Longa jornada dentro da noite

Apesar de no meio da semana o frio repentino ter invadido as moradias brasileiras pelas janelas e noticiários, suave era a noite de sexta em que o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, de 49 anos, anunciou os poetas que se apresentariam: Angélica Freitas, Fabiano Calixto, ele próprio, Júlia de Carvalho Hansen, Leda Cartum e Nuno Ramos. “É chegado o tempo dos poetas menores”, emendou em seguida. “A fama de vocês nunca vai ultrapassar o círculo familiar, ou talvez chegue a um ou dois amigos bacanas que se reuniram depois da janta ao redor de uma garrafa de vinho tinto.”

Cerca de quarenta pessoas escutavam a transcriação feita por ele a partir de um texto do sérvio Charles Simic. Sendo alto, troncudo, barbudo e careca, seu capote escuro contribuía para que se parecesse com um espião germânico. “Quando você lê um poema, o que importa não é entendê-lo”, continuou, agora com um parágrafo do catalão Jaime Gil de Biedma, também recriado por ele. A luz era baixa. O minúsculo palco era adornado por lâmpadas vermelhas e amarelas enfileiradas como num enfeite de natal. “O que importa é que se goste. Se você gostar, vai entender cada coisa que haja pra se entender nele. Em um bom poema não é possível se distinguir entre emoção e inteligência.”

O Estúdio Fita Crepe é uma apertada casa de música experimental que fica no primeiro andar de um prédio na Consolação, em São Paulo – um cubo de madeira feito na unha pelo dono, seguindo uma estrutura de isolamento acústico chamada “box in the box”. “Sarau não, pelo amor de deus”, reclamou, “o que fazemos é o oposto de sarau”. Era a quinta edição do Zapoeta, evento do qual ele é um dos curadores e mentores intelectuais. “Surgiu do zap-zap, quer dizer, do WhatsApp”, brincou. “Comecei a mandar poemas inéditos para um grupo de amigos através do aplicativo. Eu colocava um fundo sonoro e falava os poemas diretamente no celular”. Após sua breve aparição, Terron acompanhou os outros poetas da porta de entrada, como um leão de chácara que controla o fluxo de uma boate. “Daí minhas amigas Juliana Vettore e Joana Reiss resolveram ampliar o grupo, convidar outros poetas, e criaram o evento.”

Terron tem participação ativa na vida literária paulistana. Dá palestras, ministra cursos, faz performances e, boêmio, toma umas com literatos de toda estirpe, de aspirantes malditos a veteranos premiados. A disposição para dialogar com novos escritores talvez seja herança do tempo em que ele tinha a Ciência do Acidente, editora independente que durou de 1998 a 2004. “Prefiro conviver com meus personagens que suportar a realidade”, contou. Além dele próprio, editou vários do que atualmente são figuras carimbadas no mundo literário nacional, como Glauco Mattoso, Ronaldo Bressane e Marçal Aquino. Em 2007, passou um mês no Egito, como parte do projeto Amores Expressos. De suas noites árabes saiu Do fundo do poço se vê a lua, seu primeiro romance pela Companhia das Letras, casa em que permanece. “Escrever todos os dias é um plano de fuga e ao mesmo tempo uma desculpa que serve para escapar das obrigações que a realidade impõe.”

ndn jocaO ano de 2017 lhe tem sido especial, pois finalmente foi publicado Noite Dentro da Noite – Uma Autobiografia, sua obra mais ambiciosa. Nele é narrada a movediça história de um menino de onze anos que perde a memória após bater a cabeça numa brincadeira de pique-esconde, no dia em que nevou numa cidadezinha paranaense chamada Medianeira. A partir daí inicia-se a labiríntica investigação de sua existência, semelhante à do Rei Édipo, em que são costuradas histórias aparentemente desconexas. Guerrilheiros do Araguaia, cientistas nazistas, índios com poderes mágicos, estudantes psicopatas e uma planta-monstro chamada pyhareryepypepyhare fazem companhia a personagens baseados em pessoas reais, como Hilda Hilst, Curt Meyer-Clason, Elisabeth Föster-Nietzsche, irmã do filósofo famoso, e até mesmo um sindicalista que concorreu à presidência em 1989 – mencionado apenas por epítetos como “o metalúrgico comunista”.

“O processo de escrita desse romance, que se iniciou em 2007, envolveu centenas de leituras e outras experiências que esqueci por completo ao encerrar o trabalho”, afirmou. “Preenchi três cadernos de cem páginas com anotações, esquemas, esboços, que em grande parte não foram usados para nada. Apaguei cerca de trinta mil palavras da versão final, às quais provavelmente nunca voltarei.” De acordo com ele, o subtítulo “uma autobiografia” foi a última coisa a ser inserida no livro. Logo nas primeiras páginas descobre-se ser isso um artifício como o da Autobiografia de Alice B. Toklas, romance que poderia ser classificado como não ficção, não tivesse na verdade sido escrito por Gertrude Stein. No caso de Terron, a história do menino sem nome é contada segunda pessoa, principalmente por Curt Meyer-Clason, que detém informações detalhadas até mesmo sobre seus medos mais íntimos.

