Três poemas sobre a Era do Ódio

Palimpsesto

Meu coração é um palimpsesto
de cicatrizes: escara devora
escara; o sangue se mistura
com os sangues; os tecidos
sofrem eclipses; a pele tece
lençóis sobre as feridas. Nódoa
na memória: o sonho se afoga
no sangue do sol; o olho implora
para ver as veredas verdes de uma
verdade; a ferida se degenera,
se regenera o tecido; somente
o sonho me ensina a renascer.
Palimpsesto é resistência: jamais
houve pensamento que não fosse
canibal; cada novo nascimento
é uma punhalada na História.

As maçãs do fel

Planto a semente das maçãs do fel
não conto fruto antes da estação
não sai uma flor até que o vasto céu
seu choro, em luto, despeja no chão;
Da vil semente salta um morador
de um caule bruto a primavera brota
e finalmente cresce de uma flor
o grande fruto cujo galho entorta;
Um jardineiro cuida das maçãs
desconhecendo aquele mel secreto
que mesmo podre pulsa nas manhãs
e o envenena quando um galho o espeta;
Precisamos podar de nossas mentes
o ramo torto que abriga a serpente.

 

carro queimado

Mise en abyme

vira-latas que estão roendo os ossos
expostos de uma metrópole nua,
contaminada por hordas hidrofóbicas
de fous littéraires, paranoides
hipnotizados por espelhos negros
que refletem caricaturas elétricas
de seus pálidos cocurutos dopados,
cérebros depilados por exasperantes
foices de luz azul que transportam
seus espíritos das avenidas solares
e retilíneas para obtusos labirintos
salpicados pelo miasma dos bueiros
que arrotam fel e chapiscam baratas
nas carcaças resfolegantes de angélicos
vagabundos, baratas no demônio amarelo
que recende a arcanjo mefistofáustico
colecionador das caveiras calcinadas
de cavalheiros polidos e aquecidos
que há exatos cinquenta anos regavam
em suas mentes a maldade voluntária
que haveriam de levar aos próprios afetos
com a suavidade do garçom que serve
outro martini seco ao habitué que sempre
lhe dá as gorjetas mais gordas, e a mão
que paga também afaga as bicheiras
ressequidas das costelas sulfúricas dos
vira-latas que estão roendo os ossos
expostos de uma metrópole nua,
contaminada

Estes poemas fazem parte do livro As Maçãs do Fel (inédito)

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