Saltar num lago sem saber

Acontece que a cidade mais populosa do Brasil é também a mais solitária. Minha melhor amiga – a única pessoa com quem falo de tudo (vá, de quase tudo, hehehe) – tá morando lá, sozinha, e ontem bastou uma única palavra minha, uma palavra escrita, enviada pelo celular, nem era uma palavra bonita, para que ela mandasse de volta um áudio soluçante, choroso – e eu não reconheci sua voz. A garota estava emocionada. Depois de nosso habitual intercâmbio de desilusões irônicas, ela me revelou que a partir de então se tornaria gente ruim.

Digo a ela, basicamente, que isso não funciona, que as pessoas não se tornam ruins assim da noite para o dia, que é preciso um esforço intelectual incomensurável para se destruir uma moral interna edificada por durante décadas, e que, a conhecendo, o máximo que ela conseguiria, se muito, seria machucar alguém para depois sofrer bastante por isso – talvez mais que a suas possíveis vítimas. Eu sei porque também já caminhei por essa trilha – carrego uma metrópole dentro de mim.

A maldade, para funcionar, tem que vir ou naturalmente ou inconscientemente, sem se reconhecer como maldade. Tentar se tornar gente ruim não o sendo é como tentar se lembrar de se esquecer; é como se esforçar para não se importar. Ali não há melhora, não há alegria, não há prazer que não se transforme num langor que haverá de ser carregado por muito tempo.

Como proceder, então? O que fazer para sair deste limbo, desta melancolia, fruto único de sua bondade constante? Como se proteger do mal discreto e devagar que os outros nos causam rotineiramente sem que lhes tenhamos feito nada?

20160607_164710Não se importar me parece a única chance. Entretanto, como acabei de dizer, isso não acontece deliberadamente. Como a maldade, é preciso que seja natural ou inconsciente. Olhe para as crianças. E, caso exista alguma atitude a ser tomada, não existe fórmula; varia. Muita gente escapa ao colocar sua religião acima do próprio conforto; outros mergulham em alguma filosofia. Alguns transferem suas responsabilidades emocionais – as culpas, as esperanças – para outras pessoas, para o trabalho, o dinheiro, o futebol, para algum projeto, para a política. Uns se alienam.

Para mim, o que funcionou foi ligar o “foda-se”. Fazer o que tenho vontade mesmo sabendo das possibilidades desastrosas que poderão provir dessas decisões – quando elas se limitam a mim. Imagine que há um lago em sua frente e você não sabe nada sobre ele, se é fundo, sem tem pedras, se tem piranha ou jacaré. Mesmo sabendo que você pode se estropiar todo, vá lá, se jogue lá dentro só porque você tá com uma vontade da porra de pular. Garanto que quando você estiver todo lascado, sentido dor, se recuperando da pancada, vai ser muito mais fácil sarar disso que do arrependimento por ter feito mal a alguém gratuitamente.