O ano infame

Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé, en el quinientos seis y en el dos mil también.
Enrique Santos Discépolo

Foi um aninho bosta para todo mundo, fora Temer. Como possuo a desventura de dividir uma mesa de almoço com Cassandra, aquela menina troiana que previa coisas tão absurdas e exageradas que só lhe davam crédito depois de consumados os fatos, não me deixam esquecer que ainda faltam alguns dias. Tendo já previsto tudo isto que estamos vivendo, tais espíritos céticos nos alertam para a data. O ano ainda não chegou ao fim. Num 28 de dezembro um terremoto na Sicília acabou levando 100 mil. Enquanto houver vida existe a possibilidade da tragédia.

E a ironia é que Enrique Santos Discépolo escreveu “Cambalache” em 1934, antes de acontecerem as maiores desgraças que marcaram esse “despliegue de maldad” chamado século XX. Ninguém aprendeu nada de lá pra cá – o mundo continua uma porcaria e 2016 foi um ano interessante – no sentido maldito da palavra: desgraças causam interesse. Não vejo como desejar um feliz 2017 pra ninguém, porque acredito que seria recebido sem muita empolgação – foi um aninho merda em todos os aspectos. Político, econômico, nos relacionamentos, futebolístico, filosófico, intelectual, familiar, invente qualquer categoria e te direi porque foi uma merda. Meus primeiros dias no ano foram marcados por uma tragédia, que apenas se acumulou com as merdas conseguintes; tive alguns trunfos no aspecto intelectual e no pessoal guardo em meu coração uma semana no Peru e uma em Salvador, além de uma meia dúzia de noites, e só. Foram os únicos dias em que tive paz. Mas a sensação não é só minha; todos sacolejamos nesta mesma stultifera navis. A única lição a se tirar disso tudo é que a história nada ensina – a ignorância, o azar, a truculência são forças mais poderosas que a memória, a sapicência, a precisão, e elas sempre haverão de retornar, como cantou Discépolo pelas vozes de Gardel e Raul. O ano infame não serve sequer de exemplo para os que virão – poderia ser esquecido pelos historiadores. Não existe testemunha ocular que vença uma multidão de imbecis, não existe sábio que derrote a má sorte, não existe santo que sobreviva às maldades cotidianas.

Mas sigamos. O ano infame não é motivo o bastante para eu desistir de cortar o cabelo, de descobrir novas obras, de conversar abertamente com desconhecidos. Sigamos. Enquanto tiver meus filhos, enquanto tiver parentes e amigos, enquanto tiver meus braços, enquanto tiver meus livros, ou seja, enquanto ainda tiver qualquer coisa que ame ou estime, eu sei que é possível – e sei também que 2017 poderá ser pior. Enquanto houver vida existe a possibilidade… Uma vez que não há como descobrir sem encará-lo, que sigamos, então, com coragem. Que se foda toda esta merda, a húbris é mais forte que o medo. Sigamos.

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2 pensamentos sobre “O ano infame

  1. Pra 2017 ser pior eu teria que perder um pé ou um braço, sei lá. Isso deve estragar o ano de alguém. Mas estamos falando de que mesmo? Já esqueci o que foi o ano passado…

    Feliz 2017! ❤

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