Contradições cotidianas (II)

Sequência de notas que evito deixar no face. A explicação detalhada pra isso e a primeira parte podem ser lidas aqui.

***

Jamais boicotaria o Habib’s. Isso demandaria o consumo prévio da gororoba.

***

Uma fala de Gus, da série Love, da Netflix: “Se em Friends Ross faz uma referência a Duro de Matar, isso significa que, no universo de Friends, Duro de Matar existe como filme, certo? Mas então por que quando Bruce Willis aparece depois, como o pai da namorada de Ross, todos os amigos não ficam: ‘puta que pariu, esse cara parece demais com Bruce Willis em Duro de Matar!’, ein?” E aí é que tá! Os caras falam tanto de Uber e Airbnb na série que até parece propaganda. Mas num universo em que eles existem enquanto aplicativos famosos, por que os personagens não falam nada da Netflix, ein? Mickey até vê Duro de Matar no PC, uma maneira de sinalizar a questão, mas no mundo real as pessoas usariam a palavra “Netflix”. O motivo, que também ajuda a explicar a indagação de Gus, é que o pouco que perdem em verossimilhança é recompensado com elegância. Quem aguentaria os personagens da Netflix falando da Netflix?

***

Fora Temer nos discursos, Fora Temer nos grafites, Fora Temer nos perfis, Fora Temer nas estampas das camisas de marca. Fora Temer é o novo Che Guevara.

***

Charles Cosac: “Fiz coisas horríveis¹ em bibliotecas. No mestrado, em Essex, descobri que mudando o livro de lugar poderia ter todos os livros que quisesse. Fiz minha biblioteca dentro da biblioteca, no departamento de química. Espero que ninguém faça o que fiz”.

Isso mostra quão por fora está o ex-editor. Frequento duas bibliotecas, uma pública e uma particular, e os livros que pesquiso no site, se existem, estão todos eles disponíveis. O leitor brasileiro simplesmente não precisa se preocupar em esconder um livro numa biblioteca, porque sabe ser uma coincidência demasiado improvável que alguém mais se interesse por ele.

¹ Sério? Pensei em coisas muito piores.

***

Os elementos da felicidade são (C6H10O5)n, C2H6O e C8H18, necessariamente separados.

***

O couro é o ouro dos outlets. Os vendedores tentam passá-lo adiante como se fosse a nova armadura de Aquiles. “Uma blusa como essa dura a vida inteira!” E assim saio da loja encapuzado, bem aquecido, me sentindo capaz de enfrentar a Guerra da Síria. Em poucos anos estarei lá novamente. Sempre enterrei minhas jaquetas esfarrapadas…

***

Alguns setores não entram em crise em tempos interessantes como o nosso. Produção de notícias, administração de redes sociais e o humor. Sim, você não precisa ser nenhum Groucho Marx pra encher seu portfólio, sendo que até eu penso numa dezena de piadas todos os dias, sem nem me esforçar. Dá e sobra pra fazer sátira, paródia, escracho, boutade, tirinha, cartum, máximas, stand up, gag, esquete, videozinho de YouTube. Por outro lado, os ficcionistas tão lascados… A piada óbvia que ainda não vi foi uma montagem de Bolsonaro bela, recatada e do lar. Mas a coragem e a audácia de nossos deputados na verdade deve ser aplaudida. Que Ustra que nada! Votaram em nome de Deus poucos dias após a confirmação da ameaça de terrorismo no Brasil. Allahu akbar… (Aos incautos, a frase anterior é irônica, tá?) Mas quem sou eu pra dizer qualquer coisa? Depois da ressurreição de Raduan Nassar, eu acredito em TUDO.

***

Ontem descobri que os canalhas de meus amigos andam falando bem de mim pelas costas.

***

Quase morri de rir quando ouvi dizer que uns Policarpo Quaresmas da vida querem transformar o Halloween em “Dia do Saci e seus amigos”, pra gente não “pagar pau pra gringo”. Mas o que há de errado com “Dia das bruxas” (tradição ficcional milenar que passa por Homero, Shakespeare e pelo brasileiríssimo Lobato)? E muito mais importante, quem por acaso tem medo do saci? Qual criança acorda aterrorizada com ele? Falemos de nossos medos infantis. Meu pai e meus tios viveram na roça até a adolescência, no escuro, sem luz, e tinham medo era de defunto, de cascavel, de lacraia, e de minha avó (que é um anjo na Terra). Já eu cresci na cidade e durante a infância nutri certo terror que só faz aumentar conforme envelheço, que é o medo de sequestro e de assalto à mão armada. Portanto taí minha sugestão, genuinamente nacional, baseada num personagem cujo potencial aterrorizador brasileiro algum haverá de negar: DIA DO ASSALTANTE COM ARMA DE FOGO.

***

Você sabe que a coisa tá feia é quando começa a depositar as suas esperanças no Amor e na Literatura.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Contradições cotidianas (II)

  1. Pingback: Falácias familiares | Paulo Raviere

  2. Pingback: Contradições Cotidianas (III) | Paulo Raviere

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s