Substituir José de Alencar, por exemplo

Não sei vocês, mas nunca consegui ler nada de José de Alencar. Em meu último texto pro Blog do IMS discorro sobre o fetiche da leitura, pedantismo e anti-intelectualismo, como as escolas assassinam leitores em potencial, e apresento uma modesta proposta. Confiram também os outros textos que publiquei lá.

A melhor vingança

Após meses de um festim ruidoso, colérico, grotesco e delirante, uns ficaram de luto, outros de ressaca. Quem já perdeu uma pessoa querida provavelmente reconhecerá a sensação. Ainda que a tragédia possa ser vislumbrada bem antes, quando finalmente acontece, uns desmoronam, outros se isolam, uns se desesperam e outros, por mais que também estejam arrasados, assumem a responsabilidade de reconfortar os enlutados e cuidar dos preparativos fúnebres. Quem já se embriagou numa festa entre amigos reconhecerá um padrão análogo.

Ao contrário do que muitos poderão pensar, não separo por grupo eleitoral os enlutados dos ressacados, pois aqueles que optaram pelo presidente eleito tampouco acordaram contentes. A ficha já caiu para alguns: o ultraje foi institucionalizado. Eles sabem que no fundo votaram num projeto vazio, contra uma ideia, apenas; o eleito não comemora com o povo, pois não foi ele quem ganhou, e sim o outro que perdeu. Seus eleitores mais conscientes pressentem que não há nada no horizonte, que estão prestes a encarar um deserto. Como intuía Baudelaire, o Vazio pode ser um demônio muito mais feroz que o Horror.

Mas ignoremos essa gente ao menos por uns dias. Descansemos, pensemos em nós mesmos. Se há um único alívio com o fim desse processo eleitoral, é que agora podemos evitar essas pessoas. Por uns dias, não somos mais obrigados nos mascarar com seu infantilismo para tentar lhes explicar o óbvio; não devemos mais nos rebaixar à sua linguagem simplória para tentar desmentir o inacreditável e denunciar o escancarado; não precisamos mais desafiar nossa própria paciência em nome de um futuro possível, de um bem coletivo que, afinal, também os acolheria.

Agora sabemos que, diante de atrocidades, eles preferirão acreditar em mentiras reconfortantes. E quando a brutalidade chegar neles – porque, sabemos, também chegará –, serão suas mãos que estarão lambuzadas com o próprio sangue. Eles não encontrarão amparo em outras mãos ensanguentadas, pois nessas horas os bárbaros só pensam em si. No entanto, não guardemos ressentimentos, não anotemos seus nomes para uso posterior, não lhes desejemos nada de mal; não sejamos Cassandra de Troia. São eles que semearam esses ventos. E acordarão ao lado da tormenta, e em sua companhia almoçarão, e sairão juntos, e haverão de se deitar com ela novamente. Nós, mirando o impossível, fizemos nossa parte: falhamos melhor. Agora devemos pensar em nós mesmos, digerir o luto e refletir sobre o que conquistamos nessas últimas semanas enquanto elaboramos uma estratégia de resistência.

Sim, pois apesar da derrota nas urnas – e a vontade da maioria há de ser respeitada –, muito se ganhou. Apesar da avalanche do primeiro turno, muitos finalmente saíram de casa para dialogar com quem ainda estava disposto a uma conversa sincera, ou para mostrar aos retraídos que as ruas não estavam vazias, ou para experimentar o calor que apenas a presença pode fornecer. Essas pessoas descobriram que resistir é continuar, e que para continuar, é preciso coragem – coragem de sair de vermelho, de recitar um poema na calçada, de declarar seu amor em público, de ostentar seus livros favoritos – e os estranhos no meio de rua nunca me pareceram tão interessantes.

O que nos resta de humano veio à tona; muitos deixaram de lado ódios e rixas antigas em nome de algo maior. E, acima de tudo, finalmente esboçamos uma frente antifascista que se fazia urgente desde certa noite de abril em que um deputado federal evocou ao vivo o nome de um torturador. Manifeste-se: isso poderá ser útil a alguém. É um conforto ouvir o que o outro tem a dizer; é um conforto saber que alguém está ouvindo. Reitero o apelo que fiz há alguns dias: manifeste-se com vinho, poesia, ou virtude. Parar é dar espaço para as bestas, é recuar para que elas avancem mais; ceder é aceitar a violência. Agora é o momento de aguentar de pé as bordoadas, de fiscalizar a democracia, de amparar quem já começa a sofrer por isso.

