A melhor vingança

Após meses de um festim ruidoso, colérico, grotesco e delirante, uns ficaram de luto, outros de ressaca. Quem já perdeu uma pessoa querida provavelmente reconhecerá a sensação. Ainda que a tragédia possa ser vislumbrada bem antes, quando finalmente acontece, uns desmoronam, outros se isolam, uns se desesperam e outros, por mais que também estejam arrasados, assumem a responsabilidade de reconfortar os enlutados e cuidar dos preparativos fúnebres. Quem já se embriagou numa festa entre amigos reconhecerá um padrão análogo.

Ao contrário do que muitos poderão pensar, não separo por grupo eleitoral os enlutados dos ressacados, pois aqueles que optaram pelo presidente eleito tampouco acordaram contentes. A ficha já caiu para alguns: o ultraje foi institucionalizado. Eles sabem que no fundo votaram num projeto vazio, contra uma ideia, apenas; o eleito não comemora com o povo, pois não foi ele quem ganhou, e sim o outro que perdeu. Seus eleitores mais conscientes pressentem que não há nada no horizonte, que estão prestes a encarar um deserto. Como intuía Baudelaire, o Vazio pode ser um demônio muito mais feroz que o Horror.

Mas ignoremos essa gente ao menos por uns dias. Descansemos, pensemos em nós mesmos. Se há um único alívio com o fim desse processo eleitoral, é que agora podemos evitar essas pessoas. Por uns dias, não somos mais obrigados nos mascarar com seu infantilismo para tentar lhes explicar o óbvio; não devemos mais nos rebaixar à sua linguagem simplória para tentar desmentir o inacreditável e denunciar o escancarado; não precisamos mais desafiar nossa própria paciência em nome de um futuro possível, de um bem coletivo que, afinal, também os acolheria.

Agora sabemos que, diante de atrocidades, eles preferirão acreditar em mentiras reconfortantes. E quando a brutalidade chegar neles – porque, sabemos, também chegará –, serão suas mãos que estarão lambuzadas com o próprio sangue. Eles não encontrarão amparo em outras mãos ensanguentadas, pois nessas horas os bárbaros só pensam em si. No entanto, não guardemos ressentimentos, não anotemos seus nomes para uso posterior, não lhes desejemos nada de mal; não sejamos Cassandra de Troia. São eles que semearam esses ventos. E acordarão ao lado da tormenta, e em sua companhia almoçarão, e sairão juntos, e haverão de se deitar com ela novamente. Nós, mirando o impossível, fizemos nossa parte: falhamos melhor. Agora devemos pensar em nós mesmos, digerir o luto e refletir sobre o que conquistamos nessas últimas semanas enquanto elaboramos uma estratégia de resistência.

Sim, pois apesar da derrota nas urnas – e a vontade da maioria há de ser respeitada –, muito se ganhou. Apesar da avalanche do primeiro turno, muitos finalmente saíram de casa para dialogar com quem ainda estava disposto a uma conversa sincera, ou para mostrar aos retraídos que as ruas não estavam vazias, ou para experimentar o calor que apenas a presença pode fornecer. Essas pessoas descobriram que resistir é continuar, e que para continuar, é preciso coragem – coragem de sair de vermelho, de recitar um poema na calçada, de declarar seu amor em público, de ostentar seus livros favoritos – e os estranhos no meio de rua nunca me pareceram tão interessantes.

O que nos resta de humano veio à tona; muitos deixaram de lado ódios e rixas antigas em nome de algo maior. E, acima de tudo, finalmente esboçamos uma frente antifascista que se fazia urgente desde certa noite de abril em que um deputado federal evocou ao vivo o nome de um torturador. Manifeste-se: isso poderá ser útil a alguém. É um conforto ouvir o que o outro tem a dizer; é um conforto saber que alguém está ouvindo. Reitero o apelo que fiz há alguns dias: manifeste-se com vinho, poesia, ou virtude. Parar é dar espaço para as bestas, é recuar para que elas avancem mais; ceder é aceitar a violência. Agora é o momento de aguentar de pé as bordoadas, de fiscalizar a democracia, de amparar quem já começa a sofrer por isso.

Nos destruir não será tão fácil quanto eles pensavam. Nossos fascistas não sabem nem o que é o fascismo. Nós sabemos, conhecemos seus mecanismos melhor que eles, e podemos nos preparar. Nada incomoda mais os rancorosos do que a bondade e a alegria. Nas últimas semanas fui tomado por uma vontade explosiva de ser melhor, de sorrir mais e ser mais gentil, de tentar ajudar de alguma forma, como que para descompensar por toda essa maldade que lateja em minha volta. Viver bem é a melhor vingança contra quem nos odeia; as boas ações são uma tortura aos que anseiam pelo mal.

2 pensamentos sobre “A melhor vingança

  1. Pingback: Conje ou conge? | Paulo Raviere

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