Contradições cotidianas

Estas notas foram originalmente pensadas para serem postadas no Facebook, como fazem brilhantemente Mariana Carvalho, Juliano Santana e Rodolfo Carneiro. Mas aí fui procurar uma das que Mari joga todos os dias em seu perfil e vi a trabalheira pra encontrar. O face é o buraco negro do insight. Apesar da recompensa imediata que oferta – o feedback, os comentários, os coraçõezinhos – pra mim não vale a pena. Minhas zombarias são um tanto vagabundas para uma postagem de blog, essa coisa comparativamente sisuda, mas ao menos aqui fica fácil achar depois. Conforme juntar mais notas, faço outro post semelhante (aproveitei e recuperei umas velhas do face; vocês irão reconhecê-las).

*

Meu conselho para os jovens: nunca, jamais encontre cem reais na calçada. Na hora a sensação é boa, mas a ressaca depois é de lascar.

*

Na casa de minha vó um opina na aparência do outro. Minha segunda comadre mesmo acha um absurdo que eu continue a usar uma camisa adquirida em agosto do ano 2000. Que posso fazer se, apesar de feia, ela continua inteira e confortável? Por outro lado, sempre que tem alguma festa mais solene, vejo as jovens matronas comprarem vestidos formais que andam pelos 400 pilas. “Qua-tro-cen-tos pilas num vestido?”, pergunto, tendo já ouvido a resposta várias vezes. “Sim”, me dizem com vergonha, “mas um vestido desses dura a vida inteira”. A ironia é que não poderão usar na solenidade seguinte, dois anos depois, porque senão nas fotos vai ficar parecendo que elas só têm um vestido. Agora me diga, pra que diabos serve um vestido que dura a vida inteira mas só pode ser usado uma vez?

*

GoT é inverossímil. O problema nem tá nos dragões e no deus ex machina de Jon Snow, mas no fato de todas as mortes serem violentas. Onde estão os mortos por diarréia, cancer, velhice, acidente de cavalo, afogamento, infarto, cansaço? Que mundo terrível é esse em que todo mundo é obrigatoriamente torturado, esfaqueado, assassinado?

*

É facil lutar pelos direitos de quem concorda com você, mas a prova mesmo é defender (ao menos deixar quieto) quem faz algo que você despreza profundamente. Vejo a galera em massa compartilhando memes irônicos ou bonitinhos sobre a liberdade de cada um dizer e fazer o que quiser, ir aonde quiser, amar como quiser. Porém basta o sujeito baixar o famigerado Pokémon Go que começa a indaga, uns defendendo, outros atacando. Acho tão empolgante quanto uma lata de kronenbier, mas porra, o camarada não precisa se justificar pra mim com dados de tímidos saindo de casa ou de vampiros tomando sol por causa do jogo. Se acha legal tá beleza, velho, não tem que se explicar. Fica difícil lutar pelas grandes causas se você não aceita nem que o vizinho jogue seu Pokémon em paz.

*

As Testemunhas de Jeová que todo domingo vêm aqui deixar uma revistinha e citar exatamente o mesmo versículo de Timóteo é que estão certas: vivemos, hoje mesmo, a pior das épocas. Cheguei a esta constatação após perceber que, naqueles testes sobre quem fomos em vidas passadas – uma variação virtual do tarô –, JAMAIS cai uma pessoa comum. Ninguém foi índio, marceneiro, caixeiro-viajante, ladrão de pão, feiticeiro ou mercador de escravos – todos nós, sem exceção, fomos alguma celebridade histórica. A conclusão que se tira desses resultados, tão evidente que me ruboriza as bochechas, é que as pessoas comuns não existiam. Procure nos livros de história – no passado todos foram notáveis. Tendo em vista o elevado número de pessoas comuns com quem convivo – comuns, independentemente de meu apreço por elas e de suas qualidades ou defeitos enquanto indivíduos – e ainda exorbitância de pessoas comuns que desconheço, mas sei existirem (via fotos da Índia e likes no instagram de Neymar), não me é mais possível discordar de Timóteo e das TJs. Manrique estava certo: “cualquiera tiempo pasado fue mejor”.

*

Balde de gelo… Pfff… Fala sério, aqui tá tão quente que um conhecido meu instalou umas placas de energia heliotérmica e o sol queimou o negócio. Balde de gelo é uma bênção. Desafio mesmo é um balde de água morna.

*

Após a eleição, pensei numa coisa engraçada (sem ironia ou indignação). O maior doador para as campanhas dos candidatos foi a Friboi, o frigorífico mais rico do mundo, que doou quantias iguais (R$5 mi) a Aécio e a Dilma. Não entendo nada de campanha política, mas acho que boa parte dessa grana é convertida nas propagandas televisivas que vemos de graça e nos panfletos e adesivos que no fim vão para o lixo.

Aí quando eu estava jogando fora a papelada, pensei ser bem melhor encontrar umas picanhas na caixa de correio. A gente não pode entrar num açougue e pegar de graça meio quilo de filé, mas a papelada sem futuro sim. Não vem tudo da Friboi? Eu gosto mais de carne que de panfleto. Já imaginou R$10 mi em carne? Queria até poder converter, tipo “junte um quilo de propagandas e troque por meio quilo de cupim”.

Pensei ainda nos políticos com a mão esticada e os olhos arqueados em posição piedosa, pedindo umas doações aos executivos da carne:

“Pelamordedeus. Uma ajudinha ao político carente?”

Os executivos discutem entre si.

“Ih, não dê não, que esse cara vai gastar tudo em panfleto”.

“Será?”

“Claro. E só você virar as costas e ele já tá lá na primeira gráfica imprimindo propaganda. Político só quer saber dessas coisas. Em vez de dar dinheiro para ele torrar com papel, é melhor oferecer a ele algo que ele realmente precisa”.

O executivo então se dirige ao político coitado.

“Escuta, senhor. Podemos ajudar, mas em vez de te dar dinheiro, vamos te entregar tudo em carne, tá bem?”

Desconcertado, o miserável agradece sem saber o que fazer com a tonelada de alcatra a ser recebida nos próximos dias.

Anúncios

Um pensamento sobre “Contradições cotidianas

  1. Pingback: Contradições cotidianas (II) | Paulo Raviere

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s