Contradições Cotidianas (III)

Outras contradições cotidianas aqui. Seus princípios aqui.

Olho por olho, post por post, logro por logro. A existência desse “debate” sequer faz sentido, mas se mesmo após uma argumentação sólida e fundamentada seu camarada ainda insistir que o nazismo foi de esquerda, a única réplica que ele merece é que o stalinismo foi de direita.

***

Onipresente é o mal, o mal não escolhe lado, o engenho do mal nunca para, o mal está em cada um. Há quem troque o mal por deus. Há quem o substitua pelo pensamento. Em ambos os modos, é muito perigoso reduzir o mundo a única linha reta. O mal é democrático. O mal não tem ideologia.

***

A cana está pros infortúnios do boêmio como Deus para os sucessos do evangélico. Coisas ruins acontecem com todos, mas basta o sujeito esquecer as chaves na casa de alguém: “bêbado?” O cachaceiro torce o pé num paralelo irregular e lá vem a ladainha: “já tá virando alcoolismo!” Arruma uma inflamação na garganta e tem que explicar que tinha uns quinze dias que não tomava uma: “deve ter sido a abstinência então.” Seu conhecido, em outra cidade, é assaltado: “mas também queria o que, andando pra cima e pra baixo com um pé de cana daqueles?” Sofre um acidente de trem e comentam no funeral: “Era só uma questão de tempo… Do jeito que esse sacana bebia, se não fosse de acidente seria de cirrose.”

***

Uma lógica rasteira: pegue qualquer coisa que seu inimigo tenha em comum com alguém abominável, notório por isso e nada mais. Coloque ambos numa tabela e enumere essas coisas em comum. Seu inimigo, por associação, será interpretado como abominável, mesmo que essas coisas em comum não tenham qualquer relação com a abominação em si.

***

Das obras de arte chatas, nenhuma pior que as performáticas. Você pode fechar o livro ou passar direto pela escultura sem graça sempre que lhe der vontade; você pode ignorar o link, pausar o vídeo ou sair da sala de cinema. Mas a bailarina enrolada em fita crepe tem seus olhos de peixe morto sobre você; o ator no papel de estátua na peça onde não nada acontece está consciente de todos os que se levantam, seja para aplaudir ou para ir embora; o instrumentista emburrado te joga uma maldição enquanto você cochila na cadeira acolchoada. Escolha bem seu espetáculo antes de sair de casa. Você não vai querer arrumar problemas com essa gente.

***

Majin Boo é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Trump também é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Majin Boo gargalha enquanto devora pessoas, logo, Trump também devora pessoas. Ok, ok, estou pior que Kataguiri, falando de desenhos animados… usemos um exemplo mais realista. Os inquisidores católicos distorciam informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder; o MBL distorce informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder. Os inquisidores torturavam e queimavam pessoas, logo… O MBL, até onde sei, não. Mas se fossemos seguir a lógica argumentativa que eles próprios usam, é óbvio que sim, dãa. Matemática elementar, diriam.

***

Afirmo não ter mais disposição pra discutir nada (ninguém tem mais). Aí recebo o comentário: “temo ter de que pagar por nossa preguiça”. Não tema. Pagaremos por nossa preguiça, mas se nos esforçarmos pagaremos do mesmo jeito (e mais a taxa extra que pagaremos com nossa disposição desperdiçada).

Anúncios

Um pensamento sobre “Contradições Cotidianas (III)

  1. O MBL, até onde sei, não. Mas já induz a linchamentos, portanto não se prevê o futuro. Começa-se queimando livros, só depois pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s