampouco feia”.

  3. Pingback: Falácias familiares | Paulo Raviere

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s