Os Livros e os Dias (parte 1)

This is the way the world ends

Às vezes parece que a gente fica o tempo inteiro pesquisando, lendo, caçando referências, assistindo coisa nova, com o único nobre propósito de esperar dezembro para fazer ou checar listas. Mas não é; eu realmente aprecio o que consumo. Este texto é sobre duas experiências de leitura, uma em janeiro e outra agora esta semana. Como vocês sabem, além das listas, tenho por mania começar cada ano com um livro escrito por um Nobel de Literatura. No dia três de janeiro, estava numa lanchonete lendo a segunda novela de A Conexão Bellarosa, de Saul Bellow, enquanto esperava meu sanduíche, quando recebi a notícia de que um dos primos de meus filhos acabara de sofrer um acidente fatal.

Ele havia completado quatro anos um mês antes. Assim como hoje, eu estava de férias. Maria faria um ano dois dias depois, e programávamos uma festinha. Foi a única vez em que chorei no ano inteiro, ignorando-se as duas lágrimas carregadas de culpa que deixei para o Nobel de Bob Dylan. Enquanto pensei: “mais uma prova definitiva de que não existe deus nenhum ”, os familiares viram no acidente motivo para a reafirmação da existência divina. Mas não sou ninguém para interferir nas formas de conforto alheias.

Um dia depois, exatamente no momento em que o caixão da criança saiu da igreja começou um tempestade – a maior chuva do ano. Muitos a perceberam como um choro celestial; eu como uma espantosa coincidência. Ao chegar em casa, em outra cidade, descobri que havia uma infiltração em minha biblioteca. A água escorria como numa torneira e estava batendo da estante móvel. Alguns livros haviam sido danificados. Não foi fácil mover por meio metro a estante com trezentos exemplares – eu não dormira na noite anterior, estava esgotado. Minha biblioteca tinha uns três metros quadrados. Tive que retirar cada livro, empilhá-los onde não houvesse risco, mudar a estante e rearrumá-los. Não contei isso pra ninguém. Poderia ser lido como uma punição por meu ateísmo. I’ll show you fear in a handful of dust.

Por residir na cidade da mãe de meus filhos, o garoto acidentado era mais próximo deles que de mim. Mesmo assim, não pensei em outra coisa por durante muitas, mas muitas semanas. Escrevi longas mensagens para amigos virtuais, mas não mandei nenhuma. Esbocei um poema sobre a morte de quem não sabia o que era a morte. Tive insônia e pesadelos. Antônio tinha quase três anos; decidimos privá-lo do sofrimento, uma vez que ele naturalmente se esqueceria da existência do priminho. No dia da missa de sétimo dia, os dois primos mais velhos passaram uma tarde conosco. Eles conviviam com o menino, e por isso insistiam em falar sobre o assunto que os atormentava. Já entendiam bem o que tinha acontecido e, bastava um vacilo, tentavam explicar pra Antônio. Na viagem de volta, o mais velho desafivelou o cinto como provocação e perguntou enraivado se aquilo era só por causa do acidente. Também fez piadas e canções jocosas sobre o ocorrido.

Pensei em revisitar “Sobre a Morte de Criancinhas”, de Leigh Hunt, e nos dias seguintes consegui algum conforto com os “Quatro Quartetos” de Eliot – a mais bela paráfrase do Eclesiastes – o cabeçalho deste blog foi tirado dali. Time the destroyer is time the preserver. Eliot é meu poeta favorito, e sempre o releio aos nacos. Vocês já devem saber que tempero tanto meus traumas como minhas alegrias com literatura e bebida. Tento ler apenas livros bons; mas nosso tempo de vida é muito incerto e decidi que dedicaria 2016 a obras de qualidade incontestável. Li, entre outros, O Lobo do Mar, Notas do Subsolo, Luz em agosto, os ensaios de Orwell, metade de Anna Karenina, reli Hamlet, e quando dei por mim já estava mergulhado na literatura húngara.

Porém april is the cruellest month, e todos os projetos foram por água abaixo. Me separei e fiquei um bom tempo viajando sem planos, como um personagem de Wim Wenders – sem saber onde dormir, o que comer, com quem conversar; a vida intelectual ficou ainda mais largada, apesar de continuar ali, pesada, sonolenta, balançando a cabeça tal qual um compadre embriagado. Em dois meses não pensei uma única vez na tragédia do começo do ano, que tanto ocupara meus pensamentos. Não abro o Bellow desde o dia três de janeiro.

Anúncios

Um pensamento sobre “Os Livros e os Dias (parte 1)

  1. Pingback: O ano infame | Paulo Raviere

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s