Refutação a Lavoisier

Bendegó1

Não faz uma semana eu estava lendo Civilização de Kenneth Clark e escrevendo um texto sobre como precisamos enfrentar a barbárie, sobre como precisamos defender as conquistas da civilização, e pensando em como é difícil fazer isso no Brasil. Aqui não há espaço para o livre-pensamento, pois mesmo os pensadores mais alheios às notícias são obrigados – pelas circunstâncias, porque é inevitável – a desviar suas ideias para algo comezinho. Aqui não dá para manter uma investigação civilizatória, contínua, de longa duração, porque o Brasil é o satanás do mundo e não vai te dar tranquilidade, não vai parar de fazer perguntas imbecis, e a cada semana jogará em sua cara uma, duas, três tragédias – Marielle, Paissandu, chacinas; Boate Kiss, Mariana, Chapada Diamantina, tudo relativizado pelos idiotas da objetividade, como se fosse possível relativizar a destruição –, para não mencionar o desastre cotidiano que é nossa política, que é o convívio com o próximo, tudo sendo dissolvido metodicamente, e agora mesmo eu preciso trabalhar e não consigo pensar em outra coisa além do incêndio no Museu Nacional. Quando soube, de imediato pensei no esqueleto de preguiça-gigante da cidade de Central, em meu sertão baiano, sobre o qual há dois anos fiz uma matéria em que um guia me falava com decepção que havia a promessa de ele ser devolvido à cidade; pensei em como lhes disseram que não poderiam mantê-lo lá, e por isso precisavam levá-lo para o Rio de Janeiro, e em como isso pode até ser justificável, por um lado, pois mais gente haverá de ter visto o esqueleto, estando ele no Rio – porém quase ninguém de minha região, eu mesmo jamais vi e verei –, mas pensei ainda em como muitos habitantes da própria cidade ignoram as migalhas que eles deixaram no Museu Arqueológico de Central, e em como eles mesmos vandalizam as pinturas rupestres do Riacho Largo, que não podem ser transportadas para metrópole alguma. Então penso na Agulha de Cleópatra coberta por centímetros de fuligem em Nova York, em Benim reclamando seus artefatos históricos que estão nos museus europeus, e em Poussin sendo restaurado no MASP, e sei que para alguém de fora faria mais sentido viajar ao Rio que a Central para ver uma preguiça-gigante – e realmente não sei o que pensar dos museus, mas, definitivamente, prefiro tê-los que não tê-los. Então penso nos cinquenta anos de O Bandido da Luz Vermelha, e em como os nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e penso numa revistinha da Turma da Mônica que li em 1992, e em como os nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e vejo a Pedra de Bendegó, sobre a qual havia lido num paradidático em 1998, o pedregulho encontrado no Monte Santo, mesmo local onde os soldados da república se instalaram durante a Guerra de Canudos, e vendo o meteoro intacto, imponente, isolado em meio às ruínas do museu, me é inevitável pensar que o sertanejo é mesmo um forte, antes de tudo, porém nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e penso que o brasil é uma grande refutação a Lavoisier, pois aqui tudo se perde e nada se transforma, e penso em como é triste ser obrigado a pensar nisso tudo.

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