Nos destruir não será tão fácil quanto eles pensavam. Nossos fascistas não sabem nem o que é o fascismo. Nós sabemos, conhecemos seus mecanismos melhor que eles, e podemos nos preparar. Nada incomoda mais os rancorosos do que a bondade e a alegria. Nas últimas semanas fui tomado por uma vontade explosiva de ser melhor, de sorrir mais e ser mais gentil, de tentar ajudar de alguma forma, como que para descompensar por toda essa maldade que lateja em minha volta. Viver bem é a melhor vingança contra quem nos odeia; as boas ações são uma tortura aos que anseiam pelo mal.

Meu “Kit Comunista”

Comecemos a “doutrinação” o quanto antes. A resistência por enquanto é pacífica, porém precisa ser severa, para que não chegue ao ponto de requerer armas. Precisamos ocupar todos os espaços, incansavelmente – não somente a Av. Paulista, o Eixo Monumental, a Barra, mas também as ruas de nossas cidades pequenas, as ruas de Nova York, Londres, Berlim – a ONU, o Vaticano, o que for. Ninguém solta a mão, ninguém dá brecha. Pensei nessa lista há uns dias e desisti; mas então, num desses eventos, uma pessoa pediu sugestões de leitura aos debatedores; dois dias depois, vi nas ruas essa magnífica curadoria de livros que foi a eleição. Como sempre me pedem indicações, inclusive esta semana me pediram bastante, voilà. Penso mais no nazismo, e são apenas sugestões, ninguém realmente precisa ver nada;  acho que cada um pode montar o seu kit comunista pessoal; ou mesmo fazer kits comunistas temáticos, kits comunistas só com obras de capa vermelha, kits comunistas para adolescentes furiosos. No meu, não incluí músicas, que estão em minha Playlist do Apocalipse, uma mistura líquida de luto e revolta. Me concentrei em livros e filmes, e minha única restrição é que tenham sido lançados no Brasil. Não há ordem aqui – ordem, sabemos, é coisa de militar (esta é a piada).

The Wall – (Alan Parker)

Todo mundo conhece Roger Waters e o Pink Floyd, mas talvez nem todas tenham visto esse filme, uma espécie de musical psicodélico. No entanto, agora faz mais sentido cantar “Hey, kids, leave the teachers alone!”  Também sugiro a poesia de Roberto Piva.

Berlim – Joseph Roth

Série de crônicas que cobrem a ascensão gradual da barbárie na Berlim dos anos 30, escritas no momento em que a coisa crescia. É um livro curto e de prosa leve, apesar do peso que há em lê-lo hoje, com o conhecimento do que seria o futuro daquelas pessoas, e de como aquilo é semelhante ao que estamos vivendo. A ser visto com o filme O Ovo da Serpente.

A Arquitetura da Destruição

Neste documentário, o sueco Peter Cohen discorre sobre a estética nazista, reacionária às artes de vanguarda, e defende que a barbárie nazista foi também um projeto estético, um delírio de um megalomaníaco pintor frustrado, o próprio Hitler. Lembra algo?

George Orwell

A maioria haverá de pensar em A Revolução dos Bichos e 1984, mas eu penso principalmente na não ficção. Orwell viveu entre mendigos, entrou em minas de carvão, serviu na Ásia e resistiu na Catalunha, e escreveu ensaios como “Reflexões sobre Gandhi”, “Como morrem os pobres”, “Atirar num elefante” e “O Enforcado”. Para mim o ensaísta mais pertinente do século XX, junto com James Baldwin.

Investigação sobre um Cidadão acima de Qualquer Suspeita (Elio Petri)

Um inspetor de reputação ilibada assassina sua amante e começa a plantar pistas escandalosas contra si, para ver se será acusado pela polícia. Sobre como a justiça realmente funciona para os eleitos, sobre como o discurso se adequa aos interesses. Lembra algo (II)?