Conforme se avança, fica mais complicado. Conhecemos a suspeita família do protagonista (chamado apenas “você”) que viaja de Medianeira até Curva de Rio Sujo, cidade imaginária na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, que já batizou um volume de contos de Terron (este livro serve de base para o filme Não devore meu coração, dirigido por Felipe Bragança, previsto para estrear em novembro). Seus tios, como o autor, têm por sobrenome Reiners; sua suposta mãe é conhecida como “a rata”. Suas histórias também são contadas em segunda pessoa: não raro Curt Meyer-Clason conta ao menino o que a rata contara numa gravação, que, por sua vez, era algo que Karl Reiners havia contado pra ela décadas antes. Além das vozes, nessa viagem ao fim da noite os episódios se misturam: lugares (Ilha Grande, Bernburg, Curva de Rio Sujo, Medianeira, Casa do Sol) e épocas (1989, 1975, 1964, 1942) podem acontecer numa mesma página, um mise en abyme, como dois espelhos que se encaram – a noite dentro da noite.

“O livro tem muitas chaves de leitura” comentou o autor. “Pelas resenhas e ensaios mais criativos que gerou, ele parece exigir um esforço interpretativo, o que é bastante satisfatório, num tempo em que tudo passa muito fugazmente.” E, apesar da narrativa nebulosa e maleável, as descrições de ambientes e ações são realizadas em prosa palpável e objetiva, especialmente nas cenas violentas – um espancamento num pântano, uma explosão num banheiro escolar, uma perseguição numa ilha inóspita, um ataque terrorista numa grande cidade. “Enquanto escrevo eu me torno um especialista naqueles assuntos correlatos e marginais que alimentam a escrita. Depois que termino, mal me recordo do que se tratavam”, completou.

Quando chegou sua vez, Terron não usava mais o capote. Declamou um poema de sua autoria chamado “O sonâmbulo canta seus sonhos no topo do edifício em chamas”, parte de um livro inédito. A fala era acompanhada pelas distorções de seu amigo Mário Cappi, guitarrista da banda de jazz experimental Hurtmold. “Quem sabe/ os sonhos não sejam a vigília e tudo esteja ao contrário? Eu estou vivo/ e vocês estão mortos, mas ninguém se importa”, recitou com melancolia. Apesar de ter vários projetos de livro em andamento, Terron não sabe a qual deles se dedicará nos próximos anos. Enquanto o público esvaziava a salinha apertada, ele conversava com os poetas e tomava uma cerveja. Não estava tarde. A noite, lá fora, ainda escondia outra noite dentro de si.

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Contradições Cotidianas (III)

Outras contradições cotidianas aqui. Seus princípios aqui.

Olho por olho, post por post, logro por logro. A existência desse “debate” sequer faz sentido, mas se mesmo após uma argumentação sólida e fundamentada seu camarada ainda insistir que o nazismo foi de esquerda, a única réplica que ele merece é que o stalinismo foi de direita.

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Onipresente é o mal, o mal não escolhe lado, o engenho do mal nunca para, o mal está em cada um. Há quem troque o mal por deus. Há quem o substitua pelo pensamento. Em ambos os modos, é muito perigoso reduzir o mundo a única linha reta. O mal é democrático. O mal não tem ideologia.

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A cana está pros infortúnios do boêmio como Deus para os sucessos do evangélico. Coisas ruins acontecem com todos, mas basta o sujeito esquecer as chaves na casa de alguém: “bêbado?” O cachaceiro torce o pé num paralelo irregular e lá vem a ladainha: “já tá virando alcoolismo!” Arruma uma inflamação na garganta e tem que explicar que tinha uns quinze dias que não tomava uma: “deve ter sido a abstinência então.” Seu conhecido, em outra cidade, é assaltado: “mas também queria o que, andando pra cima e pra baixo com um pé de cana daqueles?” Sofre um acidente de trem e comentam no funeral: “Era só uma questão de tempo… Do jeito que esse sacana bebia, se não fosse de acidente seria de cirrose.”

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Uma lógica rasteira: pegue qualquer coisa que seu inimigo tenha em comum com alguém abominável, notório por isso e nada mais. Coloque ambos numa tabela e enumere essas coisas em comum. Seu inimigo, por associação, será interpretado como abominável, mesmo que essas coisas em comum não tenham qualquer relação com a abominação em si.

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Das obras de arte chatas, nenhuma pior que as performáticas. Você pode fechar o livro ou passar direto pela escultura sem graça sempre que lhe der vontade; você pode ignorar o link, pausar o vídeo ou sair da sala de cinema. Mas a bailarina enrolada em fita crepe tem seus olhos de peixe morto sobre você; o ator no papel de estátua na peça onde não nada acontece está consciente de todos os que se levantam, seja para aplaudir ou para ir embora; o instrumentista emburrado te joga uma maldição enquanto você cochila na cadeira acolchoada. Escolha bem seu espetáculo antes de sair de casa. Você não vai querer arrumar problemas com essa gente.

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Majin Boo é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Trump também é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Majin Boo gargalha enquanto devora pessoas, logo, Trump também devora pessoas. Ok, ok, estou pior que Kataguiri, falando de desenhos animados… usemos um exemplo mais realista. Os inquisidores católicos distorciam informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder; o MBL distorce informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder. Os inquisidores torturavam e queimavam pessoas, logo… O MBL, até onde sei, não. Mas se fossemos seguir a lógica argumentativa que eles próprios usam, é óbvio que sim, dãa. Matemática elementar, diriam.

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Afirmo não ter mais disposição pra discutir nada (ninguém tem mais). Aí recebo o comentário: “temo ter de que pagar por nossa preguiça”. Não tema. Pagaremos por nossa preguiça, mas se nos esforçarmos pagaremos do mesmo jeito (e mais a taxa extra que pagaremos com nossa disposição desperdiçada).