O que podemos aprender com o Bispo Bienvenu

Tenho o mau hábito de ler os caras de direita, que escrevem melhor, e de bater papo com os de esquerda, que conversam melhor. Aí outro dia li no facebook um comentário de um eminente intelectual de direita, penso até que era editor ou escritor, pesquisador, talvez. O cara dizia coisas interessantes; pensava, e não apenas repetia, sem aquela enrolação de Power Rangers e coisa e tal, mas veio com algo assim: “Antônio Fernando Borges talvez seja o melhor escritor de sua geração, mas antes preciso averiguar se ele é de direita”. Eis a síntese da estupidez de nossos intelectuais, de leste a oeste.

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Crise? Nisso os franceses são mestres. Em vez de coreografias, santos quebrados, e gente xingando muito na internet, querelas entre pessoas de opiniões divergentes não raramente acabavam em pólvora e sangue. Uma vez, um sujeito foi atacado por uma multidão por causa de uma opinião, e terminou cozido e devorado (os canibais foram devidamente enforcados depois). Desde a Revolução de 1789, quando foi inventado a esquerda e a direita, os franceses ocasionalmente se veem divididos. Danton ou Robespierre, império ou república, Dreyfus ou anti-Dreyfus, colaboração ou resistência. Victor Hugo entendeu isso como poucos, e criou seus personagens não como estereótipos que se definem de acordo com essas escolhas, mas como pessoas reais com diversas nuances. Logo no começo de Os Miseráveis, ele nos apresenta ao homem mais generoso do mundo, o bispo Bienvenu Myriel, um sujeito tão bondoso que era capaz de defender o bandido que acabara de roubá-lo logo após ele oferecer-lhe uma grande ajuda. Havia apenas um homem que ele não gostava, e nele o bispo concentrava todo o seu desprezo. Tal homem, o octagenário G., que por toda sua vida havia defendido ideias opostas às de Bienvenu, vivia sozinho. Tendo recebido a notícia de que ele estava nas últimas, a obrigação do ofício fez com que o bispo, ainda que de malgrado, o visitasse. O que ele descobriu? Que, defendendo ideias que ele acreditava monstruosas, G. era um homem virtuoso. Sua essência bondosa, ainda que por caminhos diferentes, era a mesma.

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Nossas opções políticas e ideológicas são apenas uma parte de nós. Somos muito mais. Ninguém merece apanhar por isso. Se você não gosta, é só parar de seguir.

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Vivemos, no Brasil, uma França bárbara – uma França sem os poetas, os cozinheiros e os pintores. Nosso violento maniqueísmo, este diminuto demônio que até a Copa das Confederações só pensava em futebol, escapuliu-se para o cotidiano. Em um texto esclarecedor, Eliane Brum explica o fenômeno. Guardávamos para nós e nossos próximos nossas ideias mais desprezíveis, e não parecíamos tão selvagens ao vizinho com quem nos encontrávamos no elevador. Com as redes sociais, a cortina desabou. Só que em vez de nos refrearmos para não ofender nossos amigos, passamos a fazer o oposto; criamos uma máquina acusadora, absolutamente parcial, contraditória, aleatória e descontrolada. Reivindicamos o direito de julgar qualquer um que se atreva a passar diante de nossa mira. Agora, às vésperas de uma guerra civil, tendo chegado ao ponto de sairmos da frente do PC para gratuitamente agredir aqueles passantes que parecem pensar de modo diverso, é hora de perguntar: como você julgaria a obra de Shakespeare se ele fosse petista? Um Beethoven tucano agradaria a seus ouvidos? Muito fácil responder, quando a pessoa em questão morreu há tanto tempo. Mas e se, em vez de Shakespeare e Beethoven, usássemos nomes de artistas vivos que manifestam suas ideologias?

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Isto é engraçado, independentemente de sua orientação política.

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Rodrigo Constantino, um dos arquitetos intelectuais da guerra civil, e que provavelmente estará tomando margaritas na Flórida quando a pólvora começar a queimar por aqui, recentemente publicou uma lista com os nomes de artistas e intelectuais a serem boicotados por quem deseja livrar o Brasil da corrupção (sim, faz sentido pra certas pessoas). Nomes muitos deles inevitáveis em nossa cultura, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Laerte e Wagner Moura. Tal lista, escrita em seu tradicional estilo hiperbólico e bajulador (ele fala exatamente o que seus leitores querem ouvir), um amontoado de expressões batidas (seu legado intelectual), é a encarnação do que há de mais estúpido nisso tudo que vivemos, que é o desejo de transformar o outro num monstro, num nazista, como meio de justificar a necessidade de atacar estranhos gratuitamente. Paulo Nogueira, apesar de mais comedido, seria seu nêmesis, seu oposto, o Constantino de esquerda.

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Isto é impressionante, independentemente de sua orientação política.

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O complexo de vira-latas ainda está entranhado em nossa psique. Wagner Moura, brasileiro, é atacado despudoradamente por gente como Constantino, mas bastou que uma franzina atriz de Hollywood lhe contasse uma piadinha, e Bolsonaro – o terrível Hitler tupiniquim, o pica das galáxias, “ando-armado-e-não-tenho-medo-de-ninguém” – não soube o que fazer. “Não estou entendendo nada”, disse, dando um patético risinho envergonhado de pré-adolescente e colocando o rabo entre as pernas. De frente com uma mulher mais bruta, uma Lena Dunham, o coitado sairia com as calças borradas. Compare sua malvadeza com a de Trump; este topetudo Majin Boo Criança não hesitaria em transformá-la em biscoito antes de engoli-la.

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Isto é belo e profundo, independentemente de sua orientação política.

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Olavo de Carvalho, um dos intelectuais de direita que sempre reclamaram da arte influenciada pela ideologia, é incapaz de apreciar uma canção de Chico, apenas porque ele é petista. E antes que os intelectuais de esquerda me levantem em seus braços, lhes lembro que vocês fizeram o mesmo com Lobão. Ninguém nunca gostou dele, é bem verdade, mas antes disso tudo aí, quase todo mundo gostava de suas músicas.

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Isto é interessante, independentemente de sua orientação política.

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O infame Constantino, com sua habitual falta de noção, se anuncia como um novo “McCarthy”. Em minha inocência, de primeira pensei que o cara se comparava ao McCarthy de Meridiano de Sangue: “que presunçoso”. Mas é pior. Constantino se compara ao McCarthy da censura, aquele que dizia que os quadrinhos acabariam com as mentes das crianças. Logo em seguida foi bloqueado por sete dias pelo “facebook petralha” do qual tanto depende. Esbravejou como um cão barulhento que torce para que jamais alcance o carro. Ser censurado é a coisa mais engraçada que poderia acontecer com um cara que se anuncia como “o novo McCarthy”. Não me aguentei quando vi os furiosos comentários desse Policarpo Quaresma da ignorância. Genuinamente divertido, mas também uma barbaridade. Há algo maior em questão. Não tendo cometido nenhum abuso da lei, o fanfarrão do Constantino deveria ter todo o direito de publicar suas baboseiras.

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7 pensamentos sobre “O que podemos aprender com o Bispo Bienvenu

  1. Eu adoro esse personagem do Victor Hugo, a cena que ele defende o Jean Valjean, é uma das mais tocantes da literatura universal, Paulo você já leu Jorge Amado, e se leu o que achou?
    A propósito ótimo texto, concordando plenamente com você e que seleção de vídeos maravilhosa.

  2. Tiago, já conhecia a canção de Gil? Essa e Chão de Estrelas são minhas letras favoritas do cancioneiro nacional. Escrevi aqui um texto sobre letras de música ruins, há uns anos.

    Os Miseráveis é cheio de cenas bem tocantes, tipo aquela logo após a do esgoto, com Javert. JA é um ótimo criador de personagens; vibrantes, vivos, coloridos, não é?

  3. Eu não conhecia essa canção do Gil,também gosto bastante dessa cena do esgoto, eu estou lendo algumas obras do Jorge que eu tenho em casa, e é impressionante a influência do Victor Hugo nas obras do Jorge.

  4. Maravilha de post, Paulo! Muita coisa aí. Sua apresentação é tão boa que torna um texto do Olavo de Carvalho digerível. E, nisso, temos de ter cuidado em não cairmos naquela falácia (aliás, francesa), de que “tudo compreender é tudo perdoar”. Um escritor tem que ser compreendido pela totalidade de sua obra e por sua postura artística (ia dizendo “espiritual”, mas vai-se saber como interpretar a riqueza dessa palavra?), e, nisso, gente igual a Olavo não se firma diante o descompasso e a fraqueza de sua estatura. Basta ler alguns de seus textos nas redes sociais para descobrir a empáfia (que, conforme a infância do pensamento nacional que ele mesmo diagnostica no link, pode gerar algo perigoso, como o culto à personalidade). Ademais, intelectuais como ele, preste atenção, só fala o óbvio. E, uma coisa é o ódio, outra coisa a postura marcada de repúdio. A crítica construtiva exige repúdio. Constantino é histriônico e improvável, mas quanto mais se fala dele, mais seu surrealismo se torna corriqueiro e aceitável. Não sei o porque de se falar dele: o mais saudável para todo mundo é a rejeição.

    Mas é muito fácil: Shakespeare é de direita. Beethoven é de esquerda. Não é óbvio?

  5. É isso o que acho de mais sinistro em toda esta patacoada: os dois lados se acusam mutuamente das mesmas coisas, coisas que ambos fazem (tipo o boicote a Lobão/Chico). Olavo tem textos bem interessantes sobre literatura, mas aí abro o Twitter dele pra acompanhar sua briga com Constantino e Azevedo, e vejo o apenas um hater ordinário, em nada diferente do idiota que gosta de brigar em fóruns de futebol. Nisso, acho que o intelectual de direita mais civilizado é seu amigo, Rodrigo Gurgel que, embora irredutível em suas opiniões, está sempre disposto a conversar como gente.

    Já um cara como Constantino receber atenção é tão tosco quanto Ronaldinho Gaucho receber uma homenagem da ABL – só pra você ver o nível da coisa. Mas, apesar de ainda estar rindo do “novo McCarthy” censurado, tão patético quanto um “novo Nero” que tem medo do fogo, acho que ele não deveria ter sido bloqueado.

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