O Complô (Will Eisner)

Nesse quadrinho, Eisner conta a história do Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto mentiroso que denunciava uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo, e que foi bastante usado pelos nazistas para incitar a população alemã a se revoltar contra os judeus. Lembra algo (III)? – tá, parei. A ser lido com Pape Satàn Aleppe, as “bustinas” de Umberto Eco.

O Grande Ditador (Charles Chaplin)

Por causa desta cena:

https://www.youtube.com/watch?v=R9RLNhK8UiQ

Ryzsard Kapuscinski

Esse escritor polonês passou décadas viajando por países de terceiro mundo, como correspondente de um jornal, enquanto fazia anotações particulares em caderninhos. Após se aposentar, transformou essas anotações em obras-primas como O Xá dos Xás, sobre Reza Pahlavi e o Irã, e O Imperador, sobre Hailé Selassié e a Etiópia.

Amém (Costa-Gavras)

Um soldado nazista que acreditava nas mentiras do partido descobre por acaso que um processo químico inventado por ele estava sendo usado para assassinar judeus. Ao tentar denunciar isso ao Papa Pio XII, não recebe resposta. Sobre a cumplicidade da igreja católica com o holocausto e como muitos nazistas não eram exatamente maus, mas apenas pessoas que foram enganadas.

Cumbe (Marcelo D’Salete)

Foi por essa HQ sobre escravos revoltosos que D’Salete ganhou o Eisner, maior prêmio do quadrinho mundial. Além de D’Salete ser um gênio da composição de página, toda sua obra é perfurante, com destaque para Angola Janga, um calhamaço sobre a resistência de Zumbi dos Palmares, e dos contos de Encruzilhada, sobre o racismo cotidiano numa metrópole. A ser lido com a poesia de Auden e a de Szymborska. 

Casablanca (Michael Curtis)

Casablanca é uma cidade costeira marroquina que, durante a durante a Segunda Guerra, foi a última parada dos judeus que fugiam do nazismo. O filme, witty e bittersweet, é uma história sobre como nossas complicações amorosas operam em tempos de guerra.

TAZ (Hakim Bey)

Como as próprias revoluções estão sujeitas à autodestruição, Hakim Bey apresenta as Zona Autônomas Temporárias, interregnos anarquistas que surgem entre a ascensão e a corrupção da tomada revoltosa. Vale checar a coleção Baderna, das editoras Conrad e Veneta e A Busca pela Imortalidade, de John Gray. Ou a série Mr. Robot. 

Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla)

Um filme selvagem, hipnótico e perturbador baseado na história real do criminoso que assombrou São Paulo nos anos 60. Este ano completa 50 anos, porém o que ele denuncia permanece fresco, como se tivesse sido lançado hoje, uma vez que estamos estagnados, sem resolver nenhum de nossos problemas históricos. A ser visto com os cartuns que Millôr fez nos anos 60 e 70.

Lacombe Lucien (Louis Malle)

A entrada num grupo de resistência é recusado a um jovem francês, que se torna colaboracionista. Sobre como o ressentimento corrói almas, e como uma única pessoa armada pode controlar todo um grupo. A se ver com Sunshine – O Despertar de um Século, Tony Manero, O Conformista, o cinema neorrealista em geral.

V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd)

Também bastante conhecido por ter virado filme, é a história de um Revolucionário misterioso que tenta destruir sozinho um estado totalitário distópico. A ser visto com O Grupo Baader-Meinhof e a série Black Mirror. E tudo mais de Moore, principalmente Watchmen.

Aquarius (Kléber Mendonça Filho)

Nesse filme, que rendeu represálias ao diretor pelo foratemer em Cannes, é contada a história de uma jornalista que defende com unhas e dentes seu apartamento ameaçado pelos donos de uma construtora. Saí do cinema com vontade de jogar pedras na FIESP. O cinema pernambucano atual é, em si, resistência, é som e fúria; vejam também O Som ao Redor e Recife Frio, vejam A Febre do Rato, vejam tudo.

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