a húbris é mais forte que o medo

Depois disso pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo, não a a húbris a cólera, a desmedida, o vinho que transborda na taça, mas a húbris a energia motor, o ímpeto de viver, o calor, e o medo é rotina e a húbris é caos, e o medo é um céu azul e a húbris é um terremoto, e o medo é tédio e a húbris é ternura, e dirigi até o capão com a roupa do corpo, embebedei com leffe e cravinho, dormi com o carro aberto e a chave dentro, já todo detonado por causa da buraqueira, e tive uma conversa longa séria e reconfortante com minha chefe e outra leve curta e deliciosa com uma ex-aluna do cabelo rosa, brinquei de carrinho, desenhei, soletrei, levei meu filho pra comer pastel, organizei uns 500 livros, reli tudo sobre ensaísmo, aprendi a tocar “Elephant gun” no ukulelê, revisei Hazlitt e bebi uma garrafa de vinho suave com um amigo músico com quem não conversava fazia muito tempo e uma de vinho seco com um primo com quem converso sempre, transei com uma mulher que não gostava e repeti pra mim mesmo que não iria mais fazer isso e aí dei um fora em Paula Fernandes porque Clarice Falcão estava me dando mole, comi feijoada com um glutão que depois disso foi ver aulas de filosofia no YouTube, comi água com Heineken com uma ex-companheira de banda e um casal tatuado e fiquei com uma garota que já amei amargamente tanto quanto meus volumes de Proust, joguei travinha com um policial separado que também é pai, embebedei com conhaque no show de Asley e Scambo enquanto me esforçava para dançar com a irmã de uma grande amiga, fui ao Goiás morrendo de ressaca, pesquei no Araguaia com meu pai e fui quem pegou mais peixes, entrevistei um barqueiro, e no dia em que completei 30 anos Dilma foi impedida, peguei meu maior peixe, combinei com meu primo caminhoneiro de ir com ele ao Pará, embebedei com Chivas, e exatamente quando meu bolo surpresa foi posto na mesa esse meu primo descobriu que o pai dele acabara de falecer e voltamos para casa na hora, minha segunda viagem alcoolizado. Passei uma tarde com a menina que amara amargamente, passeei com minha filha, tive conversas online excelentes com um cartunista que foi meu colega e um gaúcho que nunca vi, escrevi um obituário, e uma esquina sobre a pescaria, comprei a piauí com meu texto, li Robert Capa, vi uma cerimônia apresentada pela melhor aluna que já tive, embebedei com Heineken e Baden-baden e meu primo órfão de pai me agradeceu pois se eu não o tivesse pressionado a mostrar seu filho a meu tio ele carregaria essa culpa por toda a vida, deixei a louca de minha ex-companheira de banda dirigir meu carro na contramão, dirigi até Salvador e a ressaca caiu sobre mim repentinamente e ficou até o meio da viagem, bebi pouco com meu compadre, fui driblado por um poeta laureado, comprei Sedaris, Mitchell, Nabokov, esqueci meia garrafa de cravinho no Porto Moreira, cantei mil vezes um verso do forrozeiro Santana e “Juizo Final” numa versão perfeita com os reis do violão e do bandolim, dancei forró com a galeguinha mais malandra da Bahia, voei para Brasília um pouco embriagado e sonhei com a irmã de meu compadre, irritamos passageiros (“que cherchent-ils au ciel tous ces aveugles?”), comi linguiça na feira do produtor, vi gêmeas recém-nascidas e comi rabada na casa do avô coruja, fui importunado por um poeta drogado, não embebedei após 28 cervas com um artista plástico meio punk que conhece todas as músicas do mundo, recebi um sermão de um editor, comprei Kohan, Kertesz, Marías, Márai, Malcolm, Chatwin, Francis, e um Calvino que li no mesmo dia, fui emboscado por um sarau de poesia enquanto discutia “hodor”, declamei um soneto de Bruno Tolentino, falei mal de Brasília para o máximo de brasilienses, viajei às 3h da manhã com um intelectual psicótico completamente embriagado que queria porque queria comprar cocaína num lugar perigoso e pensei que algo de ruim poderia acontecer, mas estava preparado para isso, pois a húbris é mais forte que o medo e que se foda toda esta merda, eu vou é pra Cusco. Caminhei no parque com o marido de minha tia, embebedei de dia com domecq e black tiger comendo coisa pesada e de noite com Porca de Murça, ice e margaritas, vi um show de jazz num posto de gasolina, comprei outro Márai, vi Tirúbio Santos desenhar o sertão com um violão, a ocupação zumbi da funarte e minha irmã embebedar com duas garrafas de ice, vi uns Mondrians meio pebas, comi madeleine com chá e não escrevi nada depois, comprei uma passagem para o Acre, um Vidal e um Manguel, vi o Atlético perder para o Real, ganhei sozinho no sinuca em dupla, vi o compadre dormir no bar pela décima oitava vez na semana, comprei pelúcias e cervejas com o artista meio punk e bebemos ouvindo Muse e Rammstein, imitei o Mr. Bob Dylan, you know, não embebedei com mojitos de montilla num show meio hipster onde encontrei um conterrâneo de Irecê, celebrei o aniversário de minha irmã com crepe e sushi e percebi que já fazia três semanas que eu não tinha nenhum de meus pesadelos recorrentes (os medos diurnos em estado exagerado, o medo de que algo aconteça com as crianças, ou que eu morra amanhã, ou que eu seja esquecido em vida), comprei Flaubert e uma almofada inútil e me enfurnei num ônibus por dois dias e meio e desenvolvi a inédita habilidade de ler e escrever em movimento, e li Márai e grande parte do Manguel (na volta ainda leria Kohan), saí com uma menina do cabelo azul que conheci no tinder, suei como nunca antes, conheci uma dupla quixotesca que me convidou para alimentar um jacaré e depois conhecer a cidade, entrei no carro velho e a mulher me apontou uma arma e eu tinha esquecido no bolso os R$200 que tinha reservado para o Acre e pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo e meti a mão na arma e vi que ela atirava perfume, e o índio gigante me disse que já vira muitas armas e eu fiquei cismado pelo resto do dia e com eles comi tacacá, tucupi, cupuaçu e açaí, recebi um superlike e um estímulo incomensurável do editor, e esperei por 17 horas na rodoviária internacional e li Manguel, escrevi um poema péssimo sobre o meu ideal feminino, e um manuscrito não ficcional impublicável de 13 páginas, vi dois péssimos filmes dublados após um mês inteiro sem ver absolutamente nada, dei meu pacote de amendoim para um senegalês chamado Barak que falava um francês incompreensível, às 5h30 eu era o estrangeiro num busu peruano, tomei chichas e comi pollipapas com eles em mesas compartilhadas e cheguei em Cusco às 3h da manhã sentindo um frio da moléstia pois fazia 4 graus e eu ainda não tinha onde dormir, uma blogueira inglesa tentou me impressionar depois de ver meu manuscrito, comprei Llosas, um gorro, chaveiros, uma boneca, subi Sacsaywayman, prosei com um belga, vi um jogo da NBA, embebedei com blood bombs e cusqueñas no beer pong com uns israelenses desgraçados, comi ceviche e choclo, conheci um alemão que me atendera na noite anterior e me fez contar as cinco mentiras de Loki (1-I’m not going out tonight, 2- ok, I’m going out, but I’m not drinking, 3 – ok, I’m drinking, but I’m going home early, 4- ok, I’m getting smashed, but I’m leaving tomorrow, e 5 – I love you!?), apostei rodadas de bebida nos dados (perdi uma vez para uma polonesa), embebedei com pisco sour, white russian, sambuca, tequila, gliders, pisco puro, lowenbrau, e sabe-se lá o que mais, neguei weed (makes me kinda paranoid) acordei com vontade de vomitar, mas tinha que esperar uma van, e passei por uma estrada sem proteção a mil metros de altura com um motorista de húbris mais forte que a minha, e mesmo depois de dormir ainda queria vomitar e mesmo com a van parada ainda queria vomitar e fiz muita amizade com um mendozino que efetivamente vomitou do meu lado e nenhuma com o peruano de muletas que ia do lado dele de carona e vomitou mais ainda, uma fila de regurgitadores, e fiz amizade com uns chilenos e umas brasileiras contando essa história e comprando uma coca, os enganei (fi-los crer que sou um gênio dos números), neguei marijuana (“me quedo paranoico”), não embebedei com pisco sour, acordei às 3h30, masquei folhas de coca, citei Tchekhov para umas alemãs (“ich sterbe”) e fiz a trilha até Machu Picchu. Fui convencido a ficar mais um dia mesmo tendo pago apenas por um, joguei jenga, fiz a trilha de volta com pouca grana e sem saber se teria de pagar para voltar para Cusco e disse fodase toda ehta mierda, la hubris eh mah fuerte que la hambre e gastei quase tudo em cusqueñas e entrei numa van no lugar de um tal Paolo Moralez que nem sei se apareceu e foi a desgraça porque o hideputa do conductor não parava em lugar algum e descobri que nem a húbris nem o medo nem uma estrada mortal são mais fortes que uma bexiga prestes a estourar e a menina mais bonita da cidade bebeu todo o seu gatorade e me deu a garrafa mas eu não consegui mijar lá e a van parou dois minutos depois, ouvi um disco de música peruana genial e não tinha carga no celular para gravar no shazam, entrei de malandro numa boate e embebedei com TUDO, beijei uma americana que tentou bafar meu chapéu, e me lembro vagamente de uma xará de minha irmã, dormi na boate, acordei no albergue e achei 110 soles dentro do Kohan, ajudei uma abuelita a levantar um menino que se jogara na calçada, bebi um litro de água sentado na esquina tomando sol e um peruano com a camisa da argentina tentou me vender marijuana (“ahora no, gracias, ehtoy de resaca, pero conohco unos tipos que quieren”), comi chicken wings e dei minha coca para um cara de Liverpool, comprei um xale, uma aquarela, lhaminhas e mais um gorro, tentei em vão ligar para uma chica do tinder e vendo o movimento da rua me esbarrei com a moça do gatorade e sua esposa, fomos para seu albergue, ouvimos “Home” e Bob Marley, recusei um cachimbo (“senão vou achar que todos no ônibus querem me roubar”), me apaixonei por elas, atravessamos Cusco correndo duas vezes, a segunda com todas as minhas coisas, e confirmei que o ônibus se atrasaria, e confirmei que tenho horror ao que é permanente, e confirmei que não tenho mais medo de nada.

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5 pensamentos sobre “a húbris é mais forte que o medo

  1. Eu só acredito na parte do fora na Paula Fernandes! Ao ler os textos do meu estimado amigo Paulo Raviere Barreto Dourado, eu percebo que deveria ter estudado mais, lido mais… rsrsr

  2. Pingback: One day, baby, we’ll be old | Paulo Raviere

  3. Pingback: O ano infame | Paulo Raviere

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