Cosmópolis-província – outras impressões de SP

Em fevereiro cheguei em SP. Minhas primeiras impressões foram postadas aqui em março. Depois acrescentei mais algumas num texto ficcional. Talvez este possa ser lido como uma sequência.  

São Paulo é mesmo uma cidade cosmopolita. Sete horas da manhã de um domingo frio e acordo por causa do diabo de um galo.

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Gregório Duvivier: Na última coluna, falei mal do Rio e bem de São Paulo. Ofendi profundamente muitos paulistanos. Recebi uma enxurrada de e-mails: ‘Você fala assim porque não mora aqui. É fácil falar bem, quero ver se mudar pra cá`. Não se elogia São Paulo impunemente. Elogiar a cidade é trair o espírito paulistano. Parece que existe um acordo telepático: ‘Pessoal, vamos combinar que a gente odeia isso aqui? Ótimo.’ Em minha experiência limitada, vejo que isso se repete em quase todas as capitais brasileiras que conheço. A diferença é que enquanto um paulistano aceita tranquilamente que esculhambemos a sua cidade, vai um forasteiro falar mal de Salvador pra um soteropolitano pra tu ver o tamanho da chinelada!

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Ilustração: Peu Dourado

Jamais imaginei que ficaria chocado numa exposição de arte. Fui no MASP, e lá estava uma fila de obras cobertas por flanelas pretas. O CONTEÚDO DE ALGUMAS IMAGENS PODE SER IMPRÓPRIO PARA MENORES. Nem era assim tão hardcore. Só umas mulheres nuas, nada que meu filho de quatro anos nunca tivesse visto. Eis o cosmopolitismo de verdade: absorve até o provincianismo mais cafona.

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Sábado à noite, eu subindo a Rua Augusta bêbado e do nada uma mulher agarra meu pau e não quer soltar mais, me fazendo propostas libidinosas no ouvido. Apesar de me apertar como uma leiteira, tiro sua mão calmamente. “Obrigado, moça, mas não vou querer não.” Mal dou dois passos e ela, do meio da multidão, me grita que queria devolver meu celular. É por esse tipo de coisa que (1) sempre tento falar de boa com o povo e (2) nunca terei um iphone.

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Roteiro para uma primeira tirinha sobre os grevistas

BALADEIRO
(Deitando-se. Relógio de parede marca 21h30) Hoje não!

MILITANTE
(Fechando o laptop) Hoje não!

DEPUTADO
(Recusando um saco de dinheiro) Hoje não!

PLAYBOY
(Batendo ponto numa obra, de capacete, carregando uma marreta e uma marmita) Hoje sim!

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“Veja bem, eu não tive muita oportunidade, não estudei, vim da Bahia jovem, ralei muito, e graças a Deus, hoje meu filho pode fazer uma faculdade. Nada contra, ele pode fazer o que quiser, mas o problema é que ele vive caindo na conversinha dos amigos. Tu acredita que ele quer fazer direito, sendo que antes já cursou arquitetura e fisioterapia? Nem gosto de me meter, mas acho mesmo que ele deveria estudar era música.” Achei tão anti-intuitivo que ganhei meu dia.

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Os jornais anunciando que Temer e Aécio são uns canalhas me lembram aqueles cientistas que levam anos e gastam uma fortuna pra descobrir que café tira o sono, que correr faz a gente suar, ou que sexo faz bem.  A diferença é que enquanto os Sheldons anunciam suas notícias com entusiasmo, a mocinha do plantão da Globo segurava as lágrimas como um menino que deixou o sorvete cair, mas tem vergonha de chorar em público.

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uma-das-paredes-do-cinemaTrês lugares favoritos: o CCSP, a Tapera Taperá, a Caixa Belas Artes. Três lugares que me envergonho em dizer que ainda não fui: o estádio do Morumbi, o topo do Edifício Martinelli e o Templo de Salomão. Três que não fui, quero ir um dia (na vida), mas não me envergonho: o DOM, o bar do Astor, uma dessas salas IMAX.

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Não tem jeito, na segunda palavra sempre entrego minha origem. O “DIa/tarDI/noiTI” não deixa dúvidas: eis um nordestino. Logo ficam todos piabando para me declarar sua baianidade. “Cocos, na fronteira com Minas, conhece?”, afirma a bancária, “você vai se lembrar de Cocos em Grande Sertão: Veredas.” O cabeleireiro é de Itabuna e adora Lençois, o churrasqueiro não quer voltar nunca mais pra Euclides da Cunha, o colega de curso cresceu com amigos meus em Morro do Chapéu, o estranho saiu de Ruy Barbosa em 1963 e nunca ouviu falar de Luiz Eduardo Magalhães. Outro estranho gosta de pescar quando vai pra lá. E tome-lhe Quinjingues, Coités e Jequiriçás que todos acham que conheço, uma vez que todos conhecem Irecê. Aqui é a cidade mais populosa de meu estado natal: todo mundo é baiano, menos o último uber, que era nascido e crescido em Jaçanã.

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Existe sim amor, existe amor pra caralho em SP. Mas… né?

 